Crise política: Que lodo é esse que quanto mais tentamos nos livrar mais nos encharcamos?

Um discurso bonito. De um lado, um terno bem cortado e gravata de seda. Do outro, camiseta suada, cabelos grudados e em desalinho. Nos dois exemplos brotam lágrimas dos olhos ao falar dos pobres e do seu sofrimento. Essa imagem certamente vai levar a sua imaginação ao mundo dos políticos. A pergunta que ecoa pelo vazio da mente com certeza é esta: Se o discurso é bonito porque as atitudes são hipócritas?

“A política é constituída por homens sem ideais e sem grandeza”. Camus, Albert

O que podemos perceber é que não existem mais ideologias partidárias, vale o poder. Direita alia-se com a esquerda; moderados fazem o acordo que bem entendem, apenas para ter um Ministério ou um cargo, uma porta de entrada no Governo; partidos são criados apenas para arrecadar verba pública e ampliar o tempo de televisão. São como carrapatos que se alimentam da máquina governamental.

As notícias da imprensa livre mostram casos de corrupção, acordos feitos à surdina, na calada da noite, para conseguir poder e mais influência ao seu grupo. A política, em sua essência, é um jogo estranho e escuso; o dinheiro é um bônus àqueles que estão na roda.

Nesse cenário todos são herois; todas as glórias são por jogar migalhas ao povo. Pensam estar acima do bem e do mal e, ainda, ter o aval da justiça, porque, em hipótese, fazem bem aos pobres. E nem ao menos podemos esperar que haja luz no fim do túnel, porque volta e meia corremos o risco do apagão moral. E à Suprema Corte do país o reduto onde se faz justiça. É lá, no resguardo da Lei e da Moral, que mora a derradeira esperança do povo.

O país, se comparado a outras estruturas políticas, pode ser considerado ainda uma pequena criança que começa a amadurecer. Temos pouco mais de quinhentos anos e, talvez por isso, ainda cometemos erros primários.

O Brasil hoje vive uma política de divisão entre classes sociais. É mais fácil falar que uma classe dominante oprime outra menos favorecida do que o governo assumir sua culpa na falta de uma política social decente.

Nós temos cotas, nós temos impostos altíssimos, nós temos propagandas governamentais que incitam o ódio entre classes. E nós temos ainda mais do que tudo, os políticos com seus narizes empinados pensando que toda critica é injusta, que toda oposição é burra e que todos do governo são incompetentes.

“Em política, a comunhão de ódios é quase sempre a base das amizades”. Tocqueville , Charles

Estamos em uma espécie de lodo, onde quanto mais tentamos nos envolver para defender ou nos livrar do peso da má gestão, com a nossa participação livre, mais nos encharcamos no lodo. Qualquer que seja o lado estamos sujeitos às críticas. Teorias e mais perguntas são formuladas tentando encontra uma explicação lógica para esse fenômeno que envolve as pessoas que entram no circo político.

Somente os políticos são corruptos ou a população, de forma geral, vê na política uma forma de se beneficiar ou se enriquecer de forma fácil e rápida? O terno e a gravata mostram a certeza da impunidade ou apenas nos engabelam com ares de limpeza moral? Ou o populista de camiseta vermelha e suado, como se fosse caititu perseguido pela onça, faz o papel de defensor da pobreza?

Será que de fato estamos preparados para lidar com os hipócritas do poder? A palavra ‘política’ vem de tempos antigos, mais precisamente do grego Polithea que é a arte pura que conduz uma nação aos interesses comuns.

“Em política, os aliados de hoje são os inimigos de amanhã”. Nicolau Maquiavel

Por mais que, de forma geral, falemos que não gostamos ou não queremos nos envolver com as questões políticas, vivemos, independente do que pensamos,  o dia a dia das ações dos políticos. Os partidos políticos são instrumentos para a prática  política.

Que soluções ainda seriam possíveis? Que horizonte nos espera além de um próximo mandado repleto de acordos estranhos para manter o Poder? E qual é, na verdade, o compromisso do político com o povo? A mudança acontece gradualmente, quase imperceptível. Talvez essa mudança demore séculos, até que tenhamos uma organização confiável aos olhos do povo.

Acabar com a farra partidária, com as negociações por votos e cargos, com o desvio do dinheiro público que corre de forma descontrolada, seria a opção imediata. Por que não criar três grandes blocos políticos identificados com o povo, para quem, em análise resumida, o Poder é exercido. Um bloco de esquerda, outro de centro e mais um de direita. Sem meio termo, entre estes blocos,  já que os partidos políticos no Brasil de hoje são criados apenas para negociatas.

Uma solução seria dividir o tempo de propaganda de forma igual entre os três blocos. Assim evitaria acordos financeiros para comprar e vender o tempo na mídia e limitar o teto dos gastos da campanha. Não é concebível que se gaste mais que trinta por cento do que o político receberá de salário. Certamente quando se extrapola esse limite terá de pedir favores adicionais proporcionados pela estrutura do Executivo e Legislativo em todos os níveis: Federal, Estadual e Municipal.  Ou de outros meios proporcionados pelas empresas corruptoras para recuperar o “investimento” na compra de votos.

“O homem é um animal político”. Aristóteles

Acabar com a imunidade parlamentar: roubo e desvio de verba são crimes e devem ser punidos com rigor. Muitas outras medidas seriam necessárias, mas com mudanças básicas no desempenho dos cargos e fiscalização do MP sobre as Verbas de Gabinete, com isso grande parte da corrupção poderia ser evitada. Também é primordial a mudança de comportamento da população em não ver na política uma forma fácil de ganhar dinheiro.  Mas, sim, de agregar valor à comunidade e à sociedade de forma geral. E que os bons cidadãos sejam candidatos para fazer o contraponto às regras políticas que vigoram e facilitam a corrupção.

Política não pode ser trampolim para se enriquecer, mas sim o meio de duplicar, pelo exemplo, os valores morais, éticos, do bom senso e aos valores da sociedade. Uma sociedade só se satisfaz quando todos têm os mesmos direitos e deveres. Não apenas quem está no poder que assume os privilégios, porém esquece os deveres de representar dignamente o eleitor nas boas práticas políticas.

Devemos aprender a exercitar a arte ‘política pura’ como nos ensina a filosofia grega. Por fim, sermos políticos no sentido de fazer o bem ao outro, independente de partidos ou interesse pessoal.

“Política é a arte do bem comum. Fora disso é arrivismo”. Doracino Naves

TEXTO DEPablo Danielle
FONTEObvious (Adaptação)
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Doracino Naves
Jornalista, diretor e apresentador do Programa Raízes Jornalismo Cultural.




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