Literatura

“No décimo segundo andar do ano vive uma louca chamada Esperança”

Mario Quintana, poeta gaúcho, era chamado de “poeta da esperança”, sobre ela chegou a dizer em entrevista: “O ditado diz que, enquanto há vida, há esperança. Eu digo que enquanto há esperança, há vida. Porque nunca foi encontrado em nenhuma parte do mundo, num bolso de um suicida, um bilhete de loteria que fosse correr no dia seguinte”. 

O seu tratamento poético da esperança não é ingênuo nem se confunde com o otimismo tolo. A propósito da diferença entre esperança e otimismo, vale a pena observar o que disse o escritor e psicanalista mineiro, radicado em Campinas, Rubem Alves:

“Esperança é o oposto de otimismo. Otimismo é quando, sendo primavera do lado de fora, nasce a primavera do lado de dentro. Esperança é quando, sendo seca absoluta do lado de fora,continuam as fontes a borbulhar dentro do coração. (…) A esperança se alimenta de pequenas coisas. Basta-lhe um morango à beira do abismo”.

O poeta inglês Samuel Johnson observou que os saltos do ser humano não são, como se poderia esperar, de prazer em prazer mas de esperança em esperança. Por conta disso, talvez não seja exagero dizer que o homem é o único animal que tem esperança e que, por isso, é o único para o qual o futuro, e nele o ano novo, faz sentido.

Neste vídeo, o ator Ivan Lima declama o belo poema Esperançade Mario Quintana – confira:

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…
Texto extraído do livro “Nova Antologia Poética”, Editora Globo – São Paulo, 1998, pág. 118.

Portal Raízes

As publicações do Portal Raízes são selecionadas com base no conhecimento empírico social e cientifico, e nos traços definidores da cultura e do comportamento psicossocial dos diferentes povos do mundo, especialmente os de língua portuguesa. Nossa missão é, acima de tudo, despertar o interesse e a reflexão sobre a fenomenologia social humana, bem como os seus conflitos interiores e exteriores. A marca Raízes Jornalismo Cultural foi fundada em maio de 2008 pelo jornalista Doracino Naves (17/01/1949 * 27/02/2017) e a romancista Clara Dawn.

Recent Posts

CRIANÇAFOBIA: Quando foi que começamos a esquecer o que é ser criança?

Vivemos um tempo estranho. Nunca se falou tanto sobre desenvolvimento infantil e, paradoxalmente, nunca pareceu…

3 dias ago

Ninguém amadurece afetivamente sozinho: é na experiência do cuidado compartilhado que nos constituímos – Com bell hooks

Durante séculos, o amor romântico foi apresentado como uma espécie de destino inevitável. A literatura,…

1 semana ago

O efeito da alimentação e da nutrição na vitalidade dos homens

Numa era em que as tendências de bem-estar dominam as redes sociais e as aplicações…

1 semana ago

Celulares sem bloqueio à noite expõem crianças e adolescentes a riscos inimagináveis – ComVanessa Cavalieri

Este artigo busca refletir sobre a interseção entre tecnologia, infância e o papel dos adultos…

1 semana ago

Maravilhosa Sra Maisel: Quem você é quando para de ser o que os outros esperam?

Disponível na Prime Vídeo, Maravilhosa Sra. Maisel (Marvelous Mrs. Maisel) 2017, não é apenas uma…

2 semanas ago

O gatilho acontece no presente. Mas quem reage é a criança ferida ainda inscrita no seu sistema nervoso

O trauma emocional pode ser compreendido como uma experiência psíquica que ultrapassa a capacidade de…

2 semanas ago