NINHO VAZIO – Por Fabrício Carpinejar

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Por Fabrício Carpinejar

Em livro que será publicado neste ano pela AGE, “O que resta está por vir”, minha mãe Maria Carpi fala do ninho vazio, que “a mais difícil das solteirices é voltar a ser solteira de filhos”. A separação que mais dói não é a do casamento, mas a dos filhos. Porque é uma separação feita dentro do amor, com beijos, abraços e a promessa de seguir se vendo.

Não é uma ruptura ruidosa, com gritos, litígio e ódio. Trata-se mais de uma passagem silenciosa, uma ponte de lágrimas engolidas, onde deve-se abrir a porta não podendo mais proteger como antes.

Talvez seja a mais dolorida coragem do nosso aprendizado de cuidador, deixar quem mais ama ir embora, deixar viajar para longe, deixar trabalhar e não ter mais tempo livre, deixar encontrar alguém e fazer uma nova família; deixar-se, enfim, ao acaso.

A casa será um cemitério da alegria, terá quartos vagos, a sala permanecerá vazia, os telefonemas vão rarear, sobra a impressão de promessa cumprida, do vazio e do deserto das obrigações e do reconhecimento.

A aposentadoria dos filhos é a mais penosa de se cumprir. O casal dependerá da valentia para mudar os assuntos, ocupar a agenda, renascer em seus passatempos, voltar-se para o interior da paixão um pelo outro. Para não morrer de desgosto se achando agora desnecessário.

Ao se despedirem, os filhos devolvem aos pais a liberdade das dúvidas, é um alerta para que não esqueçam de suas próprias realizações, algo como um duro conselho com tapinha nas costas: “viva os sonhos de vocês, não somente os nossos”.

E cabe compreender, apesar do irremediável desapego, que o mal é um bem. Mesmo quando o ninho fica vazio, com as crias crescidas e distantes, a árvore não para de florescer e dar frutos.

Texto de Fabrício Carpinejar

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