“A homossexualidade não é doença, não é pecado, não é uma escolha, é um mecanismo genético” – Rubem Alves

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Você me fala sobre o seu sofrimento por ser homossexual. Não é o fato de você ser homossexual que o faz sofrer. É o olhar dos outros, especialmente o olhar dos pais, que ainda nada sabem.  Quero lhe dizer que tenho excelentes amigos, pelos quais nutro o maior respeito, que são homossexuais. São pessoas íntegras, criativas, inteligentes e generosas. Há homossexuais que são lixo? Há, da mesma forma como há heterossexuais que são lixo, sem princípios éticos, de inteligência curta e mesquinhos. Tchaikovski, Oscar Wilde, Margueritte Yourcenar (que escreveu o fantástico livro Memórias de Adriano, o imperador romano homossexual) eram homossexuais.

O que é a homossexualidade?

Uma das explicações que mais me convencem é a explicação genética, que é mais ou menos assim: no processo de definição de sexualidade de um embrião há um série de *relês (veja explicação no rodapé) que são disparados, um depois do outro: primeiro, o relê que define os caracteres sexuais primários; depois, os caracteres sexuais secundários; no fim, é disparado o relê que definirá a “imagem” que vai mexer com o meu corpo. (…) Segundo essa teoria, o que acontece nesse processo de disparo de relê é o seguinte: para alguns, o último relê é disparado é o que define a imagem do sexo oposto. O homem será mexido pela imagem de uma mulher. A mulher será mexida pela imagem do um homem. Mas há casos em que esse relê não é disparado, e o corpo fica então com sua própria imagem: o homem se comoverá afetivamente contemplando a imagem de outro homem, e a mulher se comoverá efetivamente contemplando a imagem de outra mulher.

Sendo resultado de uma definição genética, a homossexualidade, sob esse ângulo, é como o daltonismo ou como o fato de uma pessoa ser canhota. Não é resultado de uma opção pessoal. Sendo resultado de um mecanismo genético natural, a homossexualidade não pode ser tida como pecado. Pecado é só aquilo que resultado de decisão pessoal. Mas a homossexualidade não é resultado de uma decisão pessoal. Não se trata, portanto de uma “doença” que possa ser curada, da mesma forma como o daltonismo não pode ser curado. A única coisa que pode ser feita é aprender a conviver bem com essa condição. O grande problema dos homossexuais se encontra fora deles: está nos olhos maus e zombeteiros dos outros. E os olhos que mais fazem sofrer são os olhos dos pais. Frequentemente a fúria contra os homossexuais é uma defesa contra o fato de que a pessoa é, no fundo, homossexual. O filme Beleza Americana apresenta o caso patético do coronel dos marines que escondia sob sua macheza um homossexual reprimido. Alguns optam por viver na clandestinidade. Mas a clandestinidade implica a condenação ao medo permanente de ser descoberto. É preciso muita coragem para assumir a identidade sexual de homossexual.

(“Sobre a Homossexualidade”, texto de Rubem Alves, Extraído do livro “A grande arte de ser Feliz”, Planeta, 2015, São Paulo)

*Relé – Neste texto é usado no sentido figurado. Um relé (do francês relais), ou, menos frequentemente, relê, é um interruptor eletromecânico. A movimentação física deste interruptor ocorre quando a corrente elétrica percorre as espiras da bobina do relé, criando assim um campo magnético que por sua vez atrai a alavanca responsável pela mudança do estado dos contatos.

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