Piracanjuba de Goiás – 160 anos

Pouso Alto, a metamorfoseada e progressista Piracanjuba – por Goiana Vieira

Um mundo de lembranças imerge no mistério do tempo e nos faz recordar nossa infância, as suaves manhãs, as tardes de bochorno e as noites enluaradas de nossa Piracanjuba. Assim como o céu límpido dessa terra do guarda-mor Francisco José Pinheiro expõe garbosamente o firmamento prenhe de estrelas qual manto cravejado de diamantes, nosso coração se enche de luz ao contato com nossa terra e nossa gente. Piracanjuba da infância e primeira juventude e de onde, na verdade, nunca nos afastamos. A alegoria do filho pródigo não cabe em nossa história. A antiga Pouso Alto, hoje metamorfoseada na progressista Piracanjuba, nada fica a dever às outras comunas goianas quanto às letras e às artes. Terra de Léo Lynce, cognominado o príncipe dos poetas goianos e talvez o mais fecundo escritor nascido no século XIX na terra do Anhanguera, tem arraigada, em si, excelente tradição cultural.

Uma plêiade de homens e mulheres dedicados à literatura, às artes cênicas, musicais e plásticas orgulha esta terra. Para não correr o risco de esquecer tantos nomes, lembro aqui os que já não estão, fisicamente, entre nós: Leo Lynce, Eduardo Rossi, João Accioli, Professor David da Silva Mauriz, Virgílio Soares, Heulália da Graças Roza Calzada, Ely Rocha da Silva, Sebastião Francisco de Oliveira, Manoel Alves de Souza, Noêmia Honorato da Silva e Souza, Francisca Faleiro de Souza, a atriz Thelma Salim Reston e Benedito Braz dos Reis que, com Caçula, formou a famosa dupla Caçula e Marinheiro. Não poderíamos deixar de mencionar o nome da cantora lírica Mione Amorim, que nos anos 40 e 50 abarrotou as plateias do teatro municipal no Rio de Janeiro. Chegando à então capital federal,  de imediato se apresentou no programa de calouros de Renato Murce, na Rádio Nacional. Cantou e venceu o concurso, conquistando o primeiro lugar sem fazer sequer uma aula de canto. Após o sucesso, Mione foi convidada para se apresentar no Teatro Carlos Gomes, em uma festa para artistas como Emilinha Borba e Ângela Maria. Foi outro sucesso que abriu ainda mais as portas para a jovem artista piracanjubense. No auge, ela foi convidada para um projeto pioneiro, passando a integrar o elenco da novela “Adeus às armas”, na TV Tupi. Tanto agradou que foi convidada para outras produções. Trabalhou ao lado de artistas consagrados, como Manoel de Nóbrega, Ronald Golias e Chico Anysio. Apresentou um programa chamado “Artistas Mirins”, na TV Rio.

Praça Dimas Costa – Foto:Danylo Telles

Piracanjuba expressa a arte, não só no estro de poetas e escritores, mas pontifica na música, arte à qual nos entregamos desde nossa infância. Com que saudade lembro das missas e quermesses por ocasião da festa de agosto, quando toda a população da cidade e da zona rural se encontrava para o louvor a excelsa padroeira Nossa Senhora da Abadia. Lembro-me, comovida, de frei Leônidas Flores da Cunha, excelente latinista que nos auxiliava na pronúncia para os cantos litúrgicos.  Na pintura, diversos piracanjubenses se notabilizam, transportando para as telas em cores diversas, de cambiantes matizes, paisagens, temas locais ou não, de características tradicionais, algumas quase conservadoras ou que se podem classificar entre os diversos estilos da arte de pintar. Artistas plásticos de Piracanjuba têm exposto seus trabalhos não só fora de Goiás, mas, também, no exterior.

Nossa cidade é hoje uma das mais importantes referências da orquidofilia brasileira. O Círculo Orquidófilo de Piracanjuba promove salões com participação de expositores brasileiros e estrangeiros, com exibição de três a quatro mil plantas. Piracanjuba, por meio das expressões do belo, congrega os que têm o mesmo ideal e coopera para o resgate da cidadania em sua relação com a identidade, a memória e a história de uma comunidade que enobrece Goiás.

