Psicologia e Comportamento

Deixe doer de uma vez só, para não doer nunca mais

A gente tem um medo absurdo de sofrer. Queremos nos distanciar de toda e de qualquer dor, seja física, seja emocional. Não suportamos a ausência de felicidade, nem por um segundo. Por isso é que cada vez mais ficamos dependentes de analgésicos e de antidepressivos, uma vez que não permitimos que a dor se aproxime, nem queremos conhecê-la. E ela fica ali, adormecida, mas presente, sempre à espreita.

A questão é que precisamos analisar os nossos sentimentos, pois somente entendendo o que estamos sentindo é que conseguiremos lidar com o mundo que corre dentro de nós. Nada lá fora seguirá tranquilamente, enquanto carregarmos pendências internas, camuflando-as através de comportamentos nocivos e DE medicações excessivas. Uma ou outra hora, aquilo tudo que empurramos goela abaixo explode, irrompendo quaisquer barreiras que encontrar pela frente.

Não existe nada mais inútil do que postergar aquilo que deve ser encarado aqui e agora, seja no mundo prático, seja em nossa carga emocional. Certas coisas e determinados sentimentos não podem ser deixados para lá, para depois, ou continuaremos emperrados no mesmo lugar, sem chances de voltar a encontrar a felicidade. Para superarmos o que nos fere, é necessário que encaremos e enfrentemos o que nos cabe, mesmo que doa, ainda que machuque, não importando se achamos que não somos capazes.

O sofrimento é inevitável, pois somos sentimentos e nem sempre estaremos felizes, bem como erraremos e escolheremos mal, em muitas etapas de nossas vidas; ou seja, viver implica gozo e dor, sendo preciso saber lidar com o que nos chega. É impossível fugir ao sofrimento todo o tempo; o que nos resta é enfrentá-lo, mergulhando fundo na tristeza e na dor, para que soframos o que tivermos que sofrer e consigamos sobreviver, livres do que era escuridão, ao encontro da luz que há nos novos caminhos à nossa frente.

Não tenha medo da dor, tema conviver com o sofrimento pelo resto dos seus dias, por medo de sofrer. Quando enfrentamos o que nos fere, tornamo-nos capazes de lutar contra tudo e contra todos que nos fazem mal, criando forças para expulsar de nosso convívio e de nosso íntimo as tralhas emocionais que nada mais fazem do que emperrar a nossa busca pela felicidade.

Marcel Camargo

Graduado em Letras e Mestre em "História, Filosofia e Educação" pela Unicamp/SP, atua como Supervisor de Ensino e como Professor Universitário e de Educação Básica. É apaixonado por leituras, filmes, músicas, chocolate e pela família.

Recent Posts

O seu corpo é o primeiro espaço que você precisa configurar: ele é uma casa – Viviane Mosé

Desde os primeiros instantes de nossa existência, o corpo se manifesta como o palco primordial…

17 horas ago

A ciência confirma: a ansiedade que sentimos hoje pode ser um luto que nossos avós não conseguiram elaborar

A ansiedade, em sua forma original, não é patológica. Trata-se de um mecanismo adaptativo essencial…

2 dias ago

Não é com o crime que a violência contra a mulher começa: é na cultura , na maneira como nos educamos

O debate sobre a violência contra a mulher no Brasil ganha um novo capítulo com…

2 semanas ago

Do frio na barriga à exaustão mental: como a psicossomática revela que estamos super estressados

Você já sentiu uma dor de estômago inexplicável antes de uma reunião importante? Ou talvez…

2 semanas ago

Exposição digital e adultização: Estudo mostra que o maior número de homens misóginos é a adolescência

Em um cenário de crescentes preocupações com a saúde mental e o comportamento de jovens,…

3 semanas ago

Depressão difícil de tratar: O trauma de infância pode ser o “inimigo invisível” e a ciência dá a solução

Por que a terapia nem sempre funciona? É um cenário comum e doloroso: a busca…

3 semanas ago