Unsplash
Unsplash

Hoje ela é feliz e ele continua sendo um idiota

Coração de Elástico

Ele parecia o mesmo. O cabelo repartido era o mesmo, a cicatriz no queixo era a mesma, seu drink de sempre, o mesmo. Nada a respeito da sua aparência física estava diferente, e ela imaginou que nada sobre sua mente estaria diferente também. Ela assumiu que ele continuava o mesmo egoísta ingrato que ele era quando estavam juntos.

Ela assumiu que ele não tinha aprendido nada com o relacionamento, que ele ainda pensava que ela deveria ser grata por ele a ter deixado, que ele estava fazendo um favor para ela e era para o bem dela. Hoje ela percebe que enquanto no momento do término ela achou que o mundo ia acabar, na verdade ele ter partido foi a melhor coisa que aconteceu com ela.

Quando ela estava com ele, a conveniência da companhia compensou os sinais vermelhos. Ela não enxergava que ele amava mais a si mesmo do que a ela, e que as ações dele não combinavam com as suas palavras. Naquela época, palavras bastavam. Ela só precisava ouvir o quanto era importante para ele, e não se importava se ele demonstrava isso ou não, porque estar com alguém que proclamava amor sem demonstrar era melhor do que estar sem ninguém.

Agora ela está diferente. Agora ela está feliz consigo mesma, e pensa na conveniência da companhia de alguém com quem ela realmente queira dividir a vida. Ela percebeu que companheirismo não é algo que você deveria implorar por medo de estar sozinha, mas sim algo que depende de quem você chama de companheiro.

E a felicidade dela a guiou a parar de tentar, e não de uma forma ‘eu desisto do amor’, mas sim de uma forma em que ela quisesse viver a vida procurando por ela mesma, e talvez alguém aparecesse no caminho para ajudar nessa procura. E esse alguém apareceu.

Não foi amor à primeira vista. Ela não sentiu mágica no ar a primeira vez que apertou a mão dele. Foi uma noite de verão de beijos meio alcoólicos em uma piscina congelante, com um balançar inocente em uma rede. Ela amou sentir o toque dele em sua pele e a forma como ele colocou o seu cabelo atrás da orelha. Ela amou aquela noite juntos, mas nunca imaginou que viraria algo mais intenso. Nunca imaginou que esse cara seria o primeiro a dizer ‘eu te amo’ e o primeiro a ouvir o mesmo dela.

Ela estava feliz agora, feliz com ela mesma, e com as pessoas que ela escolheu incluir em sua vida. Ela estava apaixonada. Apaixonada por esse homem que mostrou amor, e não apenas disse. E quando ela sentiu amor por ele, ela percebeu que esse cara sentado do outro lado do bar, que um dia fez parte da vida dela, na verdade nunca importou. E quando ela desejou nunca ter o conhecido, ela percebeu que, na verdade, ele a levou para o seu atual estado de felicidade.

Quando ele a deixou, ela repetiu na mente todo o discurso que diria para ele caso o encontrasse. Palavras furiosas, de tristeza, de dor, palavras que ela nem sabia ter dentro de si, mas que faziam bem de serem colocadas para fora. Só que ela não o encontrou. Ela não teve a oportunidade de extravasar suas emoções, dar um tapa nele e observar sua reação. Ela nunca ligou, nunca mandou mensagem e realmente deixou ir. Porém esperando pelo dia que iria falar na cara dele o que estava engasgado e conseguir fechamento. Esse dia nunca tinha chegado. Até agora.

Ela sentiu que o universo estava tentando dizer algo a ela, em um diagrama metafórico. Para pensar na forma terrível que o seu ex a tratava e como isso era errado comparado ao cara que agora a trata tão bem. E ela querendo brigar com ele, com esse fantasma do passado, e gritar tudo que ela sentia por dentro, mas não intencionando magoar o homem que ficou ao seu lado. Ela não queria que ele pensasse que ela tinha assuntos mal resolvidos. Mas ela sabia que ele era confiante no amor dela, e ela era confiante no dele. Então foi em frente.

Ela se aproximou do ex que estava no bar esperando outro uísque. A caminhada parecia infinitamente mais longa do que realmente era, e quando ela finalmente parou atrás dele, virou o que restava da sua tequila – coragem líquida. Ela bateu no ombro dele esperando que ele se virasse com ‘choque’ escrito na testa. Quando ele olhou para ela, ela sentiu uma pontada de arrependimento. Arrependimento por ter ido até ele, por ter o conhecido, por ter se relacionado com ele, por dividir uma parte da vida com ele, e antes mesmo de conseguir dizer oi, ela disse exatamente o que queria dizer.

Não soou ensaiado, nem planejado, porque tudo que ela disse saiu de forma diferente do que ela pensou. Saiu com confiança, com certeza de que ela estava finalmente no lugar ao qual ela pertencia, que a vida dela tinha propósito.

Ela não abriu suas emoções porque não tinha o superado ainda, mas sim porque ela precisava libertar uma parte de si da qual ela não gostava. Isso foi por ela, e não por ele. Era sobre ela, e não sobre ele.

Após terminar seu pequeno discurso impecavelmente, ela não esperou pela resposta. Colocou seu copo vazio ao lado dele no bar, pegou o uísque dele, virou as costas e saiu. Saiu ao encontro do cara que atualmente a amava. O cara que mostrou para ela o que amor de verdade significa. E quando ela chegou para ele, ele perguntou como ela se sentia. E ela disse que estava feliz.

Imaginando tudo isso, imaginando tudo que ela sempre sonhou em dizer, pegar o uísque, sair sem esperar resposta, fez ela perceber que ela nunca precisou dizer absolutamente nada. Ela não precisava dar ao ex a satisfação de imaginar que ela ainda se importava. Ela sabia que ele continuava sendo a mesma pessoa que a deixou, o mesmo egoísta idiota que a machucou e não importaria quais emoções, palavras ou pensamentos que ela jogasse nele: isso só daria a ela alívio temporário.

Ela viu o ex dela do outro lado do bar, e então olhou para o cara cheio de amor que estava ao seu lado, pegou a sua mão e disse: ‘vamos sair daqui’. Ela passou pelo ex e não disse uma palavra, nem bateu no ombro dele, nem olhou nos olhos dele. Apenas saiu. E ela saiu da vida dele da forma que ele saiu da dela; e ela estava feliz.

Texto de Thought Catalog, traduzido e adaptado por Coração de Elástico

COMPARTILHAR

RECOMENDAMOS



COMENTÁRIOS