“Ninguém sabe entregar em mão o que se esconde por dentro” – Pablo Neruda

Pablo Neruda escolheu pintar as paredes de La Sebastiana, sua casa em Valparaiso, no Chile, em azuis brilhantes e rosa “para fazê-las dançar”, enquanto suas portas e escadas “cantavam”.  Depois decorou La Sebastiana como uma casa de brinquedo, observando que “uma criança que não brinca não é uma criança, mas o homem que não brinca perdeu para sempre a criança que vivia nele”.

Em La Sebastiana a história que corre na boca dos guias turísticos é que houve uma época em que o poeta Pablo Neruda viveu isolado no último andar de sua casa. Nenhum amigo o visitava. Dia e noite olhava do alto à espera de uma visita que fosse. Embaixo, via apenas os telhados e a laje das casas com áreas para o sol. Talvez os amigos não estivessem mais interesse pela sua poesia.

Teve uma ideia para atrair seus amigos mais próximos: inventou que todos os dias, de manhã, na varanda abaixo, uma mulher muito bonita tomava sol completamente nua. Todos os dias. Logo, logo, a casa se encheu de amigos. Enquanto isso, falava sobre poesia, mas os olhos atentos dos amigos estavam mais interessados aos movimentos lá fora.

No final da manhã ele dizia que a mulher não viera tomar banho de sol mas, com certeza,  à tarde ou no dia seguinte ela haveria de vir. Assim, por muito tempo, sua casa voltou a ser muito visitada; a notícia correra rápido. Com o tempo os amigos perceberam a manobra de Neruda. Mas aí a poesia soou mais alto. Mesmo sabendo da artimanha de Pablo Neruda, seus amigos continuaram a visitá-lo.

Selecionamos o belo poema La Sebastiana e mais três, para celebrarmos Pablo Neruda:

1. A SEBASTIANA 

Eu construí a casa.
Primeiramente fi-la de ar.
Depois hasteei a bandeira
e deixei-a pendurada
no firmamento, na estrela,
na claridade e na escuridão.

Cimento, ferro, vidro,
eram a fábula,
valiam mais que o trigo e como o ouro,
era preciso procurar e vender,
e assim um caminhão chegou:
desceram sacos e mais sacos,
a torre fincou-se na terra dura
– mas isto não basta, disse o construtor,
falta cimento, vidro, ferro, portas – ,
e nessa noite não dormi.

Mas crescia,
cresciam as janelas
e com pouca coisa,
projetando, trabalhando,
arremetendo-lhe com o joelho e o ombro
cresceria até ficar completada,
até poder olhar pela janela,
e parecia que com tanto saco
poderia ter teto e subir
e agarrar-se, por fim, à bandeira
que suspensa do céu agitava ainda as suas cores.

Dediquei-me às portas mais baratas,
às que morreram
e foram arrancadas das suas casas,
portas sem parede, rachadas,
amontoadas nas demolições,
portas já sem memória,
sem recordação de chave,

e disse: “Vinde
a mim, portas perdidas:
dar-vos-ei casa e parede
e mão que bate,
oscilareis de novo abrindo a alma,
velareis o sono de Matilde
com as vossas asas que voaram tanto.”

Então a pintura
chegou também lambendo as paredes,
vestiu-as de azul-celeste e cor-de-rosa
para que se pusessem a bailar.
Assim a torre baila,
cantam as escadas e as portas,
sobe a casa até tocar o mastro,
mas o dinheiro falta:

faltam pregos,
faltam aldrabas, fechaduras, mármore.
Contudo, a casa
vai subindo
e algo acontece, um latejo
circula nas suas artérias:
é talvez um serrote que navega
como um peixe na água dos sonhos
ou um martelo que pica
como um pérfido pica-pau
as tábuas do pinhal que pisaremos.

Algo acontece e a vida continua.

A casa cresce e fala,
aguenta-se nos pés,
tem roupa pendurada num andaime,
e como pelo mar a primavera
nadando como uma ninfa marinha
beija a areia de Valparaíso,

não se pense mais: esta é a casa:
tudo o que lhe falta será azul,
agora só precisa de florir.
E isso é trabalho da Primavera.

2. AMIGO

Amigo, leva contigo o que queiras,
penetra o teu olhar sobre os rincões,
e se assim desejares, dou minha alma inteira,
com suas brancas avenidas e sua canções.
Amigo – com a tarde faça partir
este velho e inútil desejo de vencer.

Bebe do meu cântaro se tens sede.
Amigo – com a tarde faça partir
o meu desejo de que todo rosal pertença a mim.

Amigo, come do meu pão se tiveres fome.

Tudo, amigo, eu o fiz para ti. Tudo isto
que sem olhar verá na minha estância nua:
tudo isto que se eleva em muros altos, retos
– como meu coação – sempre buscando a altura.

É engraçado- amigo. Que importa! Ninguém sabe
entregar em mão o que se esconde por dentro,
mas te darei minha alma, ânfora de mel suave,
a tudo te darei…Menos aquela lembrança…

… Que na casa vazia aquele amor perdido
e uma rosa branca que se abre em silêncio…

3. SAUDADE

Saudade… Que será.. eu não sei… tenho buscado
Em certos dicionários poeirentos e atigos
e noutros livros que ocultam o significado
dessa doce palavra de perfis ambíguos.

Dizem que as montanhas são azuis como ela,
Que nela empalidecem longínquos amores,
E um nobre e bom amigo meu (e das estrelas)
Nomeia com os cílios e as mãos em tremores.

E no Eça de Queiroz sem olhar a adivinho,
o segredo se evade em sua doçura e sede,
como uma mariposa, corpo em desalinho,
sempre longe – tão longe! De minhas calmas redes.

Saudade… tens, vizinho, o real significado
dessa palavra branca que, peixe, se evade?
Não… treme na boca seu tremor delicado…
Saudade…

4. AMOR

Como eu saberia te amar, mulher, saberia
amar, e amar, ninguém amou assim jamais!
Morrer no entanto,
amar-te mais.
E no entanto
amar-te mais
e mais.

Poemas extraídos do livro Pablo Neruda Crespusculário, L&PM Editores, 2004 –  Tradução de Luís Pignatelli, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1962.

COMPARTILHAR
Portal Raízes
Raízes Jornalismo Cultural - Portal, Revista Impressa e Programa de Televisão




COMENTÁRIOS