несколько (Adaptação)

Seremos capazes de fazer girar, no sentido horário, este nosso país com o som de nossos gritos?

No Brasil é tão presente o nosso passado que eu nem preciso escrever sobre nenhuma das muitas crises que estamos vivenciando. Stanislaw Ponte Preta já o fez em seu ‘Festival de Besteiras que Assola o País’. Será que os gonzos da Terra não giram este país e por isso ‘tudo permanece como dantes no quartel de Abrantes’ – em status quo?

Não quero regurgitar toda essa comida que está sobre a mesa e com isso incitar uma pitada a mais de desesperança e revolta a esse povo vivaz e altruísta de alma amarelinha. Há tanto engodo na política brasileira que, no afã de continuarmos acreditando, pela simples razão de continuarmos acreditando, seremos tantas vezes e deliberadamente logrados. Seremos capazes de fazer girar, no sentido horário, este nosso país com o som de nossos gritos?

Sou a favor da abolição dessa política corrupta que se apresenta aqui. Mas se uma guerra somente é combatida com outra guerra; se para acabar com os lobbies e com os lobos deste país for preciso apelar para garras, presas, pulos e ataques, assim agiremos? Oh céus! Não é estranho concluir que o objeto de desejo da guerra é a paz? Não é terrível ter a certeza de que somos infinitamente capazes de conviver com as guerras, mas que a convivência com a paz absoluta é insuportável? Nascemos para lutar!

Mas é função de nosso otimismo, e de nosso compromisso com a humanidade, descrever a beleza das folhinhas verdes que brotam das cinzas; narrar que acima das nuvens escuras o sol brilha e que a escuridão é só um modo de olhar; gritar ao mundo que a dor é magnífica porque dela nasce a benevolência e a vontade de se extasiar na companhia do outro… É uma bela função. Admito. E por mais que eu deseje sacudir-me à realidade de que o mundo é triste e que viver é um processo mental muito doloroso, não sou capaz de encarar os fatos assim tão racionalmente. Porque tenho ganas em afirmar, todos os dias, o que os povos têm de belo.
E o que esse povo brasileiro tem de belo? – Otimismo! Um otimismo latente e transbordante num riso frouxo que alarga os cantos da boca. Essa vontade de viver, apesar de suas descrenças. Essa predestinação envolvente que fez com que Tom Jobim ao ser interrogado por que sempre voltava ao Brasil, quando podia viver sossegado nos Estados Unidos, respondeu: “Volto para me aporrinhar. Para responder a esse tipo de pergunta. Para ser um dos 5% de brasileiros que pagam imposto de renda. Para perder o apetite ou morrer de indigestão. Volto porque nunca saí daqui”.

Não vivemos no melhor Brasil possível. Ele se encontra estagnado num atraso antropológico medonho, mas creio que um dia os gonzos do progresso hão nos fazer girar.

Enfim, creio que é importante participarmos das decisões políticas e apolíticas de nossa comunidade, cidade, país e por aí vai. Mas quando os sonhos fenecem na proa e até mesmo a maré se veste de tumultuada incerteza, o melhor é ficar quieto, como se não estivesse na superfície, mas nas profundezas do oceano onde tormenta alguma pode me alcançar. Isso não é covardia, pois a certeza de um vendaval não é pior que um vendaval de incertezas. Contudo, em momentos assim importa devotarmos à serenidade como quem procura um tesouro. Pois não seria o equilíbrio das emoções, felicidade em meio às tormentas da vida?

“A gente tem ouvido tanta notícia ruim, que dá um aperto no coração e uma tristeza que parece que vão nos sufocar, não é mesmo? Uma vontade enorme de chorar… um choro assim de muitas tristezas. Um sufoco, uma falta de ar danada. Um sentimento de tanta tristeza que parece que somos culpados por tudo que está acontecendo. Esses são os os pensamentos, depois de assistir na TV, notícias de tantas tragédias- natureza desrespeitada, crianças sem casas, tantos fugindo de guerras, corrupção, crise política/econômica e social e quanta gente raivosa – um acusando ao outro aos berros”. (Tristeza na Floresta)

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Clara Dawn
Psicopedagoga e escritora. Como psicopedagoga é autora do projeto: "A drogadição na infância e adolescência numa perspectiva preventiva aos transtornos mentais e ao suicídio". Como escritora já publicou 7 livros. Dentre eles: O Cortador de Hóstias (Romance), Alétheia(Romance) e Sófia Búlgara e Tabuleiro da Morte (Crônicas de prosa poética). Clara Dawn também produtora de conteúdo da marca Raízes Jornalismo Cultural.




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