Por que somos essencialmente infelizes? – Por Clara Dawn

Clara Dawn

Antes de compreendermos porque somos essencialmente infelizes, precisamos conhecer alguns conceitos filosóficos acerca do que é a felicidade. Para isto, escolhi 11, dentre os pensadores universais em suma, felicidade é mais ou menos isso:

Para Sócrates, a felicidade é o bem da alma que só pode ser atingido por meio de uma conduta virtuosa e justa;

Para Epicuro, a felicidade está na prática do hedonismo (na busca pelo pelo prazer);

Para Kant, a felicidade é algo tão individual que não merece ser postulada como debate filosófico;

Para Platão, a felicidade só pode ser alcançada se formos capazes de dominar nossos sentimentos pela razão;

Para Nietzsche, “estar bem” graças a circunstâncias favoráveis ou a boa sorte não é felicidade. Isto é uma condição efêmera que pode mudar a qualquer momento. Estar bem seria uma espécie de “estado ideal de preguiça“, onde não existem preocupações e sobressaltos. Em vez disso, a felicidade é força vital, espírito de luta contra todos os obstáculos que restrinjam a liberdade e a autoafirmação. Então, ser feliz é ser capaz de provar dessa força vital, através da superação das dificuldades e criando formas diferentes de viver;

Para Spinoza, a felicidade está na potência energética que cada um coloca nos acontecimentos ao longo do dia;

Para Aristóteles, a felicidade é um estilo de vida: o ser humano precisa exercitar constantemente o melhor que tem dentro dele;

Para Epicuro, o fundador da Escola Para a Felicidade, felicidade é o princípio do equilíbrio e a temperança.  Essa abordagem se reflete em uma das suas grandes máximas: “Nada é suficiente para quem o suficiente é pouco”. Ele acreditava que o amor, ao contrário da amizade, não tinha muito a ver com a felicidade. Insistia na ideia de que não devemos trabalhar para adquirir bens materiais, mas por amor pelo que fazemos.

Para Ortega y Gasset, a felicidade é definida quando “a vida projetada” e a “vida real” coincidem. Ou seja, quando a vida que desejamos coincide com o que realmente somos.

Para Slavoj Zizek, a felicidade é um produto dos valores capitalistas que prometem implicitamente a satisfação através do consumo.

Para Carl Marx, é impossível ser feliz num mundo onde há desigualdades sociais, onde os trabalhadores são explorados e oprimidos, onde o alimento não é feito para quem tem fome, mas só para quem tem dinheiro. Ressalta ainda que, só não somos felizes porque não somos livres e que não se pode ser livre até que todos sejam livres.

Diante desses conceitos de felicidade, encontramos a resposta de sermos essencialmente infelizes? Num prisma individual, talvez, mas, e no coletivo: por que somos essencialmente infelizes?

Por que somos essencialmente infelizes?A resposta é simples, mas a solução é complexa. Somos essencialmente infelizes porque não somos livres. Livres, no sentido integral da palavra ‘liberdade’. Tudo o que somos nos foi imposto: o lugar onde nascemos, os nossos pais, o nosso nome, a nossa religião, a nossa cultura, os nossos ideais, as nossas crenças e até os nossos entretenimentos, como o time de futebol que vamos torcer quando crescer. Decidem por nós pelo que devemos chorar, pelo que devemos sorrir (e como sorrir). Incutem em nós que a felicidade está no que se pode conquistar materialmente e ai daqueles que, por ‘rebeldia’, não se encaixam nos moldes desta idiotia. Ora, eu seria feliz se pudesse ir trabalhar de bermuda e de chinelos. Por que não?

