Se você fosse uma bolha de sabão aonde estouraria?

Por cima do mar depois de absorver a maresia; nos lábios da pessoa amada; sobre o algodão-doce; no vazio do orbe; num campo de girassóis; naquela janela da casinha branca; nas mãos daquele alguém; na copa de uma sequoia; junto às nuvens em formato de bichinhos jocosos ou no quintal de casa? Diga-me, se você fosse uma bolha de sabão, aonde estouraria?

Pensei nessa singular imagem: uma pequena quantidade de ar contida em uma substância líquida que se funde com sais de sódio e potássio e que se espalha em ebulição… Tantas palavras para explicá-la quimicamente e ei-la aqui, na palma de minha mão, simples e bela, brilhante e frágil, clara e infantil.

Eu adoraria ser uma bolha de sabão e flutuar ao nascer do sol sobre um imenso tapete de capim com vários tons de verde e depois de receber flechadas solares, eu estouraria iridescente sobre a relva…Sim, uma existência breve e gloriosa.

Mas há algo dentro de mim (um outro eu negativo) dizendo que eu jamais seria uma linda e perfeita bolha de sabão… No máximo eu seria uma daquelas vesículas que se formam na superfície da pele por efeito de queimadura ou por atrito. Isso, eu seria uma bolha d’água ou um calo horroroso.

Estou construindo bolhas de sabão agora. Enquanto escrevo, elas se formam diante de mim e eu inflo na expectativa de me fundir a elas e assim beijar muitas faces e, quem sabe, banhar o rostinho de uma criança só para vê-la gargalhar.

No entanto, outra vez, o outro (que há em mim) diz que é necessário pensar grande para enfim ser grandioso.

Essa coisa de grandiosidade subiu à minha cabeça e desejei ser grandiosa. Pois se eu pudesse sê-lo eu teria o poder de me transformar em uma bolha de sabão. – Poder? Para ser uma bolha de sabão? – é a voz renitente, vociferando em meus ouvidos, e continua – um ser grandioso jamais desperdiçaria tempo com bobagens. Um ser grandiosa usaria o seu poder e ciência para as grandezas necessárias da existência como construir pontes e arranha-céus.

Titubei em meus pensamentos ao negar a importância de tais coisas e concluir que para mim não há grandeza maior do que se dissipar sobre campos de girassóis. Flutuar sobre uma  árvore frondosa e adormecer em seus braços ou apenas desaparecer no horizonte.

Ou estaria à grandeza tão somente nas coisas “sérias” e “práticas” da existência? Tais como “transformar” homens em “homens de verdade”. Em cidadãos, preocupados com o bem comum.  Moldá-los de um jeito que eles jamais deleguem ao “outro” as desgraças da Terra, mas que se juntem para resolvê-las… Homens de concreto produzem concreto. Homens feitos de bolhas de sabão produzem a magia em estar vivo.

Após refletir nisto, até o outro que há em mim concordou que é mais fácil se transformar em uma bolha de sabão do que mudar as ambições vis dos homens, em benevolência mútua.

Ah, se eu pudesse numa existência breve ser grande e dentro de minha grandiosidade ser cheia de leveza. Tão preenchida e ao mesmo tempo leve como uma bolha de sabão. Preenchida para transbordar e leve para receptar. Preenchida, toda eu, de leveza.

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Clara Dawn
Psicopedagoga e escritora. Como psicopedagoga é autora do projeto: "A drogadição na infância e adolescência numa perspectiva preventiva aos transtornos mentais e ao suicídio". Como escritora já publicou 7 livros. Dentre eles: O Cortador de Hóstias (Romance), Alétheia(Romance) e Sófia Búlgara e Tabuleiro da Morte (Crônicas de prosa poética). Clara Dawn também produtora de conteúdo da marca Raízes Jornalismo Cultural.




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