O filme Bicho de Sete Cabeças, (2000) dirigido por Laís Bodanzky e com roteiro de Luiz Bolognesi baseado no livro autobiográfico de Austregésilo Carrano Bueno, Canto dos Malditos. O filme conta a história de Neto (Rodrigo Santoro), um jovem que é internado em um hospital psiquiátrico após seu pai descobrir um cigarro de maconha em seu casaco. Lá, Neto é submetido a situações horripilantes. O filme, além de abordar a questão dos abusos feitos pelos hospitais psiquiátricos, reflete sobre a drogadição na adolescência, a corrupção do sistema manicomial e a forma como as famílias lidam com os problemas psicossociais dos jovens.
Foram quase quatro anos entre a “descoberta” do livro e a finalização do filme, na Itália. No processo de pesquisa foi constatado um número significativo de mulheres internadas após traírem seus maridos e um alto percentual (12%) de “loucos” confinados pelo alcoolismo. É exatamente contra isso que o escritor Austregésilo luta até hoje: internações desnecessárias e tratamentos a base de drogas e eletrochoques. Isso sim deixa qualquer um insano.
De acordo com Pablo Villaça, crítico cinematográfico brasileiro, “além de ser um drama eficiente, Bicho de Sete Cabeças é um retrato assustador do sistema manicomial brasileiro. Imagine um cruzamento entre a frieza dos funcionários do hospital de Um Estranho no Ninho e a brutalidade e a pobreza da prisão turca retratada em O Expresso da Meia-Noite e terá uma vaga ideia do tipo de `tratamento` que estas instituições nacionais oferecem aos seus internos.
Poucas pessoas sabem disso, mas o sistema manicomial brasileiro tornou-se, nas últimas décadas, uma espécie de indústria incrivelmente lucrativa: além das milionárias (e mal empregadas) verbas injetadas pelo governo (algo que é ilustrado no filme), ainda há um assustador `mercado` de cadáveres, já que várias faculdades de medicina utilizam os corpos de ex-pacientes psiquiátricos como espécimes de estudo de anatomia. Ao retratar um mundo em que `cura` é um conceito tragicamente abstrato, Bicho de Sete Cabeças emociona profundamente.
A grande força do filme reside, sem a menor sombra de dúvida, na poderosa performance de Rodrigo Santoro, que retrata com eficiência o arco dramático percorrido por seu personagem: de adolescente inconseqüente e alienado a um adulto amargurado e marcado por experiências traumáticas. Suas reações sempre soam absolutamente naturais, como no momento em que descobre estar sendo internado pelo pai e, inocente, pergunta: `É o exército?`; ou como na cena em que arrebenta um espelho ao perceber que sua passagem pelo manicômio lhe deixou marcas mais profundas do que imaginava”.
Sem dúvida alguma, vale muito a pena assistir. Veja:
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