Se a poesia não nos salvar, Bodrum quem sabe?

De minha cadeira pouco confortável ao fundo do quarto, posto de observação, donde tento livrar-me do cansaço de um dia estressante, leio os jornais – de preferência em papel e vou tentando lê-los em voz alta para os meus próximos. A vida é o que se lê, diria o gato a Alice.

O mundo não precisa de cronistas e poetas. Precisa de monges, de rezadores, de educadores, do exemplo dos que crêem no sobrenatural mas não se descuram do natural. C.S.Lewis escreveu mais de uma centena de páginas apenas sobre o fenômeno de um ser sobrenatural.

Eu não fui feito para bulas, embora as leia com desmedida atenção, pois creio na homeopatia, embora não deixe de usar recursos alopáticos. Sei que só o sábio sabe adoecer. Adoeço quando quero. Quero curar-me e estou a um passo disso quando me aproximo do Sobrenatural – desde um São João a um Clive Staple, passando por Amoroso, Gustavo, Bernardo, Hildegarde ou Francisco.

Os olhos da alma que se debruçam sobre o Sagrado jamais deixarão de crer nas visões. A visão de que a poesia se esvai do dia-a-dia das pessoas, de que não está contida no algoritmo da pós-modernidade é como uma visão apocalíptica àquele leitor que “queima pestanas”.

Até mesmo o cronista da página dois de um grande diário, um dia desses fez sua “jihad” pessoal contra a necessidade da Poesia. Ou do poema. Embora houvesse ali em Carlos Cony uma confissão, quase um credo feito declaração (ou desejo supremo) de não ser mediano, isto é, se fosse poeta, só lhe interessaria ser um Dante, um Petrarca etc. Embora, dizia o cronista, haja ali um quê de amargo olhar sobre a criação, há também uma espécie de batalha entre gêneros (ou espécies) literárias. Na declaração do cronista Carlos Heitor quase existe uma adesão ao regulamento de Platão em sua República, proibida aos poetas. Último embora, a afirmação de Cony perdeu-se em meio ao turbilhão informativo da Web.

Confesso meu desconhecimento dos algoritmos e ritmos pós-modernos. Meu desejo de sonhar sempre com “Quaresmeiras Roxas”, aquele rincão próximo de Nárnia, me alimenta a continuar idealizando um mundo em que não só cabe a poesia, como também creio que esta é parte da economia da salvação terrena.

No livro “Sábado”, do romancista inglês Ian McEwan o exemplo definitivo. Só a leitura de “Meu barco atrevido, de atrevida Daisy Perowne” é capaz de salvar a família Perowne, em poder de sequestradores (ou se prefere “salteadores”). O avô Grammaticus a incentiva a ler um poema e o sequestrador é bem explícito:

–  “Cale a merda dessa boca, vovô.”

Na estória de McEwan, “Daisy olhou perplexa para Grammaticus, na hora em que ele falou, mas agora ela parece compreender. Abre o livro de novo e vira as páginas para trás, em busca do local, e então, com um olhar de relance para o avô, começa a ler. Sua voz está rouca e fina, a mão mal consegue segurar o livro de tanto tremer, e ela traz a outra mão até o livro, a fim de segurá-lo.” Não hei de tirar ao “leitor exigente” o gosto de ler no original de McEwan o fim desse drama, pois egoisticamente prefiro continuar no meu mundinho.

Vendo uma faca no pescoço da mãe, Daisy Pewrone é a minha voz como cronista, pode ser a voz do leitor de McEwan ou desta crônica. “O mar está calmo esta noite. É maré cheia, a lua paira alta acima do canal, no litoral da França, a luz brilha e se apaga… os rochedos da Inglaterra cintilantes e vastos, acima da baía tranquila… “as ondas trazem consigo a nota eterna da tristeza”. Como Sófocles, nem toda Antiguidade clássica, tampouco a pós-modernidade associa esse som das ondas ao “fluxo e refluxo velados da miséria humana”.

Talvez olhando fotos na internet, vejamos que é numa mare baixa de uma praia distante que desencavamos a península de Bodrum  – nome quem sabe capaz de nos abrir os olhos e ouvidos e nos fazer livres da faca que temos em nossos pescoços, nós, membros da humanidade civilizada – nós os Perownes, os Machados, os Lewis, os Silva e Souza…

No mais das vezes escorados em almofadas confortáveis do outro lado do globo, não nos deixamos tocar pelo natural nem pelo Sobrenatural. Mas o susto da faca no pescoço, talvez possa fazer-nos encontrar sentido da salvação pelo sobrenatural dos versos de um poeta de minha terra (Aidenor Aires), quando diz: “Irmãos refugiados no coração do mundo,/Aylan Kurdi é o nome de meus filhos;/e dos filhos que ainda nascerão.”

Por não ver sentido senão na intervenção salvífica da poesia, dita em voz alta nas esquinas, eu vos digo “Adiós, como Pablo…”pero no me voy” – pelo menos não sozinho. “Me voy” para Bodrum, mas não lhes digo Adeus!

Texto de Adalberto de Queiroz

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Adalberto de Queiroz
Nascido na Campininha, criado em Sant'Anna das Antas e especialista em chutar lobeiras na Vila Jaiara, quando a maior escola da vida era a fábrica de tecidos da Vicunha e a biblioteca do Couto Magalhães. Rodou o mundo, ganhou cabelos brancos, nunca perdeu a esperança, mesmo em meio às agruras do comércio que exerceu por mais de 35 anos. Atualmente obtém a carteirinha de flaneur, merci bien, escrevendo e lendo por puro prazer.




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