Não teremos corrupção em 20 anos se começarmos agora a não ter corrupção

Criticar o político  e não atentar para as próprias atitudes é um equívoco. Não pedir a nota fiscal porque não quer perder tempo e, dessa forma, retirar recursos da saúde e da educação; só respeitar os limites de velocidade no trânsito quando há radar próximo; não registrar a empregada doméstica, o que é uma exigência da lei; todas essas situações a pessoa acha que não é corrupção, que essa prática deletéria seria uma exclusividade do campo político. Cuidado. Vale lembrar que que não existe corrupto sem corruptor. Não teremos corrupção em 20 anos se começarmos agora a não ter corrupção em nossa vida, no nosso cotidiano, e também dentro da nossa casa. Cobrar honestidade dos políticos é fundamental para o exercício da democracia, mas não se deve esquecer de cobrar de si mesmo atitudes corretas nas relações do dia a dia.

Vale ressaltar que a ética é, acima de tudo, dar exemplo. Ela funciona para a passagem de valores por dois mecanismos básicos: convencimento e coação. Muitas vezes a coação, depois de um tempo, se torna convencimento. Um exemplo em nosso país foi o uso do cinto de segurança. No início, a adesão aconteceu pelo receio de receber multas.

Hoje, duvido que a maioria que entra no carro e coloca o sinto se lembre da multa. Já foi pressão, virou convencimento. Há 30 anos em qualquer auditório, sala de aula, espaço fechado, havia uma placa: “Favor não fumar”. Há 15 anos “Proibido fumar”. Hoje não há placa e não precisa. Esse comportamento está introjetado pela pressão e pelo convencimento.

Meu pai era bancário em Londrina. Até os 6 anos, eu brincava dentro do cofre da agência. Não havia transferência eletrônica de pagamento, então, o cofre era do tamanho de um quarto. Eu brincava em meio às cédulas. Na primeira vez que entrei, meu pai pôs a mão no meu ombro de forma firme e me disse de modo gentil: “o que não é teu não é teu”. Ponto. Não bastava o meu pai falar, tinha que mostrar. Todo gerente de banco, como ele, recebia presentes: meia leitoa, uma caixa de cerveja. Com toda a gentileza, ele devolvia. Isso me pautou pelo resto da vida, inclusive quando fui secretário da educação da cidade de São Paulo, período em que eu era responsável pela administração de um orçamento superior a 3 bilhões de reais.

Existem vários desvios éticos que são praticados no dia a dia com alegadas boas intenções: pagar meia-entrada não sendo estudante para “prestigiar a cultura”, deixar a empregada doméstica sem registro para “ter condições de manter o emprego dela”. Arranja-se uma justificativa para servir de desculpa. É como se a pessoa dissesse: “eu me comporto desse modo, que não é completamente defensável, mas a minha intenção é boa”. 

Essa conduta é extremamente danosa, na medida em que a ética da conveniência leva a uma armadilha, que é aceitação do relativismo ético. O relativismo é “vale qualquer coisa desde que, naquela circunstância, eu consiga algo de vantajoso para mim”.

A ética da conveniência é aquela em que começo a trazer o relativismo para dentro da convivência. Se a minha intenção é passar de ano, é aceitável que eu cole. Porque o meu objetivo é superior à infração ética e à desonra de obter uma nota sem merecimento. Isso é absolutamente danoso. Se a minha intenção é bater uma meta numa empresa, lamento, mas, se eu tiver de dissimular, conseguir acesso a informações privilegiadas, tendo de fazê-lo, porque o meu objetivo de bater meta se sobrepõe a qualquer outro.

Essa avaliação em que se valoriza o que é apenas mais conveniente cria a ideia do “vale qualquer coisa” – o que pode até auferir vantagem num primeiro momento, mas depois, inequivocamente, resulta em degradação.

(Trecho do extraído do livro “Educação, convivência e ética – audácia e esperança – Capítulo 7  – De Mario Sergio Cortella – Cortez Editora, São Paulo, SP – 2015).

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