A busca pela perfeição pode desencadear a Síndrome do Pânico, diz estudo

Você olha para a vida de outras pessoas e as compara com a sua? Isso faz você questionar se você é inteligente, acomodado ou feliz?

A psicóloga clínica Linda Blair descreveu o perfeccionista como uma pessoa que se esforça para perfeição, para uma criação perfeita, resultado ou desempenho perfeito. O perfeccionista é difícil de confiar em si próprio, mesmo que isso signifique comprometer a sua saúde, os seus relacionamentos e o seu bem-estar em busca de um resultado que seja ‘perfeito’.

De acordo com alguns estudos isso é algo que afeta, principalmente, grande parte das mulheres. Uma pesquisa feita nos EUA, em 2009, constatou que as mulheres são mais propensas que os homens a experimentar sentimentos de inadequação em casa e no trabalho. E uma proporção maior sentiu que não cumpriu os seus próprios padrões elevados.

Essa insegurança está bem documentada no mundo do trabalho: em 2011, o Instituto de Liderança e Gestão encontrou metade das gerentes, em comparação com menos de um terço dos gerentes, com muitas dúvidas sobre o seu desempenho de chefia. Uma pesquisa interna entre mulheres que trabalham na Hewlett-Packard também descobriu que mulheres se esforçam para uma promoção apenas quando têm 100% de certeza. Os homens se esforçam para serem promovidos quando se encontram apenas 50% motivados.

O desejo de ser perfeita parece que influi a pensar a partir de uma idade jovem: pesquisa de Girlguiding UK descobriu que um quarto de meninas 7 a  10 anos de idade  sentiu a necessidade de ser perfeita.

O perfeccionismo pode ter implicações sérias: é associada à ansiedade e à depressão.  A saúde e a felicidade das mulheres é uma preocupação crescente. Na verdade, um estudo NHS Choices deparou com 28,2% de jovens de 16 a 24 anos com saúde mental adequada. O que mais impressiona neste estudo é que uma em quatro mulheres experimenta depressão, transtorno do pânico, fobia ou transtorno obsessivo compulsivo quando busca ser perfeita.  

O jornal The Guardian decidiu falar sobre este tema com os seus leitores a pedido de mulheres jovens com experiência e história de perfeccionismo. Foram 134 respostas – com uma idade média de 25 anos.  Para muitas mulheres jovens que nos constataram, a imagem corporal foi uma enorme preocupação e muitas disseram que se sentem desvalorizadas, a menos que elas sejam consideradas bonitas pela sociedade. A pressão para ser perfeita também se estendeu para o local de trabalho. Muitas entrevistadas falaram sobre o sentimento inadequado em seus trabalhos e experimentaram a síndrome do impostor.  Elas também se queixaram que sentiam a pressão para fazer tudo perfeito: o malabarismo de ser mãe perfeita, a carreira profissional sem reparos e outras pressões pessoais para serem perfeitas.

A mídia social desempenha um papel que influencia as perspectivas das mulheres sobre esta questão. Miranda, 18 anos, de Cambridge, resumiu assim: “Eu certamente sinto a pressão para ser perfeita e a essa pressão da mídia está prejudicando a minha saúde. A mídia social é a principal culpada. Eu tive que excluir minha conta no Instagram porque isso realmente me faz chorar. Eu sou uma pessoa madura, com um foco consciente na realidade. Mas eu tenho tantos amigos cuja vida parece tão perfeita e sociável que me faz sentir inútil e solitária”.

O impacto dessa pressão sobre a saúde mental das mulheres e o seu bem-estar é notável. Muitas experimentam ansiedade, distúrbios alimentares e depressão. Nós nos aproximamos de cinco mulheres para saber mais.

Aqui estão suas histórias:

Chardine Taylor-Stone, 31, que trabalha com artes em Londres

“A pressão para ser perfeita é muito elevada para mim como uma mulher negra”.

Quando criança, eu sentia pressão para ser certo tipo de perfeição.  Então eu queria um olhar bonito e agradável enquanto meus primos corriam e brincavam;  eu achava isso uma bobagem. Eu queria casar com um homem e conseguir um emprego. Agora eu sou adulta, minhas aspirações mudaram e estou muito mais confiante sobre quem eu sou. Eu joguei fora essas expectativas estreitas, mas eu ainda sinto muita pressão em alguns setores da minha carreira.

