Ilustração alusiva à branca de neve.
Vida - By Christian Schloe

Vida, uma mentira – Por Clara Dawn

Clara Dawn

Neste texto uso a palavra “Vida” como metáfora para uma grande anedota mentirosa.  Mas você pode substituir esta palavrinha por um nome próprio, uma coisa, um lugar, uma história, um momento vivido, um sonho transformado em pesadelo num repente. Num instante você descobre: a Vida é uma mentira e tudo que você acreditou ser real, sublime e fluído das mais puras e sinceras intenções – que tolice – não passou de um simulacro deliberado. Então você se pergunta veementemente, por que comigo?

Nesse momento não dá mesmo para crer em justiça Divina, pois a realidade é que as pessoas boas são vítimas das maiores inverdades da existência. São alvos fáceis por não terem a capacidade de julgar, por acreditarem que receberão somente aquilo que oferecem.

Mas a Vida, essa doce narcose, é mesmo uma grande mentira.  Segundo o neurocientista Ming Hsu – da Universidade da Califórnia em Berkeley – nós não fomos programados para dizer a verdade. Criamos o tempo todo, para nós e para os outros, pequenos embustes e desculpas para aliviar a consciência e nos proteger de lamentações e aborrecimentos que julgamos evitáveis com uma mentira deliberada. Para Ming, essa é uma consequência natural da nossa capacidade de racionalizar as coisas e os delitos. Quanto mais racionalizamos, mais relativizamos o respeito ao outro, a moral e a ética – e os mais criativos costumam ser mais bem-sucedidos no processo de sofisma.

Gosto da palavra sofisma. Ela explica muito as mentiras da Vida. Os sofistas eram considerados mestres da retórica e da oratória, acreditavam que a verdade é múltipla, relativa e mutável. Ou seja, os sofistas usavam seus argumentos com o objetivo de produzir a ilusão da verdade, que, embora simule um tipo de realidade, a intenção é deliberadamente enganosa.

É verdade que não existe verdade sobre coisa alguma. E que nosso cérebro, tão bem treinado a mentir, não está preparado para aguentar verdades absolutas sobre nós mesmos.

Vida: o quanto de verdade sobre si mesmo você seria capaz de aguentar?

Olhando por este prisma, o filme “O primeiro mentiroso” – de Ricky Gervais  – nos parece bastante verossímil.  Num mundo onde só a verdade prevalecesse, os comerciais da Coca Cola e de Salsichas seriam equivalentes às notícias de genocídio.  Talvez não existissem mais homens na Terra se a verdade não fosse, em si mesma, uma mentira.

Mas não estou falando aqui de mentirinhas corriqueiras como dizer que não está; elogiar falsamente, fingir dor cabeça… Mas sim, de um tipo cruel de mentira.  A mentira que mata os sonhos de alguém. A mentira dos falsos sentimentos. Dizer que  ama quando na verdade jamais soube o que é amar.

Verdades ou mentiras: eu não acredito profundamente em coisa alguma. Eu só acredito no que eu sinto. Se eu sinto, faz sentido. Logo, eu só acredito na pedagogia do amor. E o amor honesto, jamais comungará com as falsidades da Vida.  E há tanta falsidade, meu Deus. Tanta falsidade, que todas as vezes que eu ler a palavra Vida, estarei lendo: hipocrisia.  Ai que vontade de chorar!

Leia mais textos da autora:

COMPARTILHAR

RECOMENDAMOS


Clara Dawn
Psicopedagoga e escritora. Como psicopedagoga é autora do projeto: "A drogadição na infância e adolescência numa perspectiva preventiva aos transtornos mentais e ao suicídio". Como escritora já publicou 7 livros. Dentre eles: O Cortador de Hóstias (Romance), Alétheia(Romance) e Sófia Búlgara e Tabuleiro da Morte (Crônicas de prosa poética). Clara Dawn também produtora de conteúdo da marca Raízes Jornalismo Cultural.

COMENTÁRIOS