Nota de apoio às mulheres que denunciaram violência sexual causada pelo médium João de Deus

Portal Raízes

O Portal Raízes, por meio deste, manifesta solidariedade à todas as mulheres que denunciaram a violência sexual sofrida pelo médium João de Deus, em centro religioso, na cidade de Abadiânia, no Estado de Goiás.

No último mês, 330 mulheres – motivadas pela coragem de uma delas – denunciaram que sofreram abuso sexual do médium João de Deus. As denúncias ganharam as mídias e redes sociais, suscitando um grande debate a respeito do tema. Violências que são cotidianas na vida de muitas mulheres brasileiras anônimas, tornaram-se manchete devido à particularidade de terem ocorrido em ambiente de cunho religioso, somado a isso, tais violências ocorreram em momento de fragilidade pessoal das mulheres.

Ressaltamos que o compromisso do nosso portal é de rechaçar quaisquer tipo de opressão contra às minorias e solidariedade à todas as pessoas em situação de violência, bem como garante os direitos humanos. Destacamos, desta forma, a importância de escutar os depoimentos com empatia, ou seja, nos colocando no lugar da vítima, pois nesse momento em que as mulheres encontraram a possibilidade de denunciar a violência sexual sofrida, faz-se importante o apoio coletivo da sociedade.

9 entre 10 relatos de estupro são verdadeiros, diz pesquisa

Uma pesquisa norte-americana que analisou dez anos de dados concluiu que 9 entre 10 relatos de estupro são verdadeiros. Aqui, não há nenhum estudo similar ao conduzido pelo especialista David Lisak nos Estados Unidos – mas a semelhança das dificuldades das sobreviventes para acessar a Justiça nos dois países permite uma aproximação. Lá, segundo Lisak, estima-se que no máximo 36% dos estupros são denunciados. Os percentuais são semelhantes no Brasil. Aqui, a notificação é de 35%, segundo estimativa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O que força o silêncio das vítimas é, em grande parte, a certeza de que serão apontadas como mentirosas ou coniventes, até que se prove o contrário – ou, às vezes, mesmo depois disso.

São raros os casos de homens falsamente acusados por estupro – e, mais ainda, os injustamente sentenciados. Do total de denúncias do crime, só 3% terminam em condenação, segundo levantamento da revista Isto É. O rotineiro é que as reações naturais ao abuso justifiquem a falta de investigações, a recusa em instaurar ação penal e a absolvição de estupradores. O banal é que as poucas mulheres que recorrem à justiça vejam seus agressores saírem impunes. Mas, ávidos por qualquer chance de reafirmar suas crenças infundadas, os comentaristas seguem tratando como regra aquilo que é exceção.

A culpa é da vítima

Em uma sociedade guiada por certezas tão inabaláveis, quanto irreais, sobre o crime de estupro, o comportamento típico de uma pessoa traumatizada é justamente o que faz a vítima ser recebida com desconfiança.

Um em cada três brasileiros acredita que, nos casos de estupro, a culpa é da mulher, de acordo com pesquisa Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Segundo o levantamento, 33,3% da população brasileira acredita que a vítima é culpada.

Entre os homens, o pensamento ainda é mais comum: 42% deles dizem que mulheres que se dão ao respeito não são estupradas.

Vitimas de violência sexual ficam petrificadas durante o ato

No livro-reportagem Missoula: o estupro e o sistema judicial em uma cidade universitária, o jornalista Jon Krakauer narra o caso de uma mulher estuprada por uma visita que invadiu seu quarto e a violentou na mesma cama em que seu marido dormia. Bastava um grito para o companheiro acordar e ajudá-la, mas ela não deu um pio.

Os comentaristas não hesitariam em apontar sua inação como sinal de consentimento. Alheios aos estudos sobre trauma, não sabem que a inação, mais do que normal, é uma estratégia de sobrevivência comum em casos de estupro. Tomadas pelo medo da morte, as vítimas podem, conscientemente ou não, “congelar” para evitar uma violência ainda pior, segundo a psiquiatra Judith Lewis.

As pessoas pensam que toda mulher estuprada grita, esperneia, pede socorro… quando na verdade, a maioria tende a ser imobilizada pelo choque inigualável de ter seus corpos brutalmente invadidos. Esperam que, depois do abuso, as vítimas corram de seu agressor; mas, quando ele é um conhecido – como em 70% dos casos no Brasil, segundo o Ipea –, tendem a interagir normalmente com ele. É um mecanismo de defesa: inconscientemente, fingem que nada aconteceu, porque assimilar que alguém em quem confiavam as atacou dessa forma as deixaria sem chão.

Histórias de denúncias são importantes para encorajar outras mulheres

O ato de denunciar situações de violência envolve um processo de muito sofrimento, onde mulheres ensaiam repetidamente como revelar e ao mesmo tempo evitam a revelação pelo medo de não serem compreendidas, julgadas e responsabilizadas pela violência em que, na verdade, foram as vítimas. Em especial, no caso João de Deus, há fatores que aumentam a vulnerabilidade por se tratar de mulheres que buscaram ajuda espiritual, em momento de dor, angústia e desespero, e ali depositavam esperança de cura.

Além de mulheres de diversos Estados do Brasil, a força-tarefa recebeu relatos provenientes de Estados Unidos, Alemanha, Bélgica, Suíça e Bolívia contra o médium. Até a sua filha Dalva Teixeira o denunciou, dizendo que ele abusava sexualmente dela desde os 11 anos de idade.

Leia o artigo completo:Caso João de Deus, o maior escândalo sexual do Brasil

Advogada denunciara o médium João de Deus à Justiça há dez anos, mas ele foi inocentado. Confira a entrevista que ele concedeu ao Fantástico no dia 16/12/2018

(Com as contribuições de The Intecept Brasil)

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