Eu sou uma das poucas mulheres negras da classe trabalhadora no meu setor, que é dominado por homens brancos. A maioria das mulheres negras que vejo nas artes são assistentes pessoais; nenhuma delas está trabalhando em uma posição que lhes dá autonomia – embora elas geralmente acabem executando um monte de coisas interessantes.

Eu definitivamente tenho síndrome do impostor; que é definida como autodúvida.  Penso que sou uma fraude intelectual e isso substitui quaisquer sentimentos de sucesso. Eu não tinha isso antes, quando eu trabalhava em call centers. Mas, agora, eu sinto que em um ambiente de classe média alta, a síndrome do impostor prevalece. É estranho ser a única pessoa de cor ou a única com certo sotaque – isso me faz sentir como se não estivesse nessa posição. Eu, às vezes, sofro ansiedade para enviar um simples e-mail. Preocupo-me se eu vou usar a frase correta. Noutras ocasiões penso que isso é bobagem porque eu faço muito bem e meu trabalho e me preparei para fazer um trabalho perfeito. Mesmo assim não me sinto bem o suficiente.  A pressão para ser perfeita é muito elevada para mim que sou uma mulher negra.  A minha mãe sempre me disse que eu teria que trabalhar mais do que uma pessoa branca para chegar à frente. É verdade, mas é uma aspiração autodestrutiva.

Perfeição, ou o que a sociedade considera perfeito, não é uma meta que todos atingem, mas está mais longe para uma mulher de cor.  A imagem da perfeição apresenta um tipo físico definido: uma mulher magra, com cabelos loiros etc. A síndrome do impostor me faz  imaginar que essas coisas não são nem a metade atingível por você.  Às vezes sinto que nasci imperfeita.

Salma Al-Hassan, 18 anos, estudante na Universidade de Warwick, de Oxford

“Eu gostaria de pode estar tranquila quando me olho”.

Mas eu sinto a necessidade de ser perfeita o tempo todo. Eu não estou certa de onde vem essa obsessão, mas a mídia social definitivamente torna tudo pior.

Eu tenho Instagram desde os 14 anos e cresci com ele.  E o Instagram realmente me afetou. Passei a idade de rolagem através de sites vendo imagens de mulheres com cabelo e maquiagem perfeitos.  Penso que eu deveria parecer com aquelas mulheres.  Com o passar do tempo uma grande parte dessas imagens foi alterada.  Eu sempre fui consciente sobre o meu cabelo.  Mas meu cabelo não tem o fio reto como as meninas que viaonline.  Gostaria de ver todos os meus amigos com os cabelos longos, sedosos e fáceis de escovar.  E pensava: “Quero o meu cabelo mais longo”.Agora eu estou tentando novamente amar o meu cabelo afro. Quero abraçar minha onda natural.

A mídia social também faz pressão e influi nos nossos gostos pessoais. Um monte de gente posta no “horário nobre” quando todo mundo está online. Eu sei de amigos que dizem: “Se eu não conseguir 40 curtidas eu apago a imagem”.  Eu não sou muito preocupada com isso, embora eu já tenha apagado postagem de fotos. Depois pensei: “Isso foi estúpido e eu não devia me importar sobre o que as outras pessoas pensam”.

Outra fonte de pressão para mim, pessoalmente, vem do fato de que a mídia tornou-se obcecada com uma estética particular para mulheres mestiça e mulheres negras. Nós somente somos consideradas atraentes se temos cinturas finas, quadris grandes e lábios carnudos. Ao longo dos últimos meses eu comecei a tornar-me muito autoconsciente sobre os meus lábios que não são tão cheios e belos como os de outras mulheres negras. Eu não tenho planos para fazer cirurgia plástica, mas se eu fizer não seriam enchimentos de lábios porque me ser parece apenas uma coisa da moda atual.

