Leandro Karnal

“Todas as pessoas éticas têm justa indignação” – Por Leandro Karnal

Leandro Karnal Admiradores

Aristóteles diz uma coisa sobre a qual eu nunca desenvolvi muito, até hoje, mas que é fundamental, “todas as pessoas éticas tem esse compromisso com verdade, elas têm justa indignação” – uma pessoa ética briga, mas briga pelas causas corretas. Existem pouquíssimas coisas pelas quais se deve lutar no Brasil. Nós não devemos brigar por coisas pequenas, devemos relevar tudo: gente inconveniente, gente que fala alto, gente chata no trânsito… tudo isso é de menor importância.

Todo o resto, que é importante, são as grandes causas pelas quais a vida vale a pena: por exemplo família, ética, a luta contra o preconceito… Estas são causas que valem a pena e pelas quais nós temos que ter justa indignação (…).

A crença aristotélica é uma palavra: a perfectibilidade do caráter (essa palavra não é de Aristóteles, é um neologismo inventado por Rousseau em francês; Aristóteles usa uma palavra em grego). Caráter pode ser transformado e melhorado ano a ano – se eu quiser – se melhorar o caráter for meu projeto de vida. Como é o meu, apesar da dificuldade, eu luto para ser uma pessoa melhor.  Fui derrotado muitas vezes, e às vezes digo para as pessoas que gostam de mim – “Eu melhorei muito” e elas me dizem: “imagina antes?” – tamanha a quantidade de coisas que têm para consertar ainda.

Eu preciso melhorar o meu caráter sempre e constantemente: ser um homem, um pai, um professor, um profissional melhor a cada dia – perfectibilidade do caráter. Esta luta vai terminar no dia da minha morte, preciso lutar para isso sempre, este é o desafio.

Outra questão importante é que eu tenho que incluir o meu “eu” na ética. Tudo que acontece, acontece passando por mim. Eu tenho responsabilidades sobre quase tudo. Responsabilidade significa que a minha vida, minha família, meu corpo e minha renda não são dados do destino, mas são questões fundamentais deste momento.

Nós temos no Brasil uma imensa tradição de tirar o “eu” da história. Nenhum de nós assume que faz parte, e utilizamos frases como “o brasileiro não sabe votar”; “o brasileiro é atrasado”; “o brasileiro no trânsito é muito estressado”… Mas eu sou um santo consciente criticamente e sempre pontual.

Eu vou insistir num ponto que é incômodo, porque a coisa mais fácil de dizer a todas as plateias, que causaria palmas fáceis, e agradaria a todos os ouvidos, ela não é verdadeira, mas se eu fosse populista eu insistiria, que frase é essa? – “Nós somos um país de trabalhadores honestos, governados por ladrões” –  seria fabulosos isso, as plateias adorariam, porque “nós somos os honestos”, nenhum dos 513 deputados que hoje estão em Brasília, e dos 81 senadores, nenhum deles deu um golpe de estado, todos foram eleitos em eleições livres, abertas e secretas, todos que deram aqueles votos que tanto nos envergonharam foram eleitos por nós, nem que seja pela última vez, mas foram eleitos por nós.

E aí Aristóteles nos diz uma frase “os homens refugiam-se na teoria e pensam que estão sendo filósofos e se tornaram bons com a teoria, nisso se portam como enfermos que escutassem atentamente seus médicos, mas não fizessem nada do que estes lhe prescrevem”.

Quem ouve palestras sobre ética e continua andando no acostamento, funciona como alguém que vai ao médico, acho o médico ótimo, chega em casa e não faz nada do que o médico disse. Aí um conselho: não vá ao médico e não escute palestras sobre ética. Vá direto para o acostamento. É a sua vocação, é o seu jeito. Não perca mais tempo com isso.

A vida sem ética multiplica os problemas porque o mentiroso começa a se enredar exponencialmente em histórias. Toda pessoa que mente tem que ter uma memória brilhante, se não começa a ser pego nos detalhes da sua história.

Ao contrário do que nos ensinaram e isso é terrível de dizer – o crime compensa, roubar compensa – as mães estavam erradas, os ladrões enriquecem mais rápido. Porém não compensa para sempre, não compensa para toda vida.

É óbvio que o imposto que eu não pago vai para o meu bolso, em algum momento há o risco de um funcionário nipo-brasileiro aparecer na minha frente. Há um risco: em algum momento eu posso passar pelo constrangimento, que deve ser devastador, de ser preso na frente dos meus filhos. Deve ser devastador esse sentimento – “papai é um ladrão” – isso é terrível e mesmo que papai tenha morrido sem ser preso eu sei que papai é um ladrão. Papai não podia tá recebendo um salário de 5 ou 10 mil reais e estar nos levando para Europa de primeira classe, de algum lugar saía esse dinheiro. – “Papai era um ladrão” – difícil isso.

O Legado da honestidade é um legado, não é que ele seja exatamente e unicamente melhor, mas ele é mais fácil. O homem desonesto quando toca seu WhatsApp perto da esposa fica apavorado. Celular de gente desonesta tem muito código, tem muita senha, para acesso à foto, à mensagem… Um homem desonesto jamais entrega esse celular para mulher e diz – “atende aí, vê quem é” – porque isso é um gesto de profunda confiança na sua ética. Um homem honesto, se alguém diz – “você me traiu” – esse homem diz com tranquilidade – “não, isso é uma história falsa”.  O homem desonesto vai dizer – “quem disse isso? quando?” – para saber em qual situação, para saber onde ele vai negar e assim por diante. A desonestidade torna a vida complicada, torna vida difícil, torna a vida acidentada. A desonestidade é uma questão que nós temos que pensar diretamente no Brasil, porque nós temos que pensar numa transformação que está sendo demandada neste País, para o qual eu sou muito otimista.

Leandro Karnal em transcrição do vídeo “Todas as pessoas éticas têm justa indignação” – Publicado no canal Leandro Karnal – Admiradores

 

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