Os corruptos são os filhos de uma sociedade corruptora? O quanto de verdade há sob este estigma?

É possível afirmar que, no Brasil, somos todos corruptos/corruptores?

Enquadrar todos nós nesse rol não é dizer que somos todos mau-caráter, mas admitir que há inúmeros elementos de corrupção desgraçadamente encravados em nossa cultura e que, para além de hábitos, fazem parte de nosso inconsciente coletivo. Nossa cultura contém elementos únicos e extraordinários, mas nela há máculas éticas que, em última análise, contribuem para sermos hoje um país absurdamente desigual e generalizadamente corrupto.

São muitas as razões históricas que explicam o quadro. Por hora, cabe refletir sobre uma pesquisa Vox Populi de novembro de 2012, segundo a qual praticamente um em cada quatro brasileiros não considerar que o ato de subornar um guarda para evitar uma multa seja uma corrupção. Note que esses foram os que responderam sinceramente ao instituto.

Vemos, todos os dias, exemplos de crimes e desvirtuamentos éticos cometidos por nós mesmos: não emitir nota fiscal; pegar a contramão na saída da “igreja” para não ter que esperar pelos que estão à frente; receber troco errado; jogar lixo na rua; usar carteira de estudante de outra pessoa; pegar sacolas a mais no supermercado; comprar produtos falsificados; plagiar trabalhos da faculdade; avisar a outro que há uma blitz na estrada; imprimir trabalhos pessoais no emprego ou mesmo levar um clipe pra casa… Ou que tal ainda ensinar um filho a fazer algo certo só para que ele receba uma recompensa?

Nossa educação informal e nossas relações sociais estão comprometidas. A diferença entre quem leva 1 real de vantagem ilícita em uma esquina qualquer e um político que leva 1 milhão em propina é apenas a dimensão da oportunidade. Nossos pequenos e grandes gestos de esperteza, indecência, desvergonha, malandragem e gatunagem estão matando as esperanças de que um dia possamos ser uma pátria justa.

Os políticos são corruptos porque o povo os legitima ou o povo é corrupto porque os políticos dão esse exemplo?

Dados, deste ano, revelam que os brasileiros devem à Receita Federal 1 trilhão de reais. Há quem justifique a sonegação com o argumento de que “se o país não faz nada por mim, não devo nada a ele”. Esse é o mesmo individualismo que corre nas veias dos corruptos de gravata. Parece que o que importa a todos, seja nos becos esburacados ou nas avenidas asfaltadas, é saber “como se dar bem”, seja matando pelo comando do tráfico ou não dando espaço à ultrapassagem. Esse é o ciclo vicioso: não se sabe se os políticos em geral são corruptos porque o povo os legitima ou se o povo é corrupto porque os políticos são o maior exemplo.

E agora? Basta apenas trocar os políticos da situação pelos da oposição? Adiantaria varrer do poder todos os atuais políticos? Não esqueça que há supostos envolvidos no caso Petrobrás que há vinte e poucos anos estavam nas ruas berrando contra a corrupção na Era Collor. É preciso mudar nosso DNA social. Precisamos de uma revolução cultural. A começar por todos aqueles que compreendem essa necessidade.

Precisamos de pessoas que estejam dispostas a suportarem em sua própria pele o ônus de começar a mudar o Brasil. Não usando o acostamento, mesmo que se chegue atrasado no trabalho; devolvendo o troco dado a mais, mesmo precisando daquele dinheiro; juntando o papel do chão como se fosse em nossa sala, por saber que a cidade é nossa, mesmo que o papel seja de outro, pagando inteira, mesmo que a carteira de um amigo esteja disponível; não colando na prova, mesmo que isso signifique uma reprovação; rejeitando a propina, mesmo perdendo a oportunidade de incrementar a renda; respondendo com delicadeza a um ato de grosseria, mesmo que passe por “fraco” e “frouxo”.

Precisamos de brasileiros dispostos a não se darem bem a qualquer custo. A serem a mudança que queremos ver em nossos políticos. Pais e mães que façam o que é correto, mesmo que apenas seus filhos estejam olhando, pois isso fará toda a diferença em nosso país daqui a poucos anos. Nessa sociedade que queremos, não haverá motivo para nossos representantes serem diferentes de como seremos. Eles serão como nós. Como são hoje, aliás”. (Texto de Edilson de Holanda – Extraído de opovo.com)

Por que somos corruptos?

1) O garoto Romarino da Silva espera o feirante se distrair para pegar uma maçã às escondidas; 2) na barraca ao lado, Jonfrésio Sebá encosta de leve o dedo na balança na hora de pesar os pepinos da freguesa Samara Fujimoto, que segue para 3) a loja da esquina, onde o comerciante Roclésio Calheiros faz promoção de CDs e DVDs piratas; 4) Samara se rende à oferta de pagar mais barato se não exigir nota fiscal; 5) Duda, filho de Samara, chega com fome da escola. Ele não sabe, mas a diretora Zenolina Maluf desviou os pães da merenda para a alimentação dos peões da fazenda do marido dela; 6) os empregados de Jovenal, marido de Zenolina, comem o pão amanhecido junto com leite com 50% de teor de água, graças à manobra malandra do vendedor Simplório de Al­meida no córrego contíguo; 7) ao levar sua caminhonete na oficina, Simplório desembolsa 20 reais ao mecânico José Furtado por um alinhamento que não precisaria fazer; 8) Fernanda, a mulher de Odilamar, fica grávida após tomar anticoncepcional de farinha da marca Esterilol; 9) Odilamar toma oito chopes para esquecer o drama, mas o garçom Machado Neto aproveita-se do estado de torpor do cliente e lhe cobra dez.

