Celso Moraes F.

“O diabo não é tão feio como se pinta” – Por Jadir Pessoa

“Em Provérbios em Goiás, Ático Vilas Boas da Mota registra a presença desse ditado em países europeus, o que nos dá uma boa senha para uma compreensão simples sobre cultura e, por extensão, sobre cultura popular. Falar de cultura popular não significa falar das coisas que são inventadas e cultivadas em cada canto isoladamente. É melhor a gente radicalizar e partir do pressuposto de que muito pouco inventamos. O que cantamos, vestimos e conservamos como culinária regional, significa muito mais assimilação, incorporação, na interação com outros grupos humanos, heranças que recebemos. Ah!, então, o que chamamos de cultura popular é mera cópia do que vem de fora? Também não é assim. Pertence à natureza humana sempre interferir nas heranças recebidas. O pão de queijo chegou de Minas e nós nos atracamos com ele, tanto que, provavelmente, alguém foi tentar fazê-lo e não sabia que tinha que escaldar o polvilho. Aí saiu o nosso tão apreciado biscoito de queijo. Entenda-se bem, esta é uma interpretação. Por isso o ‘provavelmente’. Mas a lógica é esta, amplamente assumida pela antropologia, para se entender o que é cultura e, principalmente, cultura popular. Cultura é o que fazemos com aquilo que herdamos, para me referir a Carlos Rodrigues Brandão. Ou, em outros termos, agora com o crítico e historiador da literatura Alfredo Bosi, cultura é sempre a relação entre reflexo e criação. O reflexo é no sentido de reprodução. Nós reproduzimos aquilo que recebemos de fora, mas, quase sempre, dando nosso famoso ‘toque’. É esse ‘toque’, que muitas vezes vai acrescentando um detalhe no passo de uma dança, um novo adjunto a uma receita, ou um corte diferente de uma roupa. E aí, empolgados com nosso acréscimo, passamos a acreditar que inventamos coisas maravilhosas, a ponto de falarmos de cultura camponesa, cultura goiana, cultura nordestina.

Então, com esse arranjo de milênios de história da humanidade, deu-se o mesmo com a figura fustigante em nossa imaginação, que é o diabo. Ele não é nosso – Credo em Cruz! Vem de muito longe. Perpassou mitos milenares, andou pela cultura judaica e chegou até nós pela cultura cristã. Sim, sabemos da existência ou não existência dele, pela matriz judaico-cristã que nos veio através da Bíblia. E ele pegou pesado, chegando mesmo a tentar enrolar o próprio Jesus (Mt 4,3).

É exatamente nesta fonte que bebeu a cultura popular brasileira. O diabo é o oposto de Deus, seu inimigo, um anjo rebelde, enganador, que quer sempre atrapalhar os planos de Deus. Deus quer o nosso bem, quer que tenhamos vida em abundância (Jo 10, 10). Quando nos vem o oposto disso, é culpa do diabo. O sofrimento é culpa dele. Amargar o sofrimento ou estar no fundo do poço, na pindaíba, é ‘comer o pão que o diabo amassou’. Situação embaraçosa ou confusão é ‘o diabo na casa do terço’. É por isso que a cultura popular é pródiga em exemplos de esconjuros para expulsá-lo – ‘credo em cruz’ e ‘Vade retro, Satanás’ (‘Afasta-te, Satanás’). Este último, no latim ‘Vade retro, Satana’, é uma fórmula medieval católica de exorcismo, conhecida já por volta de 1415. É bom nem falar o nome dele para não atraí-lo. ‘Quem fala no diabo, pisa-lhe no rabo’; ‘Falou no diabo aparece o rabo’; ‘Falar no mal, preparar o pau’. Daí a existência de uma infindável lista de outros nomes ou sinônimos, artifício com o qual se acredita referir-se a ele sem o chamar para perto: amaldiçoado, arrenegado, belzebu, bicho preto, bode preto, cancão, canhoto, cão, capenga, capeta, capiroto, chifrudo, coisa-ruim, cramulhão, o cujo, o das trevas, príncipe das trevas, excomungado, inimigo, lúcifer, maligno, mofino, rabudo, satã, satanás, o sujo, tentação, tinhoso e outros tantos.

Mas ‘o diabo não é tão feio como se pinta’ ou ‘como o pintam’. O imaginário popular, de tanto matutar sobre suas trapaças, inventou até um jeito de negociar com ele, de colocá-lo a serviço de outras trapaças, estas dos sujeitos bem daqui, os humanos mesmo. Veja só que grande serventia ele tem. Entre os bons violeiros há sempre histórias muito curiosas sobre como aprender a tocar tão encantador instrumento. Aquela história de enrolar uma cobra coral nos dedos é fichinha. Tiro e queda mesmo é o ‘pacto com o diabo’. Mas tem que ser feito em uma encruzilhada, à meia noite, em noite de lua cheia. No repertório dos violeiros há variantes interessantes, como aquela do sujeito que foi para a encruzilhada chamar pelo cujo, e quando a ventania começou, com estalos e relâmpagos, o candidato a Almir Sater se desesperou, chamou por São Benedito ou algum outro santo em serviço. Final da história: o tinhoso enciumado foi-se embora, o susto passou, mas o interessado nunca aprendeu a tocar nada.

