“Em paz me deito e logo pego no sono porque o Senhor me faz repousar seguro”

Adalberto de Queiroz

Os Salmos oferecem ao Leitor oportunidades múltiplas de reflexão e trazem conforto. Lidos ou cantados, lidos silenciosamente ou em voz alta; quando em seu próprio quarto, ou celebrando em sua comunidade – neles o leitor atento encontrará conforto e ânimo.

A minha experiência de leitor do livro dos Salmos vem da infância, quando ganhei meu primeiro exemplar da Bíblia, de minha irmã adotiva (Laíde Epifânia) quando eu completei 14 anos; e, desde então, nunca deixei de ler e fazer anotações neste livro – nos momentos de alegria ou tristeza, de desânimo ou de aparente infortúnio. Lembro-me mesmo da recomendação do Papa João Paulo II de recorrermos à leitura dos Salmos quando a esperança parece fugidia e o sono não vem…

Daí me veio à mente o Salmo 4, com ênfase no versículo em que está a essência deste canto de Davi, que tinha em minha memória como: “Em paz me deito e logo pego no sono, porque só Tu, Senhor, me fazes repousar seguro”.

A tradução de João Ferreira de Almeida (1962) me leva com exatidão ao verso 8:

“Em paz também me deitarei e dormirei, porque só Tu, Senhor, me fazer habitar em segurança”.


E a tradução feita a partir da versão dos monges beneditinos de Maredsous me corrige para: “Apenas me deito, logo adormeço em paz, porque a segurança de meu repouso vem de vós só, Senhor”.

Em minha memória ressoa o modo como eu me fazia adormecer no orfanato em Anápolis, naquele estágio de vigília em que as preces aprendidas retornam à mente que se aquieta para entrar em repouso – “em paz, me deito”. A insônia que a idade adulta só fez aumentar, me ensinou que neste Salmo encontrava sempre o caminho não-químico para o sono reparador. Como comerciante e homem de negócios, a certa altura compreendi que a ansiedade não depende apenas de encontrar a boa prece – é preciso recorrer aos sedativos, se possível, sem gerar dependência. Vieram a homeopatia e a fitoterapia – erva de São João ou hypericum perforatum – os conselhos do Dr. Sauerbronn – meu homeopata por quase 30 anos; e os chás de camomila…– tudo para superar “as agruras do comércio” (como aprendi em Santo Tomás); mas o Salmo 4 continuou lá, comigo, meu companheiro até hoje, com o mesmo efeito reparador e seu lenitivo celestial.

A angústia está na raiz do canto de David. Como todo “angustiado”, o salmista apela ao Senhor quase de forma imperativa: “Quando vos invoco, ouvi-me!” (ou: “Respondei-me!”). Essa é a atitude típica do angustiado. Há quem compreenda a angústia como o rumor da culpa, o peso quase insuportável do pecador que se arrasta até que tenta “conciliar o sono”.

A expressão tem sentido para o angustiado que não consegue frear aos pensamentos repetitivos. Os terapeutas dizem que é sobre esse tópico que muito eficazmente agem os medicamentos modernos e que isso independe da leitura – mística ou não; na dúvida, uso conciliar o sono, e obter a paz interior para conseguir repousar com a ajuda imprescindível dos Salmos, especialmente deste.

E se a leitura deste canto não for enviesada, como o fiz agora, ler e meditar sobre estes nove versículos nos levam a pensar em outro tema “moderninho” para muitos leitores e tão antigo como a história da humanidade. Falo da felicidade.

O sono do último verso é decorrência da Felicidade que o Senhor (de David e Nosso Senhor) é capaz de operar no coração do poeta-salmista quando resume:

“Puseste em meu coração mais alegria/ do que quando abundam o trigo e o vinho”. A felicidade decorrente dessa Alegria é diferente da alegria coletiva e da embriaguez. A alegria faz do que submete ao “tremer, mas sem pecar”, um ser em repouso que quando está no leito, cala-se, oferece ao Senhor o sacrifício da sinceridade e se põe em estado de espera. “Esperai no Senhor”, diz David; pois não é das posses – do “ter”, senão que da atitude de ser; do Ser que espera em Deus que vem a paz do repouso e do sono reparador.

Por tudo isso, o Salmo continua a ser minha favorita “Oração Noturna”.

SALMO 4

1. Ao mestre do canto. Com instrumentos de corda. Salmo de Davi.
2. Quando vos invoco, respondei-me, ó Deus de minha justiça, vós que na hora da angústia me reconfortastes. Tende piedade de mim e ouvi minha oração.
3. Ó poderosos, até quando tereis o coração endurecido, no amor das vaidades e na busca da mentira?
4. O Senhor escolheu como eleito uma pessoa admirável, o Senhor me ouviu quando o invoquei.
5. Tremei, mas sem pecar; refleti em vossos corações, quando estiverdes em vossos leitos, e calai.
6. Oferecei vossos sacrifícios com sinceridade e esperai no Senhor.
7. Dizem muitos: Quem nos fará ver a felicidade? Fazei brilhar sobre nós, Senhor, a luz de vossa face.
8. Pusestes em meu coração mais alegria do que quando abundam o trigo e o vinho.
9. Apenas me deito, logo adormeço em paz, porque a segurança de meu repouso vem de vós só, Senhor.

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Adalberto de Queiroz
Nascido na Campininha, criado em Sant'Anna das Antas e especialista em chutar lobeiras na Vila Jaiara, quando a maior escola da vida era a fábrica de tecidos da Vicunha e a biblioteca do Couto Magalhães. Rodou o mundo, ganhou cabelos brancos, nunca perdeu a esperança, mesmo em meio às agruras do comércio que exerceu por mais de 35 anos. Atualmente obtém a carteirinha de flaneur, merci bien, escrevendo e lendo por puro prazer.