10) Diretores da Em­bri­a­ga­tion, cervejaria fabricante do chope, armam esquema de clonagem de placas de seus caminhões, para enganar o Fisco; 11) os caminhões são abastecidos no Posto Fraude de Ouro, com bombas de diesel adulteradas; 12) sem autorização do dono, Ney Sá, funcionário do posto, faz longas ligações interurbanas para bater papo com a namorada Genoilda Anésia; 13) com 20 anos e um corpo escultural, Genoilda muda o nome para Ingrid Cartner e larga Ezequias para se casar “por amor” com o octogenário Australoptélio Ma­rinho, um hipertenso milionário; 14) Eugenélia, neta dele, copia da internet seu trabalho de pós-graduação em Economia, por sugestão de 15) sua mãe, Suenélia, escritora que responde processo por plágio; 16) Magali Nara, empregada da casa, leva para casa meia dúzia de talheres que ela achou bonitinhos e 17) passa no supermercado All Free, onde compra duas bandejas de iogurte vencido na promoção-relâmpago; 18) ao chegar em casa, ela vê o marido José Pirrila jogando truco com os amigos. José é que não vê o amigo João das Moças roubar tentos durante a partida; 19) ao ir embora, João fica horas no ponto de ônibus, porque a Viação Ro­dolar tirou veículos da linha para aumentar seu lucro.

20) Dentro do ônibus lotado, Camilo Signólio, recém-formado em medicina, se acomoda em vaga destinada a pessoas com dificuldade de mobilidade; 21) ao chegar ao órgão público em que trabalha, duas horas atrasado, Camilo faz várias e várias ligações para seu próprio celular pula-pula, para ga­nhar créditos; 22) enquanto isso, deixa seus pacientes esperando e dá uma espiada nos melhores momentos do jogo que seu time perdeu, por causa de 23) um gol feito com a mão pelo atacante Diogo Maravilha; 24)torcedores do time vencedor comentam que gol de mão é mais bonito ainda (“é uma mãozinha de Deus pra nós”, alguns dizem); 25) jornais repercutem o lance irregular de Diogo e o repórter Bida Aranha vê um erro na matéria do colega. Antes de procurá-lo, comenta com os editores, para ganhar moral com a chefia;26) a manchete do jornal fala em venda de lotes entre invasores de uma área em zona nobre da cidade, de propriedade do empresário Robby Al­cofri; 27) antes de sair para fechar negócios, Alcofri encomenda recibos de cirurgias dentárias que nunca fez, para garantir a restituição do Imposto de Renda e 28) o odontólogo Danúzio Soares aceita o negócio, desde que receba 10% do valor em espécie; 29) na sala ao lado do consultório, Bruno En­rolowski anexa uma foto à declaração forjada por ele próprio para obter carteira de estudante.

30) No ginásio onde vai acontecer o show em que Bruno quer estrear o documento, a organização fixa só 1 das 20 bilheterias pa­ra vender ingresso de meia-entrada; 31) A fila de estudantes é imensa. Robinildo Meirelles negocia o seu lugar nela por 5 reais; 32) Genofrésio Dias tenta repassar maço de ingressos pela metade do preço. Pena que são falsos; 33) ao passar de carro em frente ao local, Samuel Rippelo ignora a velhinha na faixa de pedestre — está atrasado para chegar ao trabalho; 34) no semáforo logo a­diante, o mendigo Zé Ninguém finge que tem uma perna manca para atiçar a compaixão dos mo­toristas; 35) o empresário Robby Alcofri aciona o vidro elétrico de seu Audi A8 para dizer ao andarilho que não tem nada para oferecer a ele e o manda trabalhar; 36) em casa, Robby Júnior, filho único do empresário, planeja como vai fazer para pegar o carro do pai às escondidas durante a viagem dele a Brasília; 37) ao lado dele, o vestibulando de medicina João Pedro Signólio conversa ao telefone com Eurípedes Furtoso, um funcionário da comissão que organiza o concurso, e consegue um exemplar antecipado das provas; 38)para tanto, ele divide a propina com seu diretor, Neltino Beringelli, que conseguiu o cargo graças à intervenção do deputado José Plenário; 39) dono de uma madeireira em área irregular, Rocleisson Nunes leva a Plenário proposta de mensalão de R$ 5 mil por mês para propor lei que amplie o desmatamento na região; 40) Plenário aceita e alicia colegas da comissão que julgará a constitucionalidade do projeto; 41)em votação apressada, deputados aprovam também a redução do repasse de verba ao programa Bar­­riga Cheia, destinado a famílias carentes.

42) Sem o dinheiro desviado do Programa Barriga Cheia e sem vaga no SUS, Maria da Silva assiste à morte do filho Romarino da Silva, vítima de desnutrição.

(Texto de Elder Dias – Os fatos narrados são reais e, infelizmente, corriqueiros. Qualquer semelhança de nomes de personagens com nomes de pessoas é uma triste coincidência. Ou não. Artigo publicado originalmente em 2005, após o mensalão. Hoje, onze anos depois, o artigo não precisou de nenhuma atualização).

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