Psicologia e Comportamento

Exposição digital e adultização: Estudo mostra que o maior número de homens misóginos é a adolescência

Em um cenário de crescentes preocupações com a saúde mental e o comportamento de jovens, a juíza Vanessa Cavalieri, titular da Vara de Infância e Juventude da Comarca da Capital do Estado do Rio de Janeiro, trouxe à tona um debate urgente e necessário. Durante sua participação em uma CPI do Crime Organizado, a magistrada alertou para um fenômeno alarmante: a ascensão de uma geração de adolescentes com níveis de misoginia e ódio superiores aos de homens adultos, diretamente relacionado ao acesso precoce e desregulado a conteúdos pornográficos e à adultização de informações na internet.

A internet é como uma praça pública escura e cheia de estranhos

“Há uma pesquisa de uma universidade inglesa que indica que, atualmente, a faixa etária com maior número de homens misóginos, com ódio às mulheres, é a adolescência. Há mais adolescentes misóginos do que homens adultos ou idosos.

Esse fenômeno decorre, em grande parte, do acesso cada vez mais precoce desses adolescentes à pornografia. Trata-se de um processo de adultização, no qual eles entram em contato com conteúdos de extrema violência sexual e de objetificação da mulher antes de possuírem maturidade emocional para compreender e elaborar o que estão vendo.

Como consequência, forma-se uma geração que tende a reproduzir esse ódio e essa violência na vida real. Observam-se casos de extrema crueldade cometidos por jovens que, muitas vezes, pertencem ao topo da pirâmide social e estudaram nos melhores colégios, mas que apresentam um adoecimento emocional associado ao consumo excessivo de conteúdos tóxicos na internet”.

Esta fala é da juíza Vanessa Cavalieri e foi proferida durante o seu depoimento na CPI do Crime Organizado no Senado Federal, em março de 2026, onde ela alertou sobre a mudança no perfil dos infratores juvenis e a influência das redes sociais e da pornografia nesse processo.

Com duas décadas de experiência na magistratura, sendo dez delas dedicadas à Vara da Infância e Juventude, Vanessa Cavalieri tem sido uma voz ativa na defesa dos direitos de crianças e adolescentes. Sua atuação se estende à coordenação do CEJUSC (Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania) de Justiça Restaurativa, demonstrando um compromisso com abordagens que buscam a ressocialização e a prevenção. A juíza tem se posicionado firmemente sobre temas como a proibição do uso de celulares em escolas e a necessidade de monitoramento parental das redes sociais, enxergando a internet como uma “praça pública escura e cheia de estranhos” .
Em suas falas, Cavalieri destaca que os atos mais violentos, muitas vezes, são cometidos por adolescentes de classes sociais mais elevadas, que estudaram em bons colégios e tiveram acesso a oportunidades. Essa observação desafia estereótipos e aponta para uma crise comportamental que transcende barreiras socioeconômicas, sugerindo que o problema reside na exposição a conteúdos que distorcem valores e relações humanas.
Estudo revela a Misoginia na Geração Z
A declaração da juíza Vanessa Cavalieri é corroborada por uma pesquisa de uma universidade inglesa, especificamente o King’s College London, que aponta que, em 2025, a faixa etária com maior número de homens misóginos e com ódio de mulheres é a adolescência . Este estudo, conduzido pelo Policy Institute do King’s College London em parceria com o Global Institute for Women’s Leadership, revelou que jovens da Geração Z (nascidos entre meados dos anos 1990 e início dos anos 2010) são mais propensos a ter visões negativas sobre o feminismo e a igualdade de gênero do que gerações anteriores, incluindo os Baby Boomers.
A pesquisa indica que 1 em cada 5 homens de 16 a 29 anos que conhecem figuras como Andrew Tate (um influenciador conhecido por suas visões misóginas) têm uma visão favorável dele, um número três vezes maior do que o de mulheres na mesma faixa etária . Esse fenômeno é atribuído, em grande parte, à exposição a conteúdos online que promovem a misoginia e a desvalorização feminina, muitas vezes sob o disfarce de entretenimento ou “liberdade de expressão”.

Pornografia, Adultização e a Construção do Ódio

A juíza Cavalieri enfatiza que a pornografia, acessível cada vez mais cedo, desempenha um papel crucial na formação dessas atitudes. O acesso precoce a conteúdos sexualizados e a uma adultização forçada, onde crianças e adolescentes são expostos a temas e linguagens impróprias para sua idade, distorce a percepção sobre sexualidade, relacionamentos e o papel da mulher na sociedade. A pornografia, em sua maioria, apresenta relações desiguais, objetificação e, por vezes, violência, normalizando comportamentos abusivos e desrespeitosos.
Essa exposição contínua, sem a devida mediação e educação, pode levar à internalização de valores misóginos, onde o ódio e o desprezo pelas mulheres se tornam parte da visão de mundo dos jovens. A facilidade de acesso e a falta de filtros eficazes nas plataformas digitais transformam o ambiente online em um terreno fértil para a disseminação dessas ideologias, potencializando o risco de que adolescentes desenvolvam comportamentos agressivos e violentos na vida real.

Implicações e Caminhos para a Prevenção

As implicações desse cenário são profundas, afetando não apenas o desenvolvimento individual dos adolescentes, mas também a segurança e a coesão social. A juíza Vanessa Cavalieri defende que a sociedade precisa agir de forma mais incisiva, com a colaboração de pais, educadores, legisladores e plataformas digitais.
Entre as soluções propostas, destacam-se:
Educação Digital e Emocional: Ensinar crianças e adolescentes a navegar de forma crítica e segura no ambiente digital, desenvolvendo inteligência emocional para lidar com os desafios e pressões online.
Monitoramento Parental Consciente: Orientar os pais sobre a importância de acompanhar o consumo de conteúdo de seus filhos, estabelecendo limites e promovendo o diálogo aberto sobre sexualidade e relacionamentos.
Regulamentação e Responsabilização: Pressionar por legislações mais eficazes que coíbam a produção e disseminação de conteúdo pornográfico ilegal e misógino, responsabilizando as plataformas digitais.
Justiça Restaurativa: Continuar investindo em programas de justiça restaurativa que busquem a reparação do dano e a ressocialização de jovens infratores, focando na educação e na conscientização.

Conclusão

O alerta da juíza Vanessa Cavalieri, embasado em sua vasta experiência e em estudos recentes, é um chamado à ação. A “geração do ódio” não é um destino inevitável, mas um reflexo de um ambiente digital que precisa ser urgentemente reavaliado e regulado. Proteger crianças e adolescentes da adultização precoce e da exposição a conteúdos que promovem a misoginia é um dever coletivo, essencial para a construção de uma sociedade mais justa, empática e respeitosa.
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As publicações do Portal Raízes são selecionadas com base no conhecimento empírico social e cientifico, e nos traços definidores da cultura e do comportamento psicossocial dos diferentes povos do mundo, especialmente os de língua portuguesa. Nossa missão é, acima de tudo, despertar o interesse e a reflexão sobre a fenomenologia social humana, bem como os seus conflitos interiores e exteriores. A marca Raízes Jornalismo Cultural foi fundada em maio de 2008 pelo jornalista Doracino Naves (17/01/1949 * 27/02/2017) e a romancista Clara Dawn.

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