Não procurem minhas lágrimas em Paris

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NÃO PROCUREM MINHAS LÁGRIMAS EM PARIS

Nesta noite treze, de treda enunciação de treva,
não quero estar em mim, contando penas
e ensanguentados paralelepípedos de Paris.
Poeta de vulcânicas palavras e flébeis mãos despetaladas,
aflijo-me à varanda, desabitado de todo o sonho
que coloniza a minha estrada.

Em Paris choram Rousseau, Mirabeau, Verlaine, Rimbaud.
Chora Jeanne Darc, choram os perdidos seios de Brigitte,
e coloniais heróis em panteões e arcos de triunfo.
Nesta noite treze, de treda lua, posso emprestar meu ombro
para recepção das lágrimas,
que em mim há muitos mortos, e todos lamentosos.
Há em mim um cemitério galopante
onde irmãos sem nome fatigam sem descanso
e sísmica agonia.

Não posso nesta noite treda de desavisada madrugada,
Recolher-me ao território de meu lirismo ímpio.
Não posso acotovelar-me, ou ajoelha-me nos pedregulhos da infância.
Não invoco a mão materna, nem o paterno cuidado evanescido.
Que é tanta a dor no mundo, e consentida.

Há dor pelas ruas de París, a cortesã de todas as adolescências.
Há clamor nas praças, nas esquinas, nos cafés poeticamente desertos.
Há uma dor que escorre pelo Sena, pela canção vagabunda,
pelos hieráticos museus.
E esta dor se amarra às pedras irmãs do mundo.

Chora e chora Palestina. Choram tendas e alfombras do deserto.
Chora o Rio Tibre, chora o Nilo, e nele chora a dolorosa água do mundo.

Em Paris, em noite treze e treda, não vejo o chão
forrado de carne gaulesa destroçada;
nem persa, nem árabe, nem semita, nem áfrica,
ou fel ameríndio desterrado.
Em Paris, irmãos meus rasgados e odiados
vamos todos escorrendo pelas pedras.
E em algum lugar do vasto mundo, ocos, fátuos, nulos
de nossa morta utopia decapitados,
vamos armando novos bombardeios e novas bombas.
Vamos afiando, nos berços arenosos, punhais e cimitarras degolantes.

Nesta noite treda, de antiga e treda treva,
renuncio ao sol, à alvorada.
Curvo-me até o chão, benzo-me três vezes,
como me ensinava minha mãe.
Pranteio cinco vezes na direção sagrada.
Não choro por ti Paris incendiada,
Não choro por ti meio oriente ensanguentado.
Choro pelos filhos não nascidos,
Choro pelas noivas, pelas mães, pelos úteros e seios
sonegados à vida, sonegados à paz.

Não procurem minhas lágrimas em Paris
na noite treda, de treva e sangue.
Esta noite fui expulso de mim.
Minha alma, no relento, nesta noite treda,
está chorando o mundo.

Poema de Aidenor Aires
Goiânia, 14 de novembro de 2015.

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