O medonho pacto é mais difundido mesmo é para o desejo de se enriquecer. Todo mundo tem uma história para contar ou pelo menos já ouviu umas boas. Essa história já passou por algumas novelas da Globo. Resumidamente é o seguinte: um indivíduo com muita vontade de ficar rico aprende uma receita. Faz um pacto com o diabo, penhorando sua alma. Para isso tem que chocar um ovo durante 40 dias. Aí nasce o diabinho, que é colocado em uma garrafa. Pronto! Começa a decolar o enriquecimento rápido do indivíduo. Mas no final ele vem buscar o que está penhorado. Antropologicamente essa construção do imaginário popular coletivo tem duas intepretações interessantes. Primeiro ela é uma representação social, ou seja, uma ideia, uma lenda que diz alguma coisa sobre o viver em sociedade. Ela expressa a ganância, a pretensão de se ficar rico sem a mediação do trabalho, do esforço pessoal. Em vez de o indivíduo construir, passo a passo, suas próprias condições de vida, ele busca um caminho ‘mais fácil’ e mais rápido. Segundo, ela representa uma possibilidade, ainda que abstrata, de se entender algo que não está fácil de ser entendido. Por exemplo, o sujeito que trabalha e todo mês tem que esticar um pouco salário para conseguir acudir todas as necessidades da família, não vai, de uma hora para outra aparecer de carro do ano, roupas de grife e até fazenda. Quando o povo que vive do trabalho vê o enriquecimento rápido de alguém, a imaginação é logo aguçada. O que será que está acontecendo? Se, pelas vias normais isso não é assim tão fácil, só pode ser coisa do demo. Imediatamente levanta-se a suspeita de que o novo endinheirado fez o tal pacto.

Coisas da fértil imaginação brasileira? Não. Certamente em cada história dessas colocamos algum componente cultural nosso. Mas essa construção também vem de muito longe. Nós a herdamos de Portugal que, por sua vez, a aprendeu de outros povos vizinhos na Europa. Na bela cidade medieval francesa, Cahors, que conheci em 1995, há uma dessas histórias. No século XIV houve a decisão de se construir uma terceira ponte para a travessia do Rio Lot, que banha a cidade. O empreiteiro estava demorando muito, a ponte levou quase 50 anos para ser construída. Sempre há um fato que instiga a imaginação. Deu-se o caso. O contratante dispensou o empreiteiro e fez um pacto com o diabo (Le pacte avec le Diable) e este passou a ser o construtor da ponte, aí, sim, em ritmo bem mais acelerado. Chegando quase ao final da obra o contratante se arrependeu do pacto, pois o custo seria passar o resto de sua vida no inferno. E conseguiu contornar a situação. Bolou um plano fatal. Entregou ao diabo uma peneira, pedindo-lhe que fosse à fonte buscar água para os pedreiros, depois cumpriria o prometido. A água nunca chegou e o pacto foi quebrado. O estranho construtor de pontes se enfureceu e vive até hoje tentando arrancar as pedras da ponte. Mas ela ainda está lá, claro, já com algumas restaurações, mas bela e suntuosa – a ‘Ponte do diabo’ de Cahors.

Mas esse pacto tem muito mais que esses 600 anos da ponte francesa. O registro mais antigo provavelmente é o caso da moça enfeitiçada que foi salva por São Basílio, quando era bispo de Cesareia, na Capadócia, no século IV, mil anos antes da ponte de Cahors. Uma moça de família rica, iria se consagrar a Deus, mas o diabo, sempre muito interesseiro, atravessou a história. Um escravo da casa era pretendente à mão da moça e, como, no plano normal, não teria nenhuma chance, fez um pacto com o diabo e a moça caiu perdidamente apaixonada pelo escravo. Casou-se com ele, mas a trama foi descoberta e só com os poderes espirituais do bispo o mal foi desfeito.

Voltando à breve pontuação teórica do início. Em se tratando de cultura não somos exatamente inventores. Somos muito mais recriadores. Nossas inúmeras representações sobre o diabo são heranças longínquas. Mas seguimos colocando uma rima a mais de um lado, umas fitas coloridas de outro e, ao final das contas, temos também nossas próprias histórias. E vou bater na madeira três vezes antes que um leitor apressado diga que ‘o diabo é brasileiro’ – sai pra lá chifrudo! Pelo sim, pelo não, o assunto continua rendendo. O cordelistas que o digam. Estão todos de plantão e escrevendo centenas de folhetos novos a cada ano. Uns sobre Seu Lunga, lá de Juazeiro-CE, o cabra mais mal humorado do mundo; outras sobre Lampião; mas há sempre boas histórias sobre o diabo. Vejam só o que um desses cordelistas, o Chuí, que tem até blog e com textos atualíssimos. Em ‘A visita do diabo à cidade’, escreveu assim: ‘Quando o diabo visitou a cidade, / teve parada na Paulista e confete, / rádio e TV, torpedo pros celulares, / multidão e tempo real na Internet. / E os jornais narravam todo o evento. / Falavam disso de domingo a domingo. / Nos descreviam seu café da manhã. / Vendiam pôsters com a cara do gringo. / […]’”.

 Jadir de Morais Pessoa é doutor em antropologia pela UFG

Leituras. Se alguém deseja aprofundar um pouco mais nessa questão, há três referências imprescindíveis: O Dicionário do folclore brasileiro, de Luis da Câmara Cascudo (Ed. Itatiaia), o Dicionário da religiosidade popular, de Francisco Van der Poel – Frei Chico (Editora Nossa Cultura) e Legenda Áurea, de Jacopo de Varazze (Companhia das Letras).

 

(Publicado originalmente na versão impressa da Revista Raízes Jornalismo Cultural – Edição Amaury Menezes – de Setembro de 2015)

 

 

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