Jovem, não morra na Golden Gate: Projeto de Prevenção ao Suicídio na Infância e na Adolescência

Clara Dawn

Acompanhamos a saga de um jovem de 20 anos que sequestrou um ônibus repleto de pessoas, na ponte Rio-Niterói, depois de 4 horas de negociação, ele foi morto pela polícia.

Não podemos perder a oportunidade de refletirmos sobre a saúde mental de nossas crianças e adolescentes. Dos 19 aos 27 anos, o cérebro vivencia uma terrível fase de poda neural, gerando assim conflitos existenciais medonhos. É como ligar um aparelho de 110 numa tomada de 220. O aparelho não tem capacidade para suportar tamanha carga e entra em colapso.

Chamo a fase dos 13 aos 27 anos como a Golden Gate da existência. A ponte Golden Gate, uma das 7 maravilhas do mundo moderno, é o lugar onde cerca de 40 pessoas por ano escolhem para o autoextermínio.

Com esta triste metáfora da vida real, quero dizer, por meio de pesquisas de campo, e cientifica, que a adolescência não é o período da “aborrescência”, mas sim da “adoescência”. Como escreveu o poeta/músico: “há tempos são os jovens que adoecem”.

Com base nesses estudos, faz-se necessária urgência falarmos claramente de saúde mental na infância e adolescência, numa perspectiva preventiva ao suicídio.

O suicídio é a terceira causa de morte entre jovens de 15 a 27 anos. Já é considerada uma epidemia. O jovem sequestrador de ônibus na Ponte Rio-Niterói, levava um livro de Bukowski que traz uma reflexão sobre o sofrimento psíquico:

‘Nunca dirijo meu carro por cima de uma ponte sem pensar em suicídio. Quero dizer, não fico pensando nisso. Mas passa pela minha cabeça: suicídio’, diz trecho de ‘O capitão’. Minha missão é esta: ajudar os jovens a atravessarem a ponte Golden Gate de suas vidas, sem desejar a morte.

Das estatísticas (atualizadas em 2019)

Enquanto os índices de suicídio caem em todo o mundo, a taxa entre adolescentes que vivem nas grandes cidades brasileiras aumentou 24% entre 2006 e 2015, informa pesquisa da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). O estudo, publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria, indica que o suicídio é até três vezes maior entre jovens do sexo masculino.

Os sete pesquisadores da Unifesp utilizaram dados do SUS (Sistema Único de Saúde), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e do Coeficiente Gini (que mede desigualdade) para chegar às conclusões. Eles apontam a popularização da internet, as mudanças sociais no país e a falta de políticas públicas de combate ao suicídio como as principais razões para esse aumento.

De acordo com o estudo, a taxa entre jovens entre 10 e 19 anos aumentou 24% nas seis maiores cidades brasileiras: Porto Alegre, Recife, Salvador, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, enquanto cresceu 13% no interior do país. O aumento contrasta com a evolução dos índices de suicídios no resto do mundo, que caíram 17% no mesmo período.

“Estamos na contramão”, avalia Elson Asevedo, um dos autores do estudo e psiquiatra da EPM (Escola Paulista de Medicina) da Unifesp. “Em 2013, a OMS (Organização Mundial de Saúde) definiu como imperativo global que seus signatários reduzissem essas taxas em até 10% até 2020”.

Por que falar abertamente sobre o assunto é a melhor opção?

Em fevereiro, o projeto Global Burden of Disease informou que o índice de suicídio caiu de 16,6 para 12 mortes por 100 mil pessoas no mundo nas últimas três décadas, uma redução de 32,7%.

No Brasil, a cidade com maior taxa de suicídio é Belo Horizonte: 3,13 para cada 100 mil habitantes em 2015. É seguido por Porto Alegre (2,93), São Paulo (2,44), Rio de Janeiro (1,52), Recife (1,23) e Salvador (0,23). Na média, o aumento do índice foi de 24%, ao subir de 1,60 para 1,99 entre 2006 e 2015. Ao todo, 20.445 adolescentes tiraram a própria vida naquele ano.

As meninas tentam mais, mas os meninos morrem mais

A pesquisa indica que a chance de um adolescente do sexo masculino tirar a própria vida é até três vezes maior do que uma adolescente mulher. “Até 13 anos de idade, as taxas são iguais. A partir daí, começa a diferenciação”, diz Asevedo. “As garotas tentam se matar mais, mas as tentativas dos meninos são mais letais.” Eles se matam mais por enforcamento e armas de fogo, enquanto elas utilizam pesticidas e drogas ou se jogam de lugares altos.

Para outro autor do estudo, o professor de psiquiatria da EPM Jair de Jesus Mari, “os meninos têm menos habilidade em lidar com o sofrimento emocional causado pela depressão”. “Eles tendem a ser mais impulsivos, apresentam mais agressividade, estão mais expostos ao uso de álcool e drogas e buscam métodos mais letais.” Além disso, diz Asevedo, as meninas procuram ajuda mais cedo e com mais frequência.

