O verdadeiro objetivo da vida – Uma sábia reflexão de Rubem Alves

“Ouço Beethoven. Surpreendi-me alegremente. Pois ele sempre me parecia uma figura trágica regendo um mar em fúria. Mas agora ouço uma ‘escocesa’ e ‘Para Elisa’ – carta à Elisa. É tudo brincadeira. Vejo Beethoven no centro de uma praça, tocando piano, e a criançada ao seu redor, brincando (…).

Aqui e agora ouço o canto do bem-te-vi. Aqui e agora estou vendo as copas das árvores movidas pelo vento. Aqui e agora estou sentindo um cheiro bom de pão saindo do forno. Aqui e agora ouço o riso das crianças que brincam. Sempre ‘aqui e agora’. Porque é no aqui e no agora que a nossa vida está acontecendo. No prazer do momento (pág. 114).

Digo que é este o objetivo da vida: o prazer. Haverá algo melhor? O trabalho? Mas o objetivo do trabalho é o jardim que se planta, ou casa que se constrói, ou o livro que se escreve… Ou será a ciência? Os cientistas de outros tempos sabiam que a única finalidade da ciência era aliviar o sofrimento e tornar possível a construção do paraíso… A revolução social? Mas para que é que se fazem as revoluções? Não será, por acaso, para pôr fim às ferramentas de sofrimento, para que assim as pessoas possam ser livres para usufruir o jardim? (pág. 110).

Mas, talvez ‘prazer’ não seja a melhor palavra. Melhor seria alegria! A diferença entre prazer e alegria? O prazer só existe na presença do objeto e cessa na sua ausência. O prazer de comer um caqui precisa de um caqui. O prazer de um abraço precisa do corpo da pessoa amada. Na ausência do caqui ou do corpo não existe prazer. Mas alegria é um sentimento manso que não depende da presença do objeto. Ela existe no preparo da comida – antes que o filho chegue. Só uma memória faz sorrir. O corpo humano se alimenta também de ausências (pág. 108).

A alegria, na ausência, tem o nome da saudade. É amarga, por causa da ausência. É feliz pela esperança do reencontro. Deus é a presença de uma ausência. Na ausência do objeto amado, a comida dá prazer, mas o que dá alegria é o sonho (pág. 109).

Quem é rico em sonhos não envelhece nunca. Pode até ser que morra de repente. Mas morrerá em pleno voo”. Rubem Alves

(Eis, então, o verdadeiro objetivo da vida: o sonho. O sonho que flui de uma ausência. Da ausência que revela Deus. De Deus que concede a graça da alegria. Da alegria que nos dá prazer).

Trechos extraídos do livro “Do Universo à Jabuticaba” – de Rubem Alves. Editora Planeta [3 ed.] São Paulo, 2015.

 

 

COMPARTILHAR
Portal Raízes
Raízes Jornalismo Cultural - Portal, Revista Impressa e Programa de Televisão




COMENTÁRIOS