Eu gostaria de poder estar mais tranquila sobre o modo como eu me vejo: Eu estou ficando melhor gradualmente, mas eu ainda tento ter uma melhor aparência. E sempre coloco a maquiagem adequada. Embora hoje em dia exista uma ideia de beleza diversificada, predominam os estereótipos estúpidos que as pessoas se tornam reféns, inclusive eu. Há ainda um longo caminho a percorrer para as mulheres se aceitarem como elas são.

 Anna Robertshaw, 37, professora de ioga de Tunbridge Wells 

“Do lado de fora a minha vida estava ótima, mas por dentro eu estava em guerra”.

Meus 20 anos foram de um turbilhão de acontecimentos. Fiquei grávida do meu filho mais velho aos 23 anos; foi maravilhoso. Na época eu ainda estava com meu marido que foi meu amor de infância. Após o nosso filho nascer montamos casa em Tunbridge Wells. E sai do meu emprego para me tornar uma mãe de tempo integral. Meu marido tinha um trabalho maravilhoso e bem pago. E assim nós mudamos para uma bela casa. Logo depois nasceu o nosso segundo filho. Então, quando ele tinha cinco meses de idade eu engravidei com o meu terceiro rapaz.

Do lado de fora a minha vida estava ótima, mas por dentro eu estava lutando muito. Eu sentia muita pressão para ser uma mãe perfeita. Isto piorou quando os meus meninos começaram a estudar. Eu não poderia deixar de me comparar com outras mães e pensei que os filhos delas estavam sendo melhor educados e eram mais comportados do que os meus.  Sentia-me perdida e não tinha confiança na minha capacidade de criar meus meninos de uma forma que era certo para mim.

A depressão e ansiedade vieram agressivas e muito rápidas. Eu tomava  antidepressivos que me foram prescritos, mas logo percebi que não eram para mim. Lembro-me sentada no jardim, sentindo-me tão distante dos meus meninos como se fossem transparentes. Era como se eu estivesse olhando para eles através de uma tela. Eu parei a medicação e procurei outros meios de ajuda por meio  da  homeopatia e ioga.

Minha vida tomou um rumo diferente depois disso; eu me separei do meu marido. Parte da minha recuperação foi deixar as coisas irem.  Comecei a tomar conta da minha vida e pensar sobre o que era certo para mim. Por muito tempo, eu tinha montado na ideia de que eu deveria ser perfeita.  E eu estava com medo de quebrar essa imagem, mas isso estava me deixando arrasada.

Com a idade vem a sabedoria. E agora estou feliz com meu novo parceiro e minha vida em geral. Eu sou muito menos dura sobre mim mesma.  E percebi com o tempo que nem tudo pode ser perfeito o tempo todo.

A maior lição para mim, em termos de perder a vontade de tentar ser perfeita, foi que estava me tornando uma mãe mais consciente do meu papel. Essa lição me ensinou que a vida não gira somente em torno de mim, mas sobre eu e eles.  As crianças têm seus próprios pontos de vista e, às vezes, falam mais verdade do que os adultos. Elas também me ensinaram que eu posso manter uma casa arrumada, limpa o tempo todo sem o perfeccionismo anatingível.  E que eu também posso manter a forma e a aparência do meu corpo, mesmo com o efeito da gravidez dos meus três filhos.

Meu conselho para os jovens de hoje seria encontrar um passatempo ou paixão que lhe traga alegria e não se comparar aos outros em nenhuma hipótese.

Às vezes nossos maiores fracassos nos ensinam as lições mais valiosas. Deixar as coisas desmoronar não é o fim do mundo – é uma chance de reconstruí-lo.

Lotta Sampson-Stone, 22 anos, estudante e mãe solteira de Plymouth 

“Ser mãe, em particular, é muita pressão”.

Eu sou bastante crítica de mim mesma como um único pai. Estou consciente de tentar me retratar on-line e para a família, como a mãe perfeita. E agora estou na universidade, eu também quero ser uma estudante perfeita. Sei que é difícil conciliar tudo.

Mudei-me para Plymouth a parti de Lancashire para a universidade ano passado. E tem sido desesperador para eu fazer isso funcionar. Preocupa-me que eu não tenha passado o tempo suficiente com a minha filha.  Vivo uma boa parte do meu tempo na biblioteca. E fico pouco com minha filha, não encontro tempo suficiente para a socialização.

