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Para meu filho já nascido e ainda não gerado

Clarissa Câmara

Eu nunca sonhei em casar. Já tive o desejo de gerar um filho quando era adolescente, pois via minha mãe gestante e queria saber como era carregar outra vida. Hoje eu já não tenho tanto esse desejo. As vezes sinto uma forte vontade de gestar só pra saber qual a sensação mágica que há por trás de amamentar. Agora, depois de passados alguns anos de minha vida, eu estou vivendo uma fase em que, a qualquer momento, vou ver uma criança na rua, vagando, pedindo dinheiro ou com fome, e vou leva-la pra casa. Sim, descobri que podemos gestar outras pessoas depois delas já terem sido paridas. E parir não significa necessariamente dar vida.

Essa vontade tem crescido dia após dia. As vezes estou na fila do banco e uma criança me abraça. As vezes estou andando na rua, já procurando algum desses seres invisíveis pra dividir um pão na chapa. E eu não tenho medo. O que um outro alguém pode fazer contra o amor?

Segundo pesquisa do governo federal, 72% das crianças que vivem na rua são do sexo masculino. Estão na faixa etária dos 10 aos 14 anos e a maior razão que as levaram à essa situação é por conta de brigas familiares, violência doméstica, exploração infantil, entre outros. Elas as vezes dormem em casa, mas vão para as ruas vagar, pedir comida ou dinheiro.

Sabe, às vezes ando na rua e penso: meu filho pode estar por aí, tentando arrumar uns trocados pra comer. Se usa drogas, deve ser pra atenuar a fome. Se já se prostituiu foi porque não conheceu outro caminho. Eu ainda não cheguei lá pra ensinar a ele sobre amor. Você já se colocou nessa posição?

Aprendi a sonhar com uma gestação espiritual. Passo horas sonhando com o dia em que vou dar o primeiro banho em alguém que não sabe a diferença entre Dove e Rexona. A primeira vez que irei fazer um x-tudo com Coca-Cola, a primeira vez que vou leva-lo a escola e o que vou ensinar a respeito de Vinícius de Moraes e Garoto. Eu tenho me preparado todos os dias, pelo dia que vou encontrar meu filho vagando em algum semáforo, ou em alguma casa de acolhimento ou no juizado de menores. Pelo dia que vou ensinar que amor existe. Pelo dia que vou mostrar pra ele que casa desarrumada, mancha de copo na mesa e lençol amarrotado é sinal de lar.

Eu não sei se ele terá pai, porque como já falei, meus sonhos e concepções são meio diferentes pra uma mulher da minha idade. Mas ele terá uma família. Com um cachorro, adotado também. Ele vai se chamar paçoca. Eu quero lhe mostrar esse texto um dia e lhe falar sobre a coisa mais linda do mundo que é gerar um filho antes de concebê-lo. Engravidar na memória o amor que não vai caber em meu útero. Gerar um ser que foi parido num mundo de agonia. Resgatar alguém que um dia poderá aprender a me chamar de mãe, sem dor, sem barreiras. Conforme sua natureza.

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Clarissa Câmara

Clarissa Câmara é escritora amadora, amante dos livros, cinéfila e observadora assídua. Seu nome foi inspirado no livro de Érico Veríssimo. Se encontrou na música, na Yoga e na gastronomia. É engenheira e pesquisadora pela Universidade de São Paulo, e acredita piamente que seu fortúnio é poder ouvir a história de todo mundo. Acredita na missão que o amor pode conceder através da escrita, dessa vez, contando histórias.


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