A mexicanazinha, o caminhante e o mar – Um miniconto sensível e poético

Adalberto de Queiroz

Era uma vez, uma menina, seus pais e um viajante – um homem na casa dos seus sessent’anos e a alma de menino, doravante “caminhante”.

Entraram na mesma van que os levaria do aeroporto ao hotel com o caminhante. Estar alhures e no México, ter viajado com os versos de António Machado ressoando na mente, reverbera ainda mais quando o cansaço nos ilude entre sono e paisagem, entre sonho e realidade.

Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.

O caminhante viu muitas estradas e lateja em suas têmporas: “caminhante, são teus rastos; o caminho, e nada mais”…E como em The Road, taxativo: “Caminhante, não há caminho, faz-se caminho ao andar…” Como andam pai e filho na estória que tomou todo o tempo de vôo – a companhia do apocalíptico McCarthy…

Voou sobre os mares, tomou um paquete em Algeciras e uma barquinha no rio S. Francisco; o caminhante andou voando; e sente-se alhures dois dias após deixar a savana em que vive. Heureux qui comme Ulysses a fait um beau voyage…Georges Brassens toca na vitrola instalada na cabeça do caminhante (vitrola onde repassa canções antigas, quando quer dormir ou quando estar a despertar…).

O caminhante está a caminho da velhice, lembra-se de tantas coisas que não quer e não se recorda do que quer, pelo menos não na rapidez com que quer – demorou uma era para lembrar-se do nome do músico francês que lhe povoou a partitura da juventude com a primeira língua estrangeira que aprendeu. O caminhante tem fé; certa mística o acompanha desde tenra idade; leu muito mas esqueceu quase todos os enredos. A trama de sua vida é complexa e mais se assemelha a uma daqueles cobertores que viu na Pensylvannia, anos atrás…Quilt! – isso: aquelas colchas de retalhos das mulheres Amish que tanto lembra o cobertor velho que lhe dera sua avó paraibana.

Só tem agora o caminhante ouvidos para a menininha – também cansada; provavelmente exausta de ter que se parecer adulta; Alberto Da Costa e Silva está ao seu lado na van, estranhamente recordando que em breve a meninazinha estará no “curral dos adultos”. Por ora, sonha. Sonha com a praia e a nomeia – areia.

– Papai, chegamos à areia? Arena, areia, cimento da vida; la arena…

Desperta, enquanto a van continua se balançando no asfalto já úmido da chuvinha fina da temporada, ao cair da tarde, a caminho do destino – banho quente e cama estão nos planos do caminhante,  mas la arena o arranca de seu torpor.

– É já a arena, Papá?

A estrada (The Road) que leu no avião é uma estrada solitária e apocalíptica. Cormac McCarthy conduzia-o pela estrada afora… Quase não dormiu entre uma turbulência e outra – está aqui, a centenas de milhas de casa – centenas de anos-luz de sua origem. Savana e mar se encontram quando repousa, mas a voz da menina o acalenta ao longo do sono profundo. Desperta ao amanhecer em outro cenário. Há o mar. Há o mar caminho de Augusto (o Schmidt), o mar “rude e profundo”…aquela obra de Zeus onde reina Poseidon; desde a Criação e seu trabalho no segundo dia; quiçá, antes quando a Sabedoria pairava sobre a superfície das águas. E viu o caminhante que era bom – da cosmogonia à realização.

Como Ulisses, viajante de epopéias antigas, pensa o caminhante que no saldo final a viagem foi boa e assim será para sempre. Espera que um cão (ou um gato) venha, ao retornar à casa, reconhecer-lhe a cicatriz em seu pé direito e achegar-se com ternura ao dono que volta à casa.

– Chegamos à arena, Papai?

Se o mar para os poetas é devaneio e perdição, é caminho e é destino; para a menina é construir castelos na areia. Para ela, o mar é tudo isso: la arena

Como a vida, ao fim de tudo.

Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.

E ao retornar, saberá o caminhante que “ao andar faz-se o caminho, e ao olhar-se para trás vê-se a senda que jamais se há-de voltar a pisar…”

Retornará. E ao ar marinho, há o viajante de preferir voltar mais experiente à casa ora distante, ao fim desta temporada, com uma garrafinha mental plena da areia; da areia em seus pés, na seca doçura de sua aldeia, no cerrado – sua casa erigida na savana, eis onde planeja viver o resto de seus dias, mais experiente e, nem por isso, menos sonhador. Caravelas em noites de leves sonhos. Eia, avante…Ao mar dos sonhos como “embarcado em seco”; pois é o que terá aprendido a lição de Machado:

“Caminhante, não há caminho,
somente sulcos no mar.”

Adeus, caminhante. Au revoir.

COMPARTILHAR

RECOMENDAMOS



COMENTÁRIOS





Adalberto de Queiroz
Nascido na Campininha, criado em Sant'Anna das Antas e especialista em chutar lobeiras na Vila Jaiara, quando a maior escola da vida era a fábrica de tecidos da Vicunha e a biblioteca do Couto Magalhães. Rodou o mundo, ganhou cabelos brancos, nunca perdeu a esperança, mesmo em meio às agruras do comércio que exerceu por mais de 35 anos. Atualmente obtém a carteirinha de flaneur, merci bien, escrevendo e lendo por puro prazer.