Somos, sim, desde crianças autômatos controlados por outrem e, assim, somos servos voluntários de um consumismo cada vez mais capitalista e jamais, jamais dialético. Quando o homem se fez gente, infincou bandeiras e ergueu muros, como se tivesse o direito de fazê-lo por si só numa terra que naturalmente não lhe pertencia. Assim nasceram as fronteiras, as novas línguas, novas culturas e metodologias de existir… No entanto, todos os esses ‘novos’ mundos foram consolidados, e ainda são, sobre um sistema regido pela vaidade, pela sofisma, pela ganância, pelo bem supremo das classes dominantes(maioria) em detrimento de minorias: os trabalhadores, os que produzem toda a riqueza da Terra.

Comungo com Carl Marx do conceito de felicidade. Como ser feliz em um mundo de injustiças sociais? Marx responde que é impossível. Como sermos plenamente felizes se não temos liberdade para coisa alguma? Se há muros cheios de placas de advertências indicando que não temos o direito de estar ali. Ora, por que não? Quem deu a esses seres o direito maior de serem donos de um patrimônio naturalmente pertencente a todos? A Terra é nossa. É todos, irmãos. E pessoa alguma, repito, pessoa alguma, tem dela o monopólio legal. A Leis que regulamentam o contrário, por quem foram instituídas e a quem, na prática, favorecem?

Ora, não somos felizes e jamais seremos até que tenhamos a consciência de que nossa liberdade integral também é nosso direito e que por isso vamos exercê-la. Seremos livres quando ao invés de somente obedecermos as leis passarmos a ser membros participativos na criação delas. Então seremos livres para viver onde se bem quiser, livres para ter fé no que quiser, livres para amar quem se quiser, livres para ser quem realmente se é… Todos livres, libertos de todo tipo opressão: moral, social, psicológica, econômica, política, étnica, de gênero, de sexualidade. Enfim, livres. E logo, felizes.

Não, eu não sou feliz. Uma vida ‘normal’ é superestimada. Algumas pessoas não são predestinadas à felicidade, mas à luta. Porque têm a vocação natural de acreditar que é impossível ser feliz de verdade num mundo onde a riqueza de poucos é fruto da exploração e opressão de tantos. Por isso eu só acredito no que eu sinto. Se eu sinto, faz sentindo. Logo eu só acredito na luta. É a luta que me dá sentido. É a luta que dá sentido à vida. A luta é a força toda poderosa que move o mundo e o transforma.

Seremos felizes num mundo onde amos não existem, onde as leis são feitas para a equidade universal e os infratores são julgados por conselhos populares e não por juízes corruptíveis.

Para que isso aconteça, só mesmo uma revolução. Os de baixo derrubando os de cima. Impossível, você pode pensar. Sim, a revolução é impossível, dizia Trotsky, até que se torne inevitável. E o que mais precisamos sofrer para que nós, as minorias exploradas,  enxergarmos que já tornou-se inevitável?

Esta é somente a minha opinião e não a torno pública com a intenção de conversar as pessoas a pensarem como eu, mas sim, para dizer aquelas que comungam comigo desse pensamento, que elas não estão sozinhas.

Clara Dawn

“Todos os mortais estão em busca da felicidade, um sinal de que nenhum deles é feliz”. Balthazar Gracian

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Clara Dawn
Clara Dawn é romancista, psicoterapeuta; palestrante com o tema: "Prevenção aos transtornos mentais e ao suicídio na adolescência". É editora chefe no Portal Raízes (portalraizes.com), colunista aos sábados no Jornal Diário da Manhã em Goiânia, Goiás, desde 2009. É autora de 7 livros publicados, dentre eles, o romance "O Cortador de Hóstias", obra que tem como tema principal a pedofilia. Clara Dawn inclina sua narrativa à temas de relevância social. O racismo, a discriminação, a pedofilia, os conflitos existenciais e os emocionais estão sempre enlaçados em sua peculiar verve poética. Você encontra textos de Clara Dawn em claradawn.com; portalraizes.com, jornal Diário da Manhã/Goiânia ou pesquisando no Google. Seus livros não são vendidos em livrarias. Pedidos pelo email: [email protected]