by Zindy

Não avance para o próximo ‘capítulo’ de sua vida antes de terminar o anterior

Ana Henrique

Você já se perguntou qual é o próximo capítulo de sua história? Que reviravoltas lhe aguardam logo ali, na próxima esquina? Seríamos nós como os personagens de um romance? Estaríamos na mesma encruzilhada que Sofia, a protagonista de Jostein Gaarder, ao descobrir-se criação de uma vontade que não a sua? Será que vivemos presos a uma intrincada rede de movimentos roteirizada por uma inteligência onipresente que tudo sabe e tudo prediz, ou melhor, prescreve? Ou seríamos como sementes carregadas pelo vento?

Já me explico: acredito que esse papo de destino, no sentido de aceitar o que é estabelecido sem resistir, não faz sentido algum. Isto porque vamos nos construindo como seres humanos, pensantes e dotados de agência, isto é, de vontade e poder para agir, através das experiências que temos e do posicionamento que tomamos frente aos eventos que, consciente ou inconscientemente, desencadeamos e que vão se desenrolando em nosso caminho.

Uma única escolha não pode ditar o tom nem o sabor de nossos dias. Pelo contrário, acredito firmemente que a maneira que vivemos, se em guerra ou em paz com nossos desafios, é fruto de longa prática e perseverança, do tipo que só um dia após o outro pode proporcionar.

Durante a jornada, enfrentamos múltiplas adversidades e somos assistidos por bênçãos sem, muitas vezes, nos darmos conta do cenário mais amplo em que cada elemento se encaixa. Nos agarramos ao que é imediato, antecipamos o que está na próxima página, no capítulo seguinte. A partir do momento em que estamos, do ponto de vista presente, ponderamos o que está por vir.

Aqui, portanto, está nossa resposta: somos, sim, como as páginas de um livro. Mas somente quando assumimos, simultaneamente, o papel de escritor e protagonista da obra. É claro que projetamos dúvidas e expectativas sobre o amanhã. De vez em quando, até mesmo convocamos fantasmas do passado para preenche-lo com significados que já nem fazem mais tanto sentido. O amanhã, no entanto, permanece um eterno espaço em branco; uma página cujo esboço vamos delineando à medida que tomamos as rédeas de nossa existência e nos situamos como agentes criadores.

 

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Ana Henrique
Escritora, editora e fotógrafa. Formada em História pela Universidade Federal de Santa Catarina e em Antropologia pela Goldsmiths University of London. “Quando crio, busco sempre associar duas formas de linguagem: a escrita e a imagética”. Os contos Jacques, Elodie e África foram publicados na antologia Contos Fantásticos da 42, da Editora 42.

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