Goiana Vieira é cantora lírica, atual presidente da Academia Piracanjubense de Letras e Artes (APLA), fundada em 26 de outubro de 1990. Congrega escritores, artistas plásticos, escultores, historiadores, músicos… Tem por missão incentivar, divulgar, resgatar e produzir cultura. A cantora lírica Goiana Vieira da Anunciação é a atual presidente, assumindo assim um cargo que já pertenceu a Leo Lynce, Maria Augusta de Santana Morais e Ney Teles de Paula.

 A alma de um quilombo – Por Camen Cruz

 

Remanescentes da comunidade Tamarindo, em Piracanjuba, têm no  artesanato um dos maiores instrumentos de reafirmação da identidade quilombola (Foto André Saddi)

 Nos crivos abertos no linho, a delicadeza de quem borda um novo dia. Mãos habilidosas que vão tecendo fuxicos para as cabeleiras das bonequinhas pretas, enchendo de graça e de cores a vida das crianças. Mulheres determinadas a fazer das tramas dos teares o aconchego merecido, mas que a vida, quase sempre, lhes furtou. Dias a fio, fiando novos caminhos. Despertando no barro o sopro de esperança que vai se erguendo na reconstrução de um passado de dores e de sonhos.

Quando essas mulheres se reúnem para coser, bordar, cantar e tecer, elas buscam mais que a produção de peças artesanais a serem comercializadas. Essas mulheres negras se juntam para forjar, ponto a ponto, um novo destino para as suas gerações, valorizando e recontando a história e a luta dos seus antepassados, de homens e mulheres valentes que disseram não à violência da escravidão e souberam conservar, mesmo guardada a sete chaves, a cultura de resistência, com suas congadas e capoeiras, seus quitutes e cantos.

São mulheres de todas as idades. E, também, alguns homens. Vivem em diferentes bairros do município goiano de Piracanjuba, a 85 quilômetros da capital, e até pouco tempo atrás estavam dispersos. Muitos nem se conheciam, embora tivessem em comum as raízes, fincadas na Comunidade Tamarindo, um dos núcleos originais de formação da cidade. Tamarindo foi uma comunidade que se formou a partir de famílias de escravos fugidos das minas de Santa Cruz e, bem antes, das minas de ouro encravadas nas montanhas gerais.

Com o crescimento da cidade, as famílias quilombolas foram migrando para a periferia. Grande parte delas vivia até meados do século passado sob os limites de um silencioso apartheid no bairro chamado Macambira, onde, segundo relatos da presidente da Associação Quilombola Ana Laura, Lucy Helena Roza Tavares, ninguém se aventurava a ficar na rua após as seis da tarde, temendo a repressão. No Macambira, a população predominantemente negra vivia em condições precárias e sob suspeição. E foi há meio século que os vicentinos de Piracanjuba construíram um bairro, que leva o nome da congregação, para transferir e dar melhores condições à comunidade que vivia literalmente apartada e sofrendo toda a sorte de discriminação.

A Associação Quilombola

Há três anos, a Associação Quilombola Ana Laura vem reacendendo nessas famílias a alegria de uma identidade que une, que agrega, que fortalece. Criada por Eulália Roza Tavares, a entidade congrega cerca de 150 famílias remanescentes da Comunidade Tamarindo. Com a morte, no ano passado, da fundadora, a irmã de Eulália, Lucy Tavares, assumiu a Associação, disposta a manter o vigor da luta que visa despertar a consciência do povo quilombola e pôr fim ao racismo e à discriminação contra o negro.

Inicialmente se reunindo na cozinha da própria casa das fundadoras, a Associação Quilombola Ana Laura ocupa há cerca de um ano as instalações do antigo centro comunitário do Setor São Vicente de Paulo, cedidas pelos vicentinos em regime de comodato. Um divisor de águas para a comunidade, que agora tem lugar para se reafirmar e apresentar a toda a população de Piracanjuba e às centenas de visitantes os resultados dessa recente trajetória de reconstrução da própria identidade quilombola.