Ser mãe, em particular, é muita pressão. No Facebook vejo mães dizendo: “Eu cozinhei com meu filho hoje e fizemos colares de massas.” Quando você apenas coloca seu filho na frente da televisão, isso faz você pensar: “Eu deveria estar fazendo isso?” Mas é difícil ser uma estudante em tempo integral, mãe solteira,  fazer panificação, também artes e ofícios.

Recentemente tomei uma decisão para limitar o tempo gasto em mídia social. Eu não quero ter um impacto sobre a forma como me relaciono com a minha filha.  Mas também me preocupo se posso ou não sustentá-la.  A melhor coisa que posso lhe dar é uma mãe que é totalmente feliz e presente no aqui e agora. Ela não se importa que sua mãe não seja ‘tamanho seis’ ou que o apartamento esteja bagunçado.

Espero que a minha filha não cresça tão insegura quanto eu. Eu espero que ela jamais se compare de forma negativa em relação aos outros.  E que, se ela reconhece diferenças, que ela as aceite.  E que não se julgue que seja menos mãe, estudante, mulher ou ser humano.

Kate Goodrum, 18, um estudante na Universidade de Cambridge, a partir de Londres

“Uma coisa que eu aprendi é que ser perfeito nem sempre faz você feliz”.

Mesmo como uma menina que, igual a mim, demonstra um traço perfeccionista. Enquanto outras crianças são mais desenvoltas em me reprimia com receio de olhar mais severo. Até mesmo na escola primária eu me sentia menor quando não tirava boas notas.

Assim, o pensamento de perfeição se tornava um objetivo. Quando fiquei mais velha essa forma negativa de ver as coisas me levou a um distúrbio alimentar. Tornei-me muito crítica da forma como eu me via, até chegar ao ponto em que o meu índice de massa corporal ficou muito baixa. Os médicos me disseram que eu não seria capaz de obter meu GCSEs – Certificado Geral de Educação Secundária – se minha saúde não melhorasse.

Isto foi tão difícil de aceitar porque eu sempre lutei pela perfeição acadêmica, bem como a perfeição física. Na verdade, foi a chamada wake-up, despertar, que precisava e aí eu fui para o tratamento. No momento em que meu A-levels – Programa de preparação para as universidades do Reino Unido – se aproximava eu já me sentia melhor fisicamente, mas ainda havia questões subjacentes e alguma insegurança.

Transtornos alimentares nunca passam. Hoje, quatro anos mais tarde, embora eu me sinta bem melhor, ainda me comparo com os outros e me sinto mal quando me olho. Penso que estou gorda e que não sou alta o suficiente e que eu não tenho freios eficientes na minha mania de ser perfeita.

Tenho sorte de chegar a um acordo comigo de que ser uma perfeccionista assumida, faz parte da minha personalidade. Eu nunca estou contente com qualquer coisa que tenho conseguido. Eu ingressei na Universidade de Cambridge no ano passado. Estou animada com o começo. Mas eu também estou preocupada com a carga de trabalho. Odeio não ser a melhor em tudo e me preocupo com isso. Será que aquele outro ou outra é mais inteligente e multi talentoso? E também me preocupo que eu seja capaz de ter o suficiente para me manter.

Apesar de tudo isso, o que eu já experimentei ensinou-me a tentar ser menos dura comigo mesma. Uma coisa que aprendi é que ser perfeita nem sempre faz você feliz. Você pode ter um belo corpo, ir bem na vida acadêmica, não resolve todos os seus problemas. A minha entrada em Cambridge me ver isso.

Em minha mente a mulher perfeita é a mulher realizada em seu interior, feliz e não estressada. Alguém com uma vida social agradável e muitos amigos. Suponho que se alguém tenha tudo isso e ainda queira mais. Percebo que o ideal de perfeição provavelmente não existe. Talvez seja a hora de pararmos de lutar por algo inatingível e começarmos a celebrar o que temos agora.
Por Sarah Marsh –  Via: The Guardian – Tradução e adaptação: Portal Raizes

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