Sabrina Bittencourt, que denunciou João de Deus, comete suicídio

Portal Raízes

Ativista social e uma das mulheres que ajudou a desmascarar abusos sexuais de João de Deus e Prem Baba, Sabrina Bittencourt, 38, cometeu suicídio no sábado (02/02). Em nota de falecimento comunicada à imprensa assinada por Maria do Carmo Santos (presidente da ONG Vitimas Unidas, com a qual Sabrina trabalhava