Ninguém é capaz de perdoar tudo por amor

Amar é fácil, difícil é manter o amor vivo, porque o tempo desgasta, cansa, traz decepção, lamentos e dúvidas. Todo mundo se mostra de verdade enquanto os dias passam, pois é impossível conhecer alguém de imediato, visto que demoramos para mostrar tudo o que realmente somos.

O cotidiano torna tudo menos cor-de-rosa e acaba por retirar toda e qualquer máscara que se tenha sustentado de início. Mentiras caem por terra, segredos são revelados, histórias passadas retornam do nada. É no arroz com feijão que a verdade aparece, é na convivência diária que a gente se mostra, para além das poses e encenações utilizadas enquanto se conquista o outro.

Por essas razões, um dos maiores erros de qualquer parceiro vem a ser o pensamento de que possui crédito o bastante para errar com o outro, na certeza de que suas falhas sempre serão mais fracas do que o amor que une o casal. Munidos dessa certeza, muitos acabam errando de novo e de novo, sem pesar o quanto machucam o parceiro, sem se colocar no lugar de quem está ali ao lado se decepcionando cada vez mais.

Pois é exatamente essa convicção de que será perdoada que impede a pessoa de rever os seus próprios atos, adequando-se às exigências mínimas que uma vida a dois requer. Enquanto isso, uma das partes se exaspera e morre um pouquinho por dentro, a cada dia, a cada dor, a cada decepção, a cada vacilo daquele que ama. E, assim, o amor acaba por arrefecer, por diminuir lenta e dolorosamente, porque não há sentimento amoroso que consiga atravessar caminhos espinhosos sem mudar, sem se tornar menos, nulo, nada enfim.

O amor verdadeiro é forte, resistente, compreensivo, mas não é condescendente. O amor tem a medida exata da dignidade que nos sobra ao final do dia, ao final da jornada, tendo sua duração estendida ou diminuta, conforme o tanto que se rega. Por mais que haja paixão, não existe amor que sobreviva após machucar-se reiteradamente. Simplesmente porque não existe quem perdoe tudo por amor.

Texto de Prof. Marcel Camargo

Portal Raízes

As publicações do Portal Raízes são selecionadas com base no conhecimento empírico social e cientifico, e nos traços definidores da cultura e do comportamento psicossocial dos diferentes povos do mundo, especialmente os de língua portuguesa. Nossa missão é, acima de tudo, despertar o interesse e a reflexão sobre a fenomenologia social humana, bem como os seus conflitos interiores e exteriores. A marca Raízes Jornalismo Cultural foi fundada em maio de 2008 pelo jornalista Doracino Naves (17/01/1949 * 27/02/2017) e a romancista Clara Dawn.

Recent Posts

A sua saúde mental é o seu projeto de vida mais urgente e qualquer laço que a ameace deve ser reavaliado

A vida é uma busca constante por felicidade e paz. E, no meio dessa jornada,…

1 dia ago

A Síndrome da “Criança Eterna”: o refúgio de quem rejeita o tédio construtivo da vida adulta

Vivemos na era da informação e das infinitas possibilidades. Nunca antes a humanidade teve tanto…

2 dias ago

Educar é, ao mesmo tempo, ensinar a lidar com frustrações e limites, sem jamais apagar o desejo de crescer

Educar filhos é, ao mesmo tempo, moldar pelo exemplo, ensinar a conviver com frustrações e…

3 dias ago

Medicalização da infância: as drogas legais que ameaçam crianças saudáveis

A medicalização da infância se tornou um dos temas mais inquietantes da contemporaneidade. Em um…

4 dias ago

Refeições em Família: O “remédio milagroso” que fortalece os vínculos afetivos e dá sentindo à vida

Vivemos em um tempo de convivência rarefeita. As casas continuam habitadas, mas os encontros diminuíram.…

2 semanas ago

BBB 26: O caso Pedro Henrique e O Crime de Importunação Sexual

Nesta primeira semana do Big Brother Brasil 26, um episódio ultrapassou a lógica do conflito…

2 semanas ago