O terrível fardo emocional das filhas invejadas pela própria mãe

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Mães normais e saudáveis são orgulhosas das suas filhas e querem que elas sucedam e brilhem. Mas uma mãe narcisista percebe a filha como uma ameaça. Se a atenção se desvia da mãe, a criança sofre retaliação, humilhações e castigos.

Mães e filhas: vinculo que cura, vínculo que fere

Uma mãe narcisista pode ter ciúmes de sua filha por muitas razões: a sua aparência, a sua juventude, bens materiais, realizações, educação e até o seu relacionamento com o pai. Este ciúme é particularmente difícil para a filha porque carrega uma dupla-mensagem: “fica bem para que a mãe fique orgulhosa, mas não demasiado para não lhe ofuscar a imagem dela”.

Enquanto muitas pessoas acreditam que ser invejada é uma experiência desejável e de poder, na realidade ser invejada particularmente pela própria mãe, é horrível. A autoestima da filha é esmaecida com desdém e críticas oriundas de sua mãe. A sua bondade é questionada ou rotulada, suas fraquezas são caçoadas e o seus acertos são postos numa balança que jamais se pende ao positivo. Como não faz sentido para ninguém que uma mãe tenha estes maus sentimentos para com a sua filha, assume-se então que a filha sofre de algum tipo anomalia emocional fluída da sua visão de si mesma e/ou do mundo.

Quando crescem, as filhas de mães narcisistas normalmente acham difícil conceber a inveja que suas próprias mães têm de si e com isso se anulam. As que diagnosticam a inveja materna podem vir a odiar a mãe e adotarem uma postura bastante conflituosa e retaliativa entre ambas. Mas enquanto criança, as meninas invejadas e oprimidas pela mãe, não enxergam a sua própria bondade suficiente para reconhecer a inveja materna tal como é. Em vez disso, elas acreditam, mais uma vez, terem feito algo de errado. Se as filhas interiorizarem o sentimento de “não serem boas o suficiente”, elas não vêem a possibilidade de alguém ter inveja delas, porque não se consideram pessoas dignas de serem copiadas.  Uma criança assim, certamente será um adulto inseguro, infeliz e incapaz de construir relações duradouras e/ou projetos ambiciosos e valentes.

No entanto, o que está acontecendo com a mãe? A inveja permite à mãe insegura sentir-se melhor temporariamente sobre si mesma. Quando ela tem inveja, ela critica e desvaloriza a filha diminuindo assim a ameaça à sua própria autoestima frágil. Inveja é uma ferramenta poderosa no repertório da narcisista, e pode verifica-lo em interações da mãe com outras pessoas também. Uma mãe narcisista é antes de tudo uma pessoa narcisista. Mas quando é especialmente dirigido para a filha, a criança cria um sentimento de desamparo e insegurança dolorosa por ter sido criada por mãe tóxica.

Quando o ciúme de uma mãe cria obstáculos no desenvolvimento da filha: 

Sabotagem do desenvolvimento:

Enquanto uma criança está crescendo, a sua mãe é o seu principal exemplo de como ser uma menina, mulher, amiga, esposa e pessoa no mundo. Se esta mãe a coloca sempre para baixo com ciúmes das suas realizações, a criança não só se torna confusa, mas apreende a ideologia de que é melhor desistir do que tentar e errar. O trabalho de uma mãe é preencher cada estágio do desenvolvimento de seus filhos com carinho, amor, apoio e incentivo… A maioria das crianças quer agradar aos seus pais, mas desta forma a mensagem é mista: é mais fácil e talvez ainda mais seguro não fazer nada do que expor-se à crítica. A mensagem da mãe é: “se não consegues, desiste logo!”

A relação distorcida com o pai:

Claro que as crianças precisam de ter relacionamentos saudáveis com ambos os pais, mas se a mãe tem inveja da relação da filha com o pai, o que a filha faz? Ela quer que ambos os seus pais a amem, então o que ela pode fazer? Como lidar com esse desequilíbrio? E o que o pai faz? Muitas vezes os maridos em relações com narcisistas femininas escolhem atender à mãe como prioridade a fim de manter “a paz” no relacionamento. Como o pai não pode conectar-se com a sua filha, isto a deixa sem conexão emocional também com pai. No entanto se o pai atende a filha em detrimento da esposa, esta pode agredir a filha verbal e fisicamente. E isso será uma constante. Até que o pai reaja com firmeza propondo um tratamento á mãe, ou até que menina cresça e se imponha de modo explosivo e muito doloroso. Sair desse casa tóxica será sua libertação, mas cura de suas feridas emocionais dependerá muito de sua força de vontade e amor próprio. Força de vontade e amor próprio que foram neutralizados desde a infância.

A dor de não ser amada:

Em todos os casos de ciúme materno em relação a filha, ela é deixada com pouco apoio para quem ela é, como uma pessoa completa. Ela não se sente amada e como a Madre Teresa tão apropriadamente escreveu uma vez: “a mais terrível pobreza, é solidão e o sentimento de não ser amado”.  A inveja é como uma espécie de raiva que destrói uma pessoa em desenvolvimento. É assustador para uma criança em qualquer idade.

O fato de que nossa mãe nos reconheça e nos aceite é um sede que temos que saciar, mesmo que tenhamos que sofrer para conseguir isso.  Isso supõe uma perda de independência e de liberdade que nos apaga e nos transforma. Não podemos escapar desse vínculo, pois seja ou não saudável, sempre estará ali para observar nosso futuro.

Quando conseguimos compreender os efeitos que a criação teve sobre nós, começamos a compreender a nós mesmas, a nos curarmos, e a sermos capazes de assimilar o que pensamos de nosso corpo ou a explorar o que consideramos possível conseguir na vida. O importante a entender é que a inveja corrosiva,  sentida por mães narcisistas não é normal. A distinção é gerada: é destrutiva! O desafio para as filhas de mães narcisistas é aprender a reconhecer e a lidar com a inveja materna anormal.

A inveja que lhe é atribuída não pertence a si. É uma parte da doença da sua mãe

“Inveja vem da ignorância das pessoas, ou falta de crença nos seus próprios dons.” (Jean Vanier) Você não tem que atribuir isso a si própria. Seu processo de recuperação permite-lhe individualizar de modo que já não é definido por ninguém, mas só por si mesma. Usando autocompaixão, autoconhecimento e trabalhando a sua recuperação, valerá a pena o tempo e energia. Criar sua própria vida emocionante e significativa é gratificante e quanto mais se sintonizar com a pessoa que deve ser o melhor se sente!

Texto da doutora Karyl McBride Ph.D – Tradução e livre adaptação – Portal Raízes

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