A entidade ganhou o nome de Ana Laura em homenagem a uma escrava que muito lutou contra o regime escravagista nos garimpos de Minas Gerais. Dois netos dela são associados da entidade e dão suporte aos trabalhos que a Associação Quilombola vem realizando: Anastácio Jacinto, 69 anos, e Ana Maria da Cruz Dias, 58 anos, são primos e estão sempre na sede da entidade, contando histórias e repassando aos mais novos o que eles viveram na infância na Comunidade Tamarindo, onde o 13 de Maio era ocasião de muita festa, em que se enterravam os tamarindos e se dançava o dia inteiro. Para Ana Maria, a Associação é muito importante: “Dá mais alegria pra gente, que convive com outras pessoas sem ser discriminada”, diz.

Fátima de Souza Mendonça, outra associada, é filha de Juarez de Souza, um dos cinco irmãos de tocadores e cantadores do 13 de Maio. “Eu me lembro de ajudar a enterrar os tamarindos, mas como era muito pequena não podia dançar não, só observava”, afirma ela, lembrando que sua família ajudou a manter a tradição das festas na Comunidade Tamarindo. “Minha mãe ainda mora lá, porque era uma área grande e foi sendo dividida para toda a família”, acentua.

A entidade hoje tem o apoio da Secretaria Municipal de Cultura de Piracanjuba e, também, a atenção da Gerência de Artesanato da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Científico e Tecnológico e de Agricultura, Pecuária e Irrigação (SED) do estado de Goiás. O gerente André Franco esteve recentemente na comunidade para a entrega das Carteira Nacionais do Artesão a todos os que produzem o artesanato quilombola naquele município. Ao fazer a entrega, André Franco destacou que Piracanjuba é o sexto município goiano em número de artesãos cadastrados. Já foram entregues 91 carteiras naquela cidade, 22 delas a artesãos quilombolas. 

O artesanato

 

A inclusão de representações da cultura negra na produção artesanal é uma das preocupações da Associação Quilombola Ana Laura. Para a confecção das bonequinhas pretas, a entidade formou um grupo chamado “As Lalinhas”, em homenagem à Eulália, fundadora da Associação. As Lalinhas costuram feltros ou pintam estruturas plásticas para os corpos das bonecas e tecem vestidos de chita. Enchem de enfeites as graciosas pequenas, que vão fazer brilhar os olhinhos de muitas meninas. “Não encontramos bonecas negras para comprar e decidimos investir com toda a criatividade para oferecer o melhor às nossas crianças”, declara Lucy Roza. “São brinquedos que representam a nossa cor, a nossa gente, as nossas raízes”, frisa ela.

Dentre as bonecas criadas, uma se destaca e é motivo de festa no grupo: Lucy, com cabeleira exuberante e mesclada com cores de castanha e mel, como o cabelo da presidente da associação, a professora Lucy. “Já fizemos mais de 40 bonecas e vamos agora diversificar, criar outros modelos”, diz a líder da comunidade. As tradicionais “namoradeiras”, para serem colocadas nas janelas, são outras peças em produção pelas mulheres quilombolas de Piracanjuba.

Os bordados em linhas brancas com crivos e pontos cheios embelezam peças para toda a casa, como forros, panos de prato, caminhos de mesa e outros itens que encantam os visitantes.  Peças de teares de prego e outras tecidas em teares maiores também são atração para os que vão à Associação Quilombola Ana Laura, assim como as máscaras em papel machê ou em barro. Há também as cerâmicas feitas em oficinas coordenadas pela ceramista Lourdes Jordão, que buscam resgatar as originais peças utilitárias das famílias quilombolas que continham traços feitos com tinta branca sobre o barro ou cores fortes.

Às tradições, essas mulheres vão incorporando sementes e flores secas do Cerrado brasileiro, criando uma identidade única também para o artesanato que ressurge com força e determinação. “Creio que ainda não há condições para que elas tenham o retorno financeiro que deveriam ter, mas que esse encontro delas aqui na associação faz muita diferença na vida de cada uma delas, ah, isso faz!”, afirma Lucy.

