Contardo Calligaris

O inferno é a felicidade do outro

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O psicanalista italiano Contardo Calligaris – radicado no Brasil – se tornou um observador privilegiado de dois fenômenos do nascente século 21: a busca insana pela felicidade e a supervalorização da infância. A sombra desses dois estímulos são a depressão e a infantilização dos adultos – que passam a projetar nos filhos o que sonharam para si. “Temos dificuldades em falar sobre isso”, provoca, ao tratar de um dos traços do comportamento nas redes sociais. Ali, todos não só se mostram felizes como se entristecem com a felicidade dos outros.

Em visita a Curitiba para fazer palestra no Tribunal Regional do Trabalho, Calligaris conversou com a reportagem da Gazeta do Povo. Confira trechos da entrevista.

O medo da depressão e da tristeza é um problema do nosso tempo?

É muito antigo. Na Idade Média, o medo era considerado um pecado gravíssimo. Se alguém se deprimia, estava desprezando a Criação, o que desagradava Deus. Também havia preocupação com uma epidemia de depressão entre os monges medievais. O que era um problema, porque os monges deviam se fechar nos conventos para glória divina e não para ficarem tristes. Além do mais, havia um paradoxo. Os mosteiros eram ilhas de sobrevivência, de privilégio, de proteção. Raramente se morria de fome… Se houvesse peste, fechava-se o mosteiro, e os religiosos ficavam isolados. No fim do século 20, voltou com força a ideia de que a depressão é um pecado capital. Esse fenômeno tem a ver com a hipervalorização da felicidade.

Por que hipervalorizamos a felicidade?

Nos anos 1950 e 1960, em meio à euforia do pós-Guerra, se solidificou o ideal de felicidade. No caso dos americanos, o ideal era suburbano. Tinha-se de ter uma casa própria; o que de imediato trazia a ideia do casamento. Era preciso estar casado, ter filhos. Sexo e amor deveriam andar juntos. Esse modelo continuou dominando a segunda metade do século 20 e permanece vivo. Quando se tem um ideal de felicidade muito forte, a depressão é malvista.

Uma pesquisa recente mostrou que as pessoas que ficam menos tempo no Facebook são mais felizes. Faz mal a divulgação constante da felicidade nas redes sociais?

As redes sociais levam a confrontar nossa felicidade com a felicidade dos outros. A gente se sente obrigado a fingir que está feliz, o que pode ser muito penoso. A propósito, foi nos anos 1950 que as pessoas passaram a sorrir nas fotografias. Quando olhamos as fotografias do fim do século 19 e as do começo do século 20, os retratados aparecem seríssimos. Deixar-se fotografar era um momento solene. Só no pós-Guerra começou o costume de parecer feliz. As fotos do Facebook vêm dessa descendência. O problema é que ter de se mostrar feliz é um empreendimento constante e muito cansativo.

Ser feliz acaba por virar uma culpa…

Completamente. A infância – como idade separada da vida adulta – existe há pouquíssimo tempo, algo como 200 anos. Tornou-se uma fase idealizada. Entendemos que as crianças devem ser os nossos representantes, gozando das felicidades que não tivemos. A criança e a infância se tornaram um valor em si, por tempo indeterminado. Nós as privamos da possibilidade de crescer.

Explica haver tantos adultos na casa dos pais…

Diria mais que isso. O ideal de felicidade projetado na infância promove nossa infantilização. Quanto mais as crianças nos parecem ideais de felicidade, mais nos parecemos com crianças. O que torna a vida complicadíssima para elas. No século 19, uma criança sabia muito bem qual era a aparência de um adulto, pois um adulto era muito diferente dela. Hoje, uma criança olha para os pais e acha que eles são adultos por obrigação durante a semana. Aos sábados e domingos, se vestem e agem como crianças.

Você escreveu em uma de suas colunas que nunca protegemos tanto nossas crianças, mesmo assim elas continuam se acidentando. Cuidado e culpa andam juntos?

Temos o narcisismo dos adultos. Achamos que ao estar presentes e envolvidos, isso é o suficiente para que a criança se sinta feliz. Mas a criança pode estar infeliz por uma série de outras razões, todas ótimas, como, por exemplo, ter descoberto que todos vamos morrer, que a Terra um dia vai desaparecer… Ou apenas porque uma colega da escola não lhe dá bola. A vida é assim.

Há pessoas que conquistaram uma boa casa, emprego, casamento estável e, mesmo assim, estão tristes e insatisfeitas. Falta um sentido para a vida?

Acho que a gente encontra e procura sentido demais para a vida. Uma das razões para a infelicidade, eu acho, vem dessa incapacidade de viver com leveza, de conviver com o fato de que – e esse é um segredo de polichinelo– a vida não tem sentido.

Essa tristeza pode vir da sensação de ter conquistado tudo?

Diria que não existem arranjos felizes que não deixem um resto. Crises ocorrem sobretudo com pessoas que tiveram um certo sucesso e alcançaram ambições comuns, como um carro importado, uma casa de praia, filhos bem encaminhados. Olha para trás e se pergunta: “Corri tanto só por isso?” Descobre que o desejo era maior que a quantidade de clichês conquistados. Muitos sofrem por achar que é muito tarde para mudar. E não só pelo tempo: também é difícil quebrar alicerces. A gente avança muito pela vida por inércia. O que é normal. É cansativo quebrar, o tempo todo, o que se construiu.

Estamos diante de uma crescente onda feminista, paralelo a uma resposta conservadora. O que dizer sobre esses extremos?

Os homens em geral não lidam bem com o fato de que as mulheres têm desejo, o que dá a dimensão do problema. Estamos dispostos a entender que o casamento implica em renúncias, mas vemos do lado do homem. O casamento, que implica renúncias para os homens, é visto como um modelo ideal para a mulher. Essa cultura permanece mais de 40 anos depois da onda feminista dos anos 1960. Continua na cabeça de muitos homens, e também de muitas mulheres.

Entrevista publicada originalmente em Gazeta do Povo

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