Quando eu amo nem o amor me aguenta

Clara Dawn

Quando eu amo, eu sou o meu amor. E não importa o quanto eu já tenha me decepcionado estarei sempre amando um “este é diferente”. Porque quando eu amo, o amor tem o cheiro da fruta-do-conde; tem gosto de suspiro, é alvinitente como a lua cheia; tem a fala mansa como uma cantilena repousaste sobre o rio e um olhar benevolente que me conduz a ouvir uma nota de piano tocada em dó.

Meu amor é tamanho: vive apinhado aqui dentro do meu peito evocando tessituras de amarga saudade. Mas, a minha saudade não é amarga, já disse, tem gosto de suspiro… É mansa como um “não sei o quê”, desses “não sei os quês” que chegam pra ficar e gente acha bom, porque nos conduz ao lugar onde o amado mora.

Quando amo, o amor não me aguenta. Porque quando amo eu sou o amor. Dou-lhe o meu “eu’ mais bonito, minha voz meiga, meu riso mais infante, meu canto feliz, meus melhores beijos… Quando amo, assombro o amor com mimos tantos: eu não tenho dores, nem sonhos, objetivos ou quaisquer expectativas senão fazer o amor sentir-se mais amado. Quando amo, aprisiono-me para deixar o amor livre: na maioria das vezes ele não volta.

Quando amo, dou ao meu amor minhas vestes de cetim – todas elas – azules, douradas, alvas e rubras… Dou-lhe todas às minhas habilidades: desjejum de seiva em conta-gotas, lençóis de musgos escardeados e a cantarola em gestos de uma serpente. Presenteio-lhe com minhas multicores e o amado se transforma em arco-íris. Dou-lhe, também a iridescência de uma bolha de sabão e o amado infla e eu, sem vida própria, estouro em preto e branco.

Inspirada nos poemas de Yêda Schmaltz 

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Clara Dawn
Clara Dawn é romancista, psicoterapeuta; palestrante com o tema: "Prevenção aos transtornos mentais e ao suicídio na adolescência". É editora chefe no Portal Raízes (portalraizes.com), colunista aos sábados no Jornal Diário da Manhã em Goiânia, Goiás, desde 2009. É autora de 7 livros publicados, dentre eles, o romance "O Cortador de Hóstias", obra que tem como tema principal a pedofilia. Clara Dawn inclina sua narrativa à temas de relevância social. O racismo, a discriminação, a pedofilia, os conflitos existenciais e os emocionais estão sempre enlaçados em sua peculiar verve poética. Você encontra textos de Clara Dawn em claradawn.com; portalraizes.com, jornal Diário da Manhã/Goiânia ou pesquisando no Google. Seus livros não são vendidos em livrarias. Pedidos pelo email: [email protected]