O poeta Manoel de Barros e a “vanguarda primitiva”

A Vanguarda Primitiva é uma criação coletiva do poeta Manoel de Barros, do jornalista Bosco Martins e do poeta do portunhol selvagem Douglas Diegues. Surgiu inspirada em uma conversa literária que quer transformar o grau de conhecimento em índice de desenvolvimento humano através da fascinação pelo primitivo. Não curralesca e nem esotérica, a vanguarda primitiva já rendeu algumas obras em seu caminho para as origens. Kosmofonia Mbyá Guarani, registro literário-musical, da Editora O Morto q Fabla, de Guilhermo Sequera, organizado por Douglas Diegues, traz o seguinte registro de Manoel sobre a obra: “Ouvi os cantos, a voz, os murmúrios dos MBYA Guaranis. Eles me transportaram para a fonte das palavras. Me levaram para os ancestrais, para os fósseis lingüísticos, lá onde se misturam as primeiras formas, as primeiras vozes! A voz das águas, do sol, das crianças, dos pássaros, das árvores, das rãs… Passei quase duas horas deitado nos meus inícios, nos inícios dos cantos do homem”. 

Outras obras da Vanguarda Primitiva: o programa de televisão O Outro Lado de la Frontera, de Douglas Diegues; o livro La Máquina de Hacer Paraguayitos, de Wáshington lphidio Cucurto, editado pela Editora Eloísa Cartonera, em capa de papelão; O Poeta É um Ente que Lambe as Palavras e se Alucina, de Arlindo Fernandes; o documentário Wega Nery, a Dama das Artes Plásticas, de Luiz Taques; a revista literária Ontem Choveu no Futuro; O Mandruvá, um site cultural que ficou só no sonho (sonhar faz parte da vanguarda primitiva), e rendeu mais esta entrevista inédita, publicada agora pela Caros Amigos, concedida à jornalista Cláudia Trimarco. O poeta responde escrevendo a mão, uma das formas que escolhe quando quer se expressar poeticamente.

Quais palavras/cores, fatos/fotos melhor explicam o Manoel de Barros? 

Palavra: parvo; cores: o azul; fatos: passei a vida tentando escrever em língua de brincar. Minhas palavras são de meu tamanho; eu sou miúdo e tenho o olhar pra baixo. Vejo melhor o cisco. Minhas palavras aprenderam a gostar do cisco, isto é, da palavra cisco. E das coisas jogadas fora, no cisco. Pra ser mais correto: as coisas que moram em terreno baldio.

Como você define o Poeta? Se pudesse, o que reinventaria?

Poeta é uma pessoa que luta com palavras. Carlos Drummond escreveu: lutar com palavras é uma luta vã. Se eu pudesse, reinventaria outro sinônimo para Poeta. Poeta seria o mesmo que parvo. É um sujeito que, em vez de mexer com borboletas, pedras, caracóis, mexeria com as coisas úteis.

O que o Pantanal significa na vida do Manoel?

Pantanal é o lugar da minha infância. Recebi as primeiras percepções do mundo no Pantanal. Meu olhar viu primeiro as coisas no Pantanal. Minhas ouças ouviram primeiro os ruídos do mato. Meu olfato sentiu primeiro as emanações do campo. E assim com os outros sentidos. O que eu tenho de preciso são as primeiras emanações que Aristóteles chamaria de nossos primeiros conhecimentos.

A poesia extravasa ou explica seus sentimentos?

Eu acho que não explica nada, mas extravasa as minhas primeiras percepções.

Quais são as três coisas mais importantes para você?

As três coisas mais importantes para mim são duas: o amor e a poesia.

Como é o dia-a-dia do “Manoel”?

Tenho uma rotina quase militar. Acordo às 5 horas, tomo um copinho de guaraná em pó, caminho 25 minutos, tomo café com leite, subo para o meu escritório de ser inútil. Desço meio dia, tomo dois uísques, almoço e sesteio. O resto é pra ouvir música. E ver o dia morrer.

O andarilho é um poeta por excelência? É assim que você se sente?

Andarilho é um ser que honra o silêncio. Essa é uma qualidade de escol. Ele não sabe se chegou. Não sabe pra onde vai. E gosta de rio, de árvore e de passarinho. Andarilho é um ser errático – igual a poesia.

Por que o Poeta se esconde da mídia?

Por temperamento? Não tenho outra explicação. Até não sei se me encontro mesmo. Vai ver que me escondo para aparecer!

Como você vê a ação do tempo sobre o homem?

No meu caso, o tempo estragou mais o meu corpo. Não posso mais amar total. Não posso mais correr, dar salto mortal, ver longe, nem ouvir longe. Na minha imaginação criadora, o tempo não se meteu. Sobre os outros homens, cada um tem sua carga.

Qual o futuro que você vê para a Poesia? E o Planeta Terra tem futuro?

Não sei. Acho que os cientistas estão furando tanto o planeta que não sei nada sobre o futuro. Sou um homem de fé e acredito na terra para sempre. Se a terra permanecer e os seres humanos não voltarem ao chipanzé, que Darwin diz que tomará – se isso não acontecer, a poesia permanecerá. Mas não sei.

Fonte: Caros amigos

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