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A diplomática e agradável farsa de nós mesmos – Breve reflexão de Guilherme Antunes

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Se abrirmos mão das máscaras, a verdade poderá ser revelada. E ninguém faz questão de trazer à tona o inevitável lado sombrio que calamos. Afinal, temos uma reputação a zelar. Queremos acreditar que somos dignos de sermos aceitos e respeitados, de sermos amados. Seja pela conveniência prazerosa do sucesso, pelo temor de sermos rejeitados, para satisfazermos desejos ou porque silenciosamente sabemos que não sabemos nos relacionar com o próximo, não assumimos o inteiro risco da sinceridade.

Por isso criamos ao longo do tempo e com muita dedicação, as mais enfeitadas mentiras que nos representam diante da vida. Mantemos uma falsa ideia sobre nós, vendendo aos outros versão com qualidades exageradas ou com atributos que gostaríamos de ter. Damos ao público a mais bela maçã do amor, ainda que seja de plástico. De real posse das nossas fragilidades, projetamos uma personalidade equilibrada, segura, mais solidária, mais inteligente, sem tempo para preocupações, tristezas ou nossos próprios defeitos.

Talvez possa parecer mais fácil, embora não seja, mantermos essa diplomática e agradável superfície que deixamos livre para visitações e elogios, enquanto reprimimos e calamos nossas verdades à força. É necessário muita energia emocional e mental para consolidarmos uma repetição dos nossos cenários e personagens sem quaisquer deslizes.

Por isso falamos da coragem para nos distrairmos de qualquer maneira dos medos, e fazemos da felicidade uma fachada para encobrir nossa comprimida e empoeirada tristeza, nossas misérias. Numa hora dessas, nas nossas intimidades com o outro, relaxados e desatentos, sem sufocarmos a honestidade das nossas marés, tudo aquilo empurrado para as sombras da nossa consciência, virá nos cobrar o direito de nos pertencer e nos revelar.

 Guilherme Antunes, nasceu em Santos/SP, onde vive e sonha desde então. Amante das palavras, da filosofia e dos temas da alma, namora com as palavras desde que as conheceu. Sommelier de groselha, graduado em Direito, servidor público, poeta e farsante. Autor do livro “A ilha de um homem só” pela Editora Penalux. Prosador de incompletas verdades sobre nós. Ele é aquilo que ninguém vê.

 

TEXTO DEGuilherme Antunes
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