“Quando nós estamos bordando ou costurando nossas bonecas, nossos panos, estamos na verdade colocando nossos sentimentos pra fora em forma de arte, de amor, e é isso que nos torna pessoas melhores, mais felizes, e é dessa forma que vamos ser reconhecidos”, diz Lucy, que é professora aposentada e que durante toda a vida profissional teve que lutar contra o preconceito em sala de aula. “Muitas crianças desistiram de estudar porque eram negras e não tiveram a base que eu tive para ter orgulho de suas origens”, comenta, reforçando que o trabalho da Associação Quilombola tem como maior objetivo deixar um legado às crianças e aos jovens negros, fortalecendo-os na luta contra o preconceito. Hoje, ao invés de ir às escolas falar de negritude, a entidade recebe estudantes, professores e pesquisadores na sua sede.

E ao som das caixas do grupo de dança Dandara ou do berimbau do mestre Rato, da capoeira, que agrega mais de 20 jovens negros da comunidade, as mulheres quilombolas de Piracanjuba seguem tramando e acalentando sonhos de um mundo melhor, mais humano e igualitário, com mais respeito à diversidade e mais oportunidades para todos.

Carmen Cruz é jornalista

Fotos: André Saddi

Piracanjuba, “Terra eleita da pródiga natura” – Por Cícero Rodrigues

Ilustração de Felipe Tognoli

O verso no título é do príncipe dos poetas goianos, Léo Lynce, heterônimo de Cyllenêo Marques de Araujo Valle, nascido na antiga Pouso Alto, hoje Piracanjuba. Bendiz a terra natal, de exuberante natureza, que serviu muitas vezes de inspiração para os textos do príncipe-poeta.

Piracanjuba é considerada um celeiro da cultura goiana; terra de grandes escritores, artistas plásticos, músicos e vários outros de todos os setores culturais. A Cultura, que antes, devido a diversos fatores, não era valorizada como deveria, abriu espaço para a criação da Secretaria Municipal de Cultura, o Sistema Municipal de Cultura e o Fundo Municipal para o incentivo público aos projetos culturais.   

A Secretaria de Cultura do município, com o apoio do prefeito Amauri Ribeiro,  desenvolve ações no sentido de proteger, preservar, incentivar todas as manifestações da cultura local. Com essa estrutura administrativa garante aos cidadãos  o acesso irrestrito aos bens culturais, um direito inalienável.

Foram realizados mais de trinta espetáculos teatrais, além de oficinas para jovens e educadores, além do Festival “Piracanjuba-Uçu”, que atraiu um público estimado em 6.000 pessoas. Mais três mostras de cinema, espetáculos de dança, três edições do Brejo Festival, importante ação de valorização da música independente, além do incentivo aos projetos locais, ligados à Secretaria de Cultura, como as Associações Quilombola, Fiandeiras e Orquestra Sertaneja, Projeto de Música “Cordas, Canto e Encanto”, e Orquestra Sinfônica de Piracanjuba.

Diante desse novo cenário que se criou para a Cultura de Piracanjuba, foi possível repensar efetivamente nossa cidade como um berço da cultura, com a formação de novas plateias, descobrindo artistas que antes ficavam restritos às suas famílias e agora contam com recursos da prefeitura e espaços adequados para a fruição dos seus trabalhos.

Piracanjuba conta, enfim, com uma Secretaria reservada aos fazedores de arte de nosso município. Isso é um marco muito importante para todos aqueles que se preocupam com a preservação e o estímulo aos valores culturais de nossa cidade.

Cícero Rodrigues Pinheiro é  Secretário de Cultura da Prefeitura de Piracanjuba

 

Piracanjuba, 160 anos – por Lucas Hemetério dos Santos

O tempo passou e o pequeno Pouso Alto cresceu.  O intercâmbio cultural se fez presente e inevitável, numa miscigenação cultural responsável por vários frutos hoje colhidos. Cada verso e estrofe, cada parágrafo e voz sertaneja, cada dedilhado no violão e pincelada ou pote de pimenta… Nada além de arte, cultura. Pouso Alto legou alta riqueza e valor artístico, com grande potencial agropecuário.