A internet mata?

Um dos novos riscos para o suicídio adolescente é o uso da internet. Mari afirma que “Facebook, WhatsApp e Instagram aumentam a exposição ao ciberbullying assim como o compartilhamento de comportamentos disfuncionais, como divulgação de métodos de suicídio e minimização dos perigos da anorexia”.

Asevedo lembra casos como o jogo da baleia azul, uma fake news que fez sucesso em 2017 ao estimular comportamentos como automutilação e suicídio. “Quando fomos analisar as buscas no Google, notamos aumento nas pesquisas sobre como se matar. O efeito é muito maior que as campanhas de internet para prevenção ao suicídio”.

Mudanças sociais O estudo também relaciona as mudanças sociais no Brasil entre 2006 e 2015 e o aumento nos suicídios. A pesquisa afirma que, “apesar do aumento do PIB (Produto Interno Bruto) e da redução da desigualdade, a taxa de suicídio entre adolescentes cresceu. Embora esse achado tenha sido surpreendente, estudos anteriores demonstraram que os países com maior PIB tendem a apresentar maiores taxas de transtornos mentais, como a depressão, que está associada ao suicídio subsequente”.

“Por exemplo”, continuam os autores, “entre os adolescentes do sexo masculino, as melhores condições econômicas podem facilitar o acesso a drogas e álcool, ambos reconhecidos como fatores de risco para o suicídio”. Além disso, a “menor religiosidade, mudanças na estrutura familiar, maior acesso à internet, isolamento e influência comportamental da mídia social” podem contribuir. A homogeneização dos povos provocada pelo enriquecimento de países pobres também pode aumentar esses indicadores. “Isso acontece em países como Brasil e México e nações da África. É como as altíssimas taxas de suicídio em tribos indígenas que, engolfadas por uma comunidade branca, perdem seus valores e tradições cultural”, diz.

Estigma atrapalha prevenção e ações do governo Para os autores, o Estado também é responsável pelo aumento dos suicídios no Brasil em um tempo em que as taxas caem ao redor no mundo. “A ciência sabe como reduzir as taxas. A questão é implementar”, acredita Asevedo.

No Brasil isso não foi identificado como prioridade porque ainda há muito estigma quanto à saúde mental. ‘Ah, depressão é fraqueza, falta de caráter, de fé. Vai trabalhar’, é o que dizem. Esse estigma não permite que as ações de prevenção sejam amplamente realizadas pelos gestores, o que dificulta a alocação de recursos Elson Asevedo, psiquiatra da Escola Paulista de Medicina da Unifesp.

Para o pesquisador, o estudo acende um alerta: “Nossa pesquisa analisou o suicídio apenas dos adolescentes, mas a tendência é que os índices estejam crescendo nas faixas etárias seguintes porque os suicídios vão aumentando com a idade. Os idosos são os que mais se matam. Solidão e pobreza vitimam principalmente os homens viúvos e desempregados”, conclui. (Fontes: Unifesp; Uol; OMS – Agência Brasil)

Proposta de prevenção ao suicídio é aprovada no Senado

Conheça o projeto “Jovem, não morra na Golden Gate!” – de Clara Dawn – escritora, autora de 7 livros publicados, dentre romances, crônicas, ensaios e literatura para crianças; é fundadora e editora chefe do Portal Raízes, atualmente com mais de 1 milhão de seguidores no Facebook; é psicanalista com especialização em prevenção ao suicídio; é psicopedagoga especialista em drogadição na adolescência. Desde de 2014 trabalha no projeto: Jovem, não morra na Golden Gate, que é um ensaio de pesquisa científica e de campo sobre a mente na pré-adolescência e adolescência numa perspectiva preventiva aos transtornos mentais e ao suicídio. Atua em escolas de ensino médio, faculdades e clínicas de reabilitação. É importante reunir o maior número de jovens e pais. O trabalho é voluntário. Só é cobrado o deslocamento e a hospedagem. Contato: escritoraclaradawn@gmail.com ou no Messenger do Facebook

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Clara Dawn
Clara Dawn é romancista, psicoterapeuta; palestrante com o tema: "Prevenção aos transtornos mentais e ao suicídio na adolescência". É editora chefe no Portal Raízes (portalraizes.com), colunista aos sábados no Jornal Diário da Manhã em Goiânia, Goiás, desde 2009. É autora de 7 livros publicados, dentre eles, o romance "O Cortador de Hóstias", obra que tem como tema principal a pedofilia. Clara Dawn inclina sua narrativa à temas de relevância social. O racismo, a discriminação, a pedofilia, os conflitos existenciais e os emocionais estão sempre enlaçados em sua peculiar verve poética. Você encontra textos de Clara Dawn em claradawn.com; portalraizes.com, jornal Diário da Manhã/Goiânia ou pesquisando no Google. Seus livros não são vendidos em livrarias. Pedidos pelo email: escritoraclaradawn@gmail.com