Dispara a taxa de suicídio entre os povos originários

Clara Dawn

Sem políticas públicas que transformam o conceito de Demarcação de Terras Indígenas em fato, sem a organização da estrutura fundiária com o objetivo de promover e proporcionar a redistribuição das propriedades rurais para que estas cumpram o seu papel social, os indígenas desesperançados estão tirando suas próprias vivas.

No ano passado, 106 indígenas (povos originários) tiraram a própria vida, aponta relatório do Ministério da Saúde. Aumento do número de suicídios coincide com investida na retirada de direitos, além das notícias de que territórios indígenas serão entregues para o agronegócio e de todas as posturas ofensivas contra eles.

De acordo com o relatório anual de violência contra os povos indígenas, o número de índios que tiraram a própria vida aumentou em 18% em 2016, em comparação a 2015. Somente no ano passado 106 índios se mataram, com crescimento expressivo na região do Alto Rio Solimões, que saiu de 13 casos em 2016 para 30 no ano de 2017. A taxa de suicídios entre indígenas já chega a ser maior que em qualquer outro grupo.Quase metade das mortes ocorrem entre 10 e 19 anos.  De acordo com o Ministério da Saúde, no período 2011-2015 foram 15,2 suicídios para cada grupo de 100 mil habitantes, o que representa quase o triplo da taxa registrada entre os não indígenas, de 5,9/100 mil.

Para o coordenador regional do Cimi, Roberto Liebgott, o aumento da mortalidade de indígenas está diretamente ligado à uma postura de retirada de direitos, oriunda de um sistema capitalista que rege o Brasil desde que ele foi “descoberto”. Até hoje, nenhum governo fez a Reforma Agrária, nenhum governo olhou para os povos originários, que só querem o direito de ser quem são: os povos originários que viviam na Amazônia há 11 mil anos antes da colonização.

Lívia Vitenti, da Secretaria Especial de Saúde Indígena, aponta que, embora o suicídio seja um fenômeno multifatorial, questões relacionadas à disputa por território têm impacto ainda que indiretamente em determinadas etnias. O povo guarani-kaiowá é um dos mais atingidos, segundo ela:

— É uma população que ficou confinada em um território muito pequeno e que vive um problema fundiário constante, o que leva a desavenças, alcoolismo e desestrutura.

Além dos guarani-kaiowás, os tikunas e os carajás são apontados como etnias com taxas mais elevadas de suicídios. O fenômeno não é exclusividade do Brasil. Para todos os países com dados, os indígenas aparecem com os índices preocupantes, afirma Lívia. A particularidade do Brasil está nas dificuldades para prestar assistência, já que não há médicos dispostos à enfrentar as agruras de regiões oprimidas, espoliadas e subjugadas por todos os governos.

Esse direito está garantido no caput do artigo 231 da Constituição:

São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.”

19 de abril – Dia do Índio?

“E quando seu filho ou filha chegar hoje, em casa, todo lindo, pintadinho de índio batendo na boca e fazendo Hu Hu Hu… conte a verdade pra sua criança! Não permita que a mentira sobre nós indígenas se perpetue… Nós não somos seres do passado, nós estamos vivos.

Estamos em todas as regiões do Brasil e não só na Amazônia. Não somos aquele estereótipo de olhinhos puxadinhos e cabelo preto e lisinho. A cada aldeia, em cada etnia nós somos diferentes. Cada um dos nossos povos foi se constituindo ao longo dos séculos e séculos e séculos e sobrevivendo a opressões e massacres…

Então, no dia de hoje, ensine seu filho a respeitar a diferença!! Ensine a ele que:

– O Brasil não foi descoberto. Foi invadido.
– Os indígenas brasileiros pertencem a 305 etnias diferentes, falando 274 línguas.
– Estamos presentes em todas as regiões do Brasil.
– Não vivemos só nas florestas. Estamos na cidade, talvez aí do seu lado. Posso ser seu vizinho.
– Cada povo é diferente do outro. Cada um tem seus usos e costumes que se assemelham em alguns casos. Mas cada qual com sua cultura.
– Índio brasileiro não bate a mão na boca e faz hu hu hu… isso pertence à cultura de nossos irmãos indígenas norte americanos.
– Há indígenas pelo mundo todo.
– Usamos internet, celular, tablet e nem por isso deixamos de ser indígenas.
– Na verdade nem somos índios… Somos sim Tupinambá, Guarani Kaiowá, Huni Kui, Pankararu, Tuxá, Mundurucu, Tukano, Baré, Dessana, Yanomami e muitos outros nomes que cada etnia recebe. O nome ‘índio’ foi nos dado pelo homem branco, sim, o invasor”. Texto: Potyratê Tupinambá

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Clara Dawn
Clara Dawn é romancista, psicoterapeuta; palestrante com o tema: "Prevenção aos transtornos mentais e ao suicídio na adolescência". É editora chefe no Portal Raízes (portalraizes.com), colunista aos sábados no Jornal Diário da Manhã em Goiânia, Goiás, desde 2009. É autora de 7 livros publicados, dentre eles, o romance "O Cortador de Hóstias", obra que tem como tema principal a pedofilia. Clara Dawn inclina sua narrativa à temas de relevância social. O racismo, a discriminação, a pedofilia, os conflitos existenciais e os emocionais estão sempre enlaçados em sua peculiar verve poética. Você encontra textos de Clara Dawn em claradawn.com; portalraizes.com, jornal Diário da Manhã/Goiânia ou pesquisando no Google. Seus livros não são vendidos em livrarias. Pedidos pelo email: escritoraclaradawn@gmail.com