Se até o Cristo chutou o pau da barraca…

Clara Dawn

Debruço-me no parapeito da janela, a olhar as gentes indo e vindo: de dentro para fora, de fora para dentro, de dentro para dentro… Quando me debruço no parapeito da janela, não importa a estação do ano em que eu me encontre, tudo faz tanto tempo e qualquer coisa que eu escreva a partir dali terá traços de utopia. A utopia de um senso comum inabalável em acreditar que – se quisermos com grande força – dias melhores chegarão, mesmo que a vida prossiga debalde com seus muros inabaláveis porque são pequenos os ruídos.

Permaneço de frente à janela enquanto escrevo e tenho Thomas Jefferson debruçado sobre os meus joelhos, observando o indo-e-vindo do meu olhar: janela e texto. Ouço suas palavras místicas, fluídas do Iluminismo mais radical  da Terra, e o que eu sinto a respeito dos recônditos solitários da mente de Jefferson  é uma profunda ternura pessoal, uma irmandade e uma vontade doída, por mais vã que possa ser, de que seria possível guardar a  rara beleza da crença de que tudo, tudo mesmo, dará bem certo. E quando o meu olhar volta da janela e mira o texto, vejo um estar tão profundo dentro de mim que desejo ali permanecer até que uma epifania aconteça enfim.

Na mente, a lembrança de uma mulher que estava ‘indo’: cabeça baixa, arrastando o peso de suas enormes mãos – mãos que seguravam, com benevolência, tudo o que possuía. Talvez ela não quisesse ser assim tão beneplácita, como  tem sido no tempo chamado hoje. É que antes ela sentia muita raiva no instante que se defrontava com situações que não conseguia administrar. Ora, a raiva é propulsora e nos alavanca – dá-nos coragem para dizer e agir. E aquela mulher, por certo, dizia e agia sem medo: indo ou vindo, sempre para fora e nunca para dentro… Um ser que possuía uma identidade – talvez insuportável –, mas era essencialmente humana em sua razão de ser apenas humana.

Mas ela foi vencida por uma brandura acintosa, uma benevolência jeffersoniana inacreditável lhe encharcara os ossos, constituindo, assim, a sua melhor virtude e o seu maior defeito. A culpa não é da mulher, a culpa é de Thomas Jefferson, que morreu acreditando na benevolência humana; que fez uma releitura da Bíblia e narrou os eventos essenciais da vida de Jesus expurgados de todas as menções sobrenaturais. Se uma lição de moral foi incorporada em um milagre do Cristo, foi a lição e não o milagre que sobreviveu – dizia Jefferson – pois ele entendia o papel de Jesus como um grande exemplo de moral e da boa vontade para com o outro, não como um curandeiro.

Agora, debruço eu sobre os joelhos de Jefferson, mirando o indo-e-vindo do seu olhar: moral e boa vontade para com o outro; ocorreu-me a ideia de uma rendição silenciosa aos exemplos da moral de Cristo, com o objetivo de encontrar, senão a felicidade, pelo menos a harmonia… Mas, qual!?. Cristo jamais se rendeu aos abusos da natureza humana. Foi crucificado, sim, deveras, mas porque era um revolucionário. Porque veio para os que eram seus e os seus não o receberam, porque tratou as diferenças com igualdade, porque universalizou o amor e caridade num mundo de reinóis. Mas, o Cristo, literalmente, chutou o pau da barraca quando tentaram fazer de sua casa comércio…Quebrou tudo e expulsou os mercadores porque sua missão era libertar o homem de escravidões voluntárias. Morreu por isso. São louváveis estes motivos para se morrer. Sendo assim – a exemplo também do Cristo –  erga a cabeça, mulher! Coloque Jefferson na estante, depois derrube alguns paradigmas  e vá, com toda a fúria que puder, saltar com a Vida porque não há no mundo muros que não possam ser derrubados.

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Clara Dawn

Psicopedagoga e escritora. Como psicopedagoga é autora do projeto: “A drogadição na infância e adolescência numa perspectiva preventiva aos transtornos mentais e ao suicídio”. Como escritora já publicou 7 livros. Dentre eles: O Cortador de Hóstias (Romance), Alétheia(Romance) e Sófia Búlgara e Tabuleiro da Morte (Crônicas de prosa poética). Clara Dawn também produtora de conteúdo da marca Raízes Jornalismo Cultural.


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