Piracanjuba, a cidade do leite, do queijo e do relógio, cidade que encanta com o abraço apertado, palco do reencontro no mês de agosto. Piracanjuba, saudade de quem sai e orgulho de quem fica. Terra amada, terra pródiga de Léo Lynce, de Ney Telles e de Dona Lilita. Cidade da religião, da valorização cultural, do resgate de tradição, do amor pelas letras e palavras e, sobretudo, da paixão pelo bonito.

Chegando aos seus 160 anos de existência, Piracanjuba traz em sua bagagem uma coletânea de histórias, crônicas, contos, e raízes que jamais se perderão. Cidade do quibe, dos grãos e do amor de seu povo. Terra fértil de talento, letras e artes. Piracanjuba, nossa singela, porém idolatrada cidade, da qual beijamos o chão e nos sentimos privilegiados por aqui viver.

O que antes era um Pouso Alto hoje é campo minado de arte e cultura. Por onde quer que andemos, vemos traços e focos culturais que expressam sua vida histórica tão preservada.

Nesta data mais que especial, levanto-me, interiorano ufano em gratidão. Levanto-me em voz de amor à terra que criou o príncipe dos poetas goianos. Grande pequena cidade. Desejo-lhe prosperidade e sorte, conforto de cidade grande e paz de interior.

Rogo a Deus que cuide de seu futuro, que a corrupção não acabe com sua vasta honra de “cidade-cultura”. Que o crescimento, a proteção Divina e o cuidado de nossos representantes sejam contínuos.

Não a almejo cidade grande, refém da ganância, do poder feudal, do estresse, da correria do dia a dia e da modernidade a qualquer custo. Conserve sua simplicidade e beleza cultural, é assim que precisamos de você. Piracanjuba, Capital Nacional das Orquídeas e Reino de Arte e Cultura, parabéns pelo seu dia.

Lucas Hemetério dos Santos, 18 anos, aluno do Colégio Estadual Ruy Brasil Cavalcante, Piracanjuba-Go. (Especial 160 anos de Piracanjuba – 22 de Novembro)


Poemas de Léo Lynce – Fotos de Danylo Teles

Estrada afora 

Bom dia, roceiro amigo,
que vais pela mesma estrada;
vamos juntos, vem comigo,
se a companhia te agrada.

Eu te conheço bastante,
somos patrícios de pia.
Repara que o meu semblante
tem algo da Freguesia.

Eu parti muito criança
por essas estradas em fora.
Por isso, não tens lembrança
daquele que eu era outrora.

Notícias da Corte, queres?
Não vale a pena, é um horror.
Querem votar as mulheres…
E todo o mundo é doutor…
Falemos antes da roça
e das coisas do lugar.

Como vai a gente nossa?
Quem morreu? Quem vai casar?
O festeiro do Divino
já prepara as cavalhadas?

Ah! Se inda houvesse o Justino
para dar as embaixadas!…
A folia vai bem quente?
Muitas danças e licores?

Morenas olhando a gente
e a gente cantando amores?
Adeus, amigo! Ao voltares
por aqui, se noite for,
alguns gemidos nos ares
não te produzam pavor…

Goyaz

Terra moça e cheirosa
(…)
Nome bonito – Goyaz!
Que prazer experimento
sempre que o leio
nos vagões em movimento,
com aquele Y no meio!
 

O fordinho e o chevrolet,
rasgando campos, furando matas,
vão, a trancos e barrancos,
rumo às cidades pacatas
que brotaram no sertão.
(…)

Nas pautas musicais
do arame dos mangueiros,
que gênio irá compor
os motivos dos currais,
os desafios brejeiros
e as cantilenas de amor?
 

Goyaz! recendente jardim,
feito para a volúpia dos sentidos!
Quem vive neste ambiente,
sorvendo o perfume de seiva
que erra no ar;
quem nasceu numa terra assim,
porque não há de cantar?

 

Estrada fora

Bom dia, roceiro amigo,
que vais pela mesma estrada;
vamos juntos, vem comigo,
se a companhia te agrada.

 Eu te conheço bastante,
somos patrícios de pia.
Repara que o meu semblante
tem algo da Freguezia.

 Eu parti muito criança
por essas estradas em fora.
Por isso, não tens lembrança
daquele que eu era outrora.

 Notícias da Corte, queres?
Não vale a pena, é um horror.
Querem votar as mulheres…
E todo o mundo é doutor…

 Falemos antes da roça
e das coisas do lugar.
Como vai a gente nossa?
Quem morreu? Quem vai casar?

 O festeiro do Divino
já prepara as cavalhadas?
Ah! Se inda houvesse o Justino
para dar as embaixadas!…

 A folia vai bem quente?
Muitas danças e licores?
Morenas olhando a gente
e a gente cantando amores?

 Adeus, amigo! Ao voltares
por aqui, se noite for,
alguns gemidos nos ares
não te produzam pavor…

 Se vaga sombra a lembrança
te trouxer do vulto meu.
Vai dizer à vizinhança
que o teu patrício morreu…

Cylleneo Marques de Araujo Valle, Léo Lynce, nasceu em Pouso Alto, hoje Piracanjuba, em 29 de junho de l884, e morreu em Goiânia, no dia 7 de julho de 1954. Filho de João Antônio de Araújo Vale e de Eponina Marques de Araújo Vale. Após as primeiras letras com a mãe, seguiu, em 1894, para o Seminário Episcopal de Santa Cruz, em Vila Boa (GO). Em 1896, no entanto, foi morar com o avô materno em Bela Vista de Goiás. Tinha 16 anos quando publicou o jornal O Fanal, todo ele manuscrito. Em 1905, adotou o pseudônimo de Leo Lynce, anagrama de seu verdadeiro nome que o tornou conhecido nacionalmente.

Em 1908,  entrou na vida política, elegendo-se deputado estadual. Em 1909, acossado pela Revolução, deixa Goiás, indo para Uberaba (MG). Ao retornar para Goiás, em 1910, tornou-se Guarda-Livros nas cidades de Alemão (Palmeiras) e Jataí. Em 1913, foi Diretor da Escola de Aprendizes e Artífices de Goiás Velho. No ano seguinte, voltou ao seu segundo mandato parlamentar. Em 1915, iniciou sua carreira de advogado provisionado, participando de um movimento que visava a criação de uma escola livre de Direito, na qual se matriculou.

Mudou-se, em 1920, para Urutaí, como Secretário da Fazenda Modelo. Em 1925, quando se formou em Direito, na Faculdade de Direito de Goiás Velho, renunciou ao mandato de deputado, passando a advogar em Campo Formoso (Orizona), Bonfim (Silvânia) e Vila Boa (Goiás Velho). Foi nomeado, em 1927, Juiz de Direito de Santa Cruz de Goiás. Em 1930, tornou-se Juiz de Direito de Pires do Rio. Em 1938, foi para Bela Vista de Goiás, como Juiz de Direito. Em 1939, aposentou-se da Magistratura Goiana e no dia 29 de abril participou da fundação da Academia Goiana de Letras, ocupando a Cadeira nº 11, cujo Patrono é Rodolfo da Silva. Em 1999, pelo livro Ontem foi aclamado, por um seleto júri, organizado pelo jornal O Popular, o autor de melhor poesia brasileira produzida em Goiás. (Fonte: Blog – Antonio Miranda)  

Para saber mais sobre Piracanjuba e a Exposição Nacional de Orquídeas, acesse: Prefeitura de Piracanjuba 

Matéria publicada originalmente na versão impressa da Revista Raízes Jornalismo Cultural – Edição Amaury Menezes – Setembro de 2015 com oferecimento da COAPIL – Cooperativa Agropecuária Mista de Piracanjuba:

 

 

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