Muito além da intolerância por uma infância livre do ódio

Os adultos são o futuro da humanidade pois são eles que criam às crianças. Essa “licença” retórica pode ser usada quando se nota o discurso do ódio político em crianças. Em uma escola particular e tradicional de Porto Alegre, uma criança de seis anos, desenhou a imagem da presidente Dilma morta e do ex-presidente Lula preso. O desenho apareceu no início do ano, no auge da crise política em meados de fevereiro e março, junto com o episódio da prisão do Lula.

Segundo o doutor em Psicologia Social e professor da UFRGS, Pedrinho Guareschi, nós somos os resultados das nossas relações. “A criança vai formando sua moralidade a partir do que escuta, ela se expressa com desenhos e não palavras”. Para Pedrinho a criança é muito mais sensível, pois, vê tudo. Ele lembra, ainda, que há a questão da moralidade, que vai sendo criada aos poucos e a criança não vê se é certo ou errado.

Para a doutora em Educação e professora da UFRGS, Fabiana Amorin Marcello, a escola deve trazer a discussão as questões do cotidiano. “Não podemos assumir como pressuposto de que as crianças não entendem ou apenas repetem. Elas estão se apropriando, a partir dos elementos que dispõem, daquilo que assistem e ouvem”.

Para Pedrinho, os pais devem fazer a criança refletir e cita Paulo Freire que vê como essencial, no projeto pedagógico, fazer perguntas, pois assim ela consegue pensar. “Precisamos construir um senso crítico, moral e ético para se ter uma maior compreensão do mundo e assim melhorar as relações humanas”. Já Fabiana lembra que tais expressões dizem respeito, muito mais, a um sintoma do nosso tempo. “Indica que aprender a conviver com o dissonante, com o diferente parece ser, cada vez mais, um desafio a enfrentar e, cabe a escola criar espaços de reflexão”.

Compreender o mundo e dialogar para ser cidadão

Uma iniciativa do colégio Santa Inês em Porto Alegre tem trabalhado a cidadania com seus alunos através das Assembleias Escolares. O projeto nasceu no ano de 2006 junto com as ações Convivência Escolar e Educação para Paz e visa a reflexão, o diálogo e a boa convivência dentro e fora da escola.

Uma vez por mês, cada turma tem um momento de reflexão que inclui felicitar, questionar e destacar. Os temas tratados são os problemas da classe e o aluno é o protagonista do bom ambiente escolar. A Assembleia consiste em colocar as crianças numa roda de conversa e dar espaço para cada uma dizer como que sente. Os alunos têm como normas da assembleia: ouvir e escutar com atenção e, não interromper o colega enquanto estiver falando.

Para a psicóloga educacional da instituição, Bianca Sordi Stock, as Assembleias criam espaços efetivos de participação dos alunos. “Não é uma falsa participação manipulatória, as pautas deles são valorizadas e a escola deve acolher as manifestações das Assembleias, pois elas são a mediação, deve-se trazer um diálogo da paz, onde o aluno é escutado e deve escutar”.

Bianca lembra que o professor está apto para questionar o que é uma atitude não-violenta e como se deve fazer uma crítica sem ofender. “As redes sociais trazem uma falsa impressão de escuta e de diálogo, nós incentivamos os alunos que nada seja discutido nas redes sociais e na covardia do anonimato. Eles precisam perceber a relação com o outro, tem que ser olho no olho, para se ter empatia. Nosso princípio é educação, diálogo e acolhimento”.

As atividades paralelas como cinema e fotografia são usadas para analisar o mundo além dos muros no qual essas crianças vivem. “Eles fotografaram os moradores de rua e se deparam com a situação destas pessoas e no debate se deram conta de uma realidade diferente”. Segundo Bianca é preciso educar o olhar pois só assim elas vão se questionar. “Se elas não visualizarem o entorno, como estarão sensíveis à sociedade? Só nos livros e na internet ficarão distantes da realidade e assim é fácil criar um discurso do ódio e do medo”.

Ela lembra ainda que a criança não tem maturidade e seu discurso simbólico vai sendo polido durante o seu crescimento. “Não dá para culpar a criança, pois ela vai expressar sua opinião sem tanto filtro, sem tanta empatia. Se colar uma fala violenta, ela vai reproduzir, então é preciso criar ferramentas e referências para que desenvolva a solidariedade e a responsabilidade cidadã”, completa.

Texto de Ana Paola de Oliveira, jornalista e mestre em comunicação.

TEXTO DEAna Paola de Oliveira
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