A importância de reconhecer e aceitar os seus Eus: assim o fez Fernando Pessoa

Alguma vez você já se perguntou quem você é realmente? É provável que em algum momento você tem agido sem pensar e você tenha se deixado levar pelos impulsos ao descobrir uma face em você quem nem sabia que existia.

Geralmente pensamos em nós como se fôssemos uma entidade única, indivisível.  Porém, o certo é que a cada dia nos desdobramos para assumir diferentes personagens.  Somos o filho que acompanha a mãe ao hospital, mas também, às vezes, somos o pai ou a mãe que cuida dos seus pequenos. Noutra hora do dia somos o esposo ou a esposa. Noutra somos o colega de trabalho. Em todos esses ambientes  nos comportamos de maneira diferente.

“A Teoria dos Eus” postula que nossa personalidade é fragmentada, composta por uma multiplicidade de Eus que assumem autoridade segundo a necessidade, com o objetivo de, para nos proteger dos perigos, garantir nossa sobrevivência.

Um dos exemplos clássicos na literatura é de Fernando Pessoa, em que se afirma, com razão, de que era mil poetas em um. Ou seja, mil Eus em um. Pessoa, nascido em 1888, em Lisboa, inventou vários heterônimos – personagens com vidas, personalidades e estilos de escrita próprios – e sob o nome deles escreveu grande parte de sua oba poética. Deixemos que Fernando Pessoa conte uma pequena parte em que seus Eus – heterônimos – se manifestaram: “Criei um círculo social inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios. Parece que tudo se passou independente de mim”.

Como se desenvolvem esses Eus?

O bebê nasce com uma constituição única, um atributo denominado “Sinal Psíquico”. Muitas mães notam que os irmãos são diferentes desde que estão em seu ventre. Alguns se movem mais e respondem aos estímulos, outros são mais tranquilos e preguiçosos. Contudo, junto com esse “Sinal Psíquico” o bebê também tem a potencialidade de desenvolver uma grande variedade de padrões energéticos ou individualidades que darão origem à sua personalidade.

Contudo, o recém-nascido é indefeso e vulnerável, ainda depende dos adultos para sobreviver. Muito cedo o pequeno aprende que para evitar problemas e desgostos deve exercer certo grau de controle sobre o seu ambiente. Com a intenção de ter esse controle delimita o início de sua personalidade, a qual se desenvolve numa necessidade para enfrentar a sua vulnerabilidade, como se fosse  uma imprescindível couraça para enfrentar o mundo adverso.

Durante o processo de desenvolvimento somos recompensados por alguns comportamentos e castigados por outros. Como resultado algumas condutas saem fortalecidas e outros se debilitam. Cada vez que aprendemos uma lição, nossa personalidade se desenvolve em um ou outro sentido.

De fato, um dos primeiros aspectos que se desenvolve na personalidade é o Eu controlador/protetor. É uma espécie de guarda-costas que busca os perigos que nos cercam e determina como pode nos proteger deles. Esse Eu incorpora as regras parentais e sociais e controla nossos comportamentos. Encarrega-se de que sigamos uma série de normas porque estas garantirão nossa segurança e aceitação social. E o Eu controlador/protetor determina quanta emoção podemos ter e se certifica de que não vamos atuar de forma inadequada e ridícula.

Esse Eu, em particular, explora constantemente nosso entorno para determinar quais regras de nossos comportamentos agradará a uma maior quantidade de pessoas. Sob a sua direção, ocorrem as condutas mais simples e naturais, como o riso.  Quando nos tornamos menos autênticos é porque nosso controlador/protetor está monitorando e avaliando as supostas ameaças.

Esse EU é apenas o primeiro de muitos outros que desenvolveremos à medida que crescemos. É uma série de subpersonalidades que nos definirão como pessoas e que, em última instância, são as verdadeiras responsáveis pelo nosso jeito próprio de nos comportar. Por exemplo, o EU controlador/protetor decidirá se é importante agradar as pessoas. Se for assim será incorporado ao sistema de Eus primários.

Esses EUS primários são criados pelo Eu controlador/protetor para formar um escudo protetor que nos defenda da vulnerabilidade. É resultado de diferentes aspectos com os quais se identifica nosso ego. Esse equilíbrio de Eus pode mudar no curso da vida na mesma medida em que mudam nossas prioridades.

Alguns dos Eus são agradáveis, familiares e curiosos, mas outros são estranhos e  tidos como desagradáveis. Neste caso se transformam em Eus rejeitados. Basicamente essas subpersonalidades são formadas a partir de comportamentos que foram castigados toda as vezes em que emergiram.  Pode ser um castigo como a falta de atenção; uma censura verbal; uma humilhação pública ou, inclusive, um castigo físico.

Assim a criança aprende que tais comportamentos e os comandos energéticos que estão em sua base não são aceitos socialmente. Também não lhe ajudam a ter maior controle do medo e não o protegem da vulnerabilidade. Como resultado, os reprime. Sem dúvida, esses EUS não desaparecem por completo, mas se alojam no subconsciente de onde controlam nossas vidas de maneira sub-reptícias.

Segundo a “Teoria dos Eus”,  grande parte do estresse que experimentamos se deve à nossa tendência a atrair reflexos de nossos Eus repudiados em nossas relações. Na prática  desenvolvemos uma relação ambivalente como nossos Eus. Não os reconhecemos em nós mesmos, mas nos atraem quando o percebemos nos outros. Óbvio que a repetição desses comandos em nossas vidas nos causam sofrimento. Qual a solução? Abraçar esses Eus rejeitados.

A técnica do “Diálogo de vocês”

O principal problema de desenvolver diferentes Eus é que perdemos o rastro desse “Sinal Psíquico”. Portanto, a mente mais forte é a nossa personalidade. À medida em que uma pessoa é mais poderosa mais perde o contato com o seu ser único. A criança intui que deve se colocar uma “máscara” para lidar com o mundo. Mas com o passar do tempo essa máscara se converte em sua personalidade e a assume como sua própria; passa a fazer parte de si. Essa máscara se transforma em uma verdade que esconde a personalidade original e autêntica que existe em nós.

Que fazer para voltar esse “Sinal Psíquico?”

No princípio dos anos 1970 os psicólogos norte-americanos Hal e Sidra Stone criaram uma técnica de trabalho muito original denominada “Diálogo de Vozes” que explicam em detalhes no livro “Manual de Diálogo de Vozes: reconhecer e aceitar tudo o que existe em nós”. Seu principal objetivo é canalizar cada Eu através de um ego consciente, de maneira que podemos obter o melhor de cada um deles.

Por exemplo, quando um Eu IMPULSOR nos incita a nos esforçar mais do que o saudável é conveniente deixar que o contrário, um “Eu PREGUIÇOSO, ponha um freio de mão. De fato, devemos ser conscientes de que temos diferentes protetores energéticos com os quais nós identificamos ou que repudiamos. E cada um desses Eus tem seu polo oposto que opera de forma consciente ou inconscientemente.

Por intermédio do Diálogo de Vozes podemos tomar consciência dessa multiplicidade de Eus no sentido de ter a seleção válida em nossas vidas. E se constitui numa ferramenta para incrementar nossa autoconsciência e o grande poder é um processo de transformação interna.

Com essa técnica o psicólogo tem acesso direto às subpersonalidades, pode separá-las da personalidade global e lidar com elas como unidades psíquicas diferentes. Desta forma pode descobrir os diferentes Eus sem a interferência do Eu protetor/controlador que atua como crítico repressivo.

Ademais, como cada dessas subpersonalidades experimenta a vida de maneira diferente, nós podemos comemorar perspectivas novas dos problemas que enfrentamos ou nos solicitam mais ânimo a viver de uma maneira satisfatória. Em vez de aceitar os Eus repudiados, abraçamos todas as partes de nós.  Agindo assim podemos tomar o controle da realidade para sair desses comandos de relações tóxicas.

 

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