Cena do filme "Cantando na Chuva - 1952

Seja um “desequilibrado”, só os desequilibrados veem um deus dançante em si

A vida não quer bem-estar, a vida não quer felicidade. Nós inventamos a felicidade, nós inventamos o bem-estar: anomalias modernas. A vida quer mais, a vida quer superar – vontade de potência. A vida não economiza, não há vida média, é voo ou queda. Só há o devir, única eternidade e único retorno. E porque é sempre diferente o desequilíbrio é constante. Diante de um fundo trágico há duas forças básicas, chamamos de alegria e tristeza, e se a gente não abraçar tanto uma quanto a outra… Não durma tarde, não beba muito, não goze muito… por outro lado trabalhe muito, estude muito. A sociedade silencia as paixões, as intensidades, e exalta os valores do meio, uma vida em equilíbrio, uma vida medíocre sem nada de intensidade. Mas a vida quer mais que o meio do rebanho. Seja um desequilibrado, só os desequilibrados veem algum deus dançante em si!

Tenha equilíbrio – recomendam-nos como uma espécie de fórmula universal para o sucesso, mas ninguém nunca nos deseja excesso de vida. É importante perceber o que costuma estar em relação quando se diz esse mantra existencial tão difundido como panaceia gratuita, não só dentro da formatação científica ocidental como também pelas diversas linhas de pensamento com tradição zen, geralmente importadas por ocidentais e vendidas em forma de terapias alternativas capazes de, no limite, tapar o buraco do ser, enfim, remediar a grande Falta[…].

Equilíbrio prescrito, penso, como um contraponto para o esbanjamento, para tudo aquilo que vem carregado nos braços de um Dionísio e é capaz de incomodar, pela diferença, as formas de dominação. Ninguém deseja excesso de vida, o excesso e o esbanjamento costumam ser vistos negativamente diante de uma vida que está sob um céu cristão há milênios. Nesse sentido a vida passa a ser uma questão de gerenciamento da vitalidade e passa a depender de uma economia do desejo[…]

Mas à vida não cabe nenhum tipo de julgamento valorativo. Nietzsche nos leva a pensar que a natureza dos impulsos vitais é violenta e cruel, esse é o fundo trágico no qual estamos. Toda vez que colocamos máscaras visando disfarçá-la estamos desqualificando a natureza expansiva da vida. A vida se aceita ou se nega. Não há vida média, não há vida equilibrada.

O que você faz com a violência dos impulsos? Isso é uma questão sua, e só sua, de cada um. Não temos como nos ancorar, de antemão, em nenhuma referência. Se tomamos conhecimento da natureza excessiva dos impulsos ficamos menos dependentes de kits existenciais que nos prometem dietéticas para o equilíbrio. Reconhecer a crueldade e a violência dos impulsos não é afirmar um caos destrutivo entre nós – não se trata da crueldade do ponto de vista cristão nem da violência mortífera -, antes de tudo é uma afirmação de forças presentes na vida[…]

Viver é caminhar no instável, desprovidos de sentidos e significados absolutos. Equilíbrio como método para obter sucesso em uma vida avaliada entre ganhar ou perder, mas viver não se trata de perder ou ganhar. Para Reich viver era uma questão de sentir, ele não prometia alívio do sofrimento aos seus pacientes, mas dizia …prometo que você vai sentir mais.

Não se deve negar a intensidade e perceber que o equilíbrio responde muito mais a um medo de viver, a um medo da intensidade e principalmente a um dever ser submetido a uma racionalidade dominante. Os equilibristas poderão dizer que isso é radical, irão querer justificar pelo negativo de suas positividades. Eles não irão negar que viver também implica em morrer, irão se agarrar a deus, a transcendentais, a valores absolutos para que o ego mantenha-se amparado pela ideia de um sentido final. Mas não irão abraçar a própria tragédia, não irão abraçar, com o corpo, que viver implica em morrer[…]

A intensidade é a-significante, o que fazemos com isso? É preciso ter capacidade para selecionar os encontros, há forças destrutivas e criadoras. Fuganti chama isso de prudência. O equilíbrio promete mais segurança, uma vida tranquila (será?), mas ele cobra um preço: o temor à vida, à submissão a um sistema de racionalidade dominante, as moradas enganadoras que prometem tornar as coisas estáveis. Tranquilizar a vida!

Na minha noite idolatro o sentido secreto do mundo. Boca e língua. E um cavalo solto de uma força livre. Guardo-lhe o casco em  amoroso fetichismo. Na minha funda noite sopra um louco vento que me traz fiapos de gritos. Clarice Lispector, Água Viva.

Viver, talvez nos exija, antes de tudo, dois posicionamentos básicos, o medo ou a coragem, mas jamais o equilíbrio, o equilíbrio e tudo o que colocamos no meio são as nossas anomalias, a nossa gangrena, a má-fé diante do medo de viver. A gente tem medo. Tomar conhecimento de que o equilíbrio é uma ilusão pode nos ajudar a não se emaranhar pelo meio que é o lugar mais frequentado pelo rebanho, o meio é um abatedouro esterilizado.

Trecho de “Equilíbrio para ter qualidade de vida? Seja um desequilibrado” –  Adriel Dutra – Publicado em Letra & Filosofia

TEXTO DEAdriel Dutra
FONTELetra & Filosofia
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