Se você, assim como eu, costuma carregar o ‘mundo’ nas costas, este texto é para você

Às vezes eu esmoreço. Parece-me que carrego o mundo nas costas. Então, tomo de uma mão espalmada na tela do computador e puxo-a para baixo com o intuito de fechá-la. Jogo o corpo, em sua razão de ser apenas corpo, na poltrona e fecho os olhos. Com um pouco de sorte talvez tire um cochilo. Mas quando essa benevolência não me ocorre, lembro-me do testemunho de uma senhora que sobreviveu a um naufrágio. Os outros sobreviventes, vendo a sua calma, perguntaram-na como conseguiu manter-se tão serena. Ao que ela respondeu: “Deus me deu dois filhos. Um está no céu e o outro na Terra. Então seja para onde eu for, estarei metade triste e metade feliz. Para que me preocupar?”.

Daí me recordo de Dalai Lama, ainda menino, dizendo que se um problema tem solução não devemos nos preocupar. Certo, Dalai, mas a gente sempre acha que o problema da vez não tem solução. Nesse momento Guimarães Rosa sussurra em meus ouvidos que é só aos poucos que o escuro se torna claro. Assim, me dou conta de que passei um bom tempo formulando pensamentos alheios acerca da ‘dor’, pelo simples fato de (lá vou eu de novo) como diz Drummond, “a dor é inevitável, o sofrimento não”. E é assim, pensando na dores fraseadas dos outros que eu esqueço as minhas próprias dores.

Levanto, bebo água enquanto olho, através da janela do 9º andar, um rapaz cabisbaixo que atravessa a faixa de pedestre, não sei o que lhe pesa mais: se mochila que carrega nas costas ou o pés cansados. Vislumbro o cadeirante que pede esmolas entre os carros e lembro de que outro dia lhe ofereci ajuda com a sacola de compras que despencara no chão: “sou cadeirante, moça, não inválido. Vivo e faço tudo sozinho” – Disse-me ele descendo com destreza da cadeira e juntando as laranjas espalhadas. Senti um nó na garganta, um não sei o quê. Achei-o grosseiro, mas ao mesmo tempo corajoso. Ele se conhece, ele sabe superar-se, ele não tem medo de dizer o que pensa, ele acredita em sua força… Ah, sim, ele é melhor do que eu que tento carregar o mundo nas costas por não ter coragem de dizer o que penso sobre determinadas situações, por cerrar os dentes num riso quadrado e afirmativo de um “tudo bem” quando na verdade gostaria de verbalizar um generoso “foda-se”. 

Mas isso é questão de natureza. Acho. Pois eu tenho essa natureza de pedir desculpas mesmo quando penso que não estou errada só para que tudo fique em paz. Com isso termino por não ser eu mesma. Será que a gente aprende a ser autêntico? E deixar de ser esse “eu” inautêntico que se adapta a tudo e a todos?

Observar os exemplos deve ser um jeito de aprender e se encorajar a não mover montanhas por coisas e/ou pessoas que não nos reconhecem como “portadores da necessidade especial de seu devido e justo valor”. Enquanto pensava em tudo isso, despejei no copo mais um bocado de água. Quantos minutos se passaram desde que eu me levantei do sofá e vim tomar água? Uns dois? Minha vida inteira se espreme em dois minutos. Mas como ela é eterna. Outro gole e outra olhada no cadeirante: ele está assobiando “Patience” de Guns N’ Roses  – ele faz isso todos os dias. Todos os dias, desde que eu me lembre.  A água não é mesmo a coisa mais preciosa da Terra? Quando volto ao computador, estou rediviva.

Clara Dawn

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Clara Dawn
Psicopedagoga e escritora. Como psicopedagoga é autora do projeto: "A drogadição na infância e adolescência numa perspectiva preventiva aos transtornos mentais e ao suicídio". Como escritora já publicou 7 livros. Dentre eles: O Cortador de Hóstias (Romance), Alétheia(Romance) e Sófia Búlgara e Tabuleiro da Morte (Crônicas de prosa poética). Clara Dawn também produtora de conteúdo da marca Raízes Jornalismo Cultural.




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