“O que nos resta quando tudo está perdido?” – Rubem Alves

Comovo-me ao recordar-me do poema de Vinícius “O haver”.  É um poema crepuscular. Ele contempla o horizonte avermelhado, volta-se para trás e faz um inventário do que sobrou. Fiquei com vontade de fazer algo parecido, sabendo que não sou Vinicius, não sou poeta, nada sei sobre métricas e rimas. E eu começaria cada parágrafo com a mesma palavra com que ele começou suas estrofes: Resta…

Resta a luz do crepúsculo, essa mistura dilacerante de beleza e tristeza. Antes que ele comece ao fim do dia, o crepúsculo começa na gente. O Miguelim menino já sentiu assim: “O tempo não cabia. De manhã já era noite…”. Assim eu me sinto, um ser crepuscular. Um verso de Rilke me conta a verdade sobre a vida: “Quem foi que assim nos fascinou para que tivéssemos um ar de despedida em tudo o que fazemos?”.

Restam os amigos. Quando tudo está perdido, os amigos permanecem. Lembro-me da antiga canção de Carole King “You got a friend”: Se você está triste, no fundo do abismo e tudo está dando errado, precisando de alguém que o ajude – feche os olhos e pense em mim. Logo estarei ao seu lado para iluminar a noite escura. Basta que chame o meu nome… Você sabe que eu virei correndo para ver você de novo. Inverno, primavera, verão ou outono, basta chamar que eu estarei ao seu lado. Você tem um amigo…”. Eu tenho muitos amigos que continuam a gostar de mim a despeito de me conhecerem. E tenho também muitos amigos que nunca vi. […]

Resta um amor por nossa Terra, nossa namorada, tão maltratada por pessoas que não a amam. Meu deus mora nas fontes, nos rios, nas matas. Mora nos bichos grandes e nos bichos pequenos. Mora no vento, nas nuvens, na chuva.  Eu poderia ter sido um jardineiro… Como não fui, tento fazer jardinagem como educador, ensinando às crianças, minhas amigas, o encanto pela natureza.

Resta uma catedral em ruínas onde outrora moravam meus deuses. Agora ela está vazia. Meus deuses morreram. Suas cinzas, então, voaram ao vento. Resta, na catedral vazia, a luz dos vitrais coloridos, o silêncio, o repicar dos sinos, o canto gregoriano, a música de Bach, de Beethoven, de Brahms, de Rachmaninoff, de Fauré, de Ravel…

Resta ainda, nos pátios da catedral arruinada, a música do Jobim, do Chico, de Piazzola.[…] Resta um palhaço… Na véspera de minha volta do Brasil, a jovem ruiva sardenta que havia sido minha aluna entrou na minha sala e me disse: “Sonhei com você, sonhei que você era um palhaço”. E sorriu: Tenho prazer em fazer os outros rirem com minhas palhacices. O que escrevo, frequentemente, é um espetáculo de circo. Faço malabarismos com palavras.  Pois a vida é um circo.

Resta uma ternura por tudo o que é fraco, do pássaro de asa quebrada ao velho trôpego e surdo. Fui um adolescente fraco e amedrontado. Apanhei sem reagir. Cresce então dentro de mim uma fera que dorme. Toda vez que vejo uma pessoa humilde e indefesa sendo humilhada por uma pessoa que se julga grande coisa, a fera acorda e reage. Tenho medo dela. […]

Resta quanto tempo? Não sei. O relógio da vida não tem ponteiros. Só se ouve o tique-taque… Só posso dizer: “Carpiem Diem” –  colha a cada dia como um morango vermelho que cresce à beira do abismo. É o que tento fazer.

Trechos extraídos da Crônica “Resta…”, do livro Pimentas, Editora Planeta, 2ª edição, páginas 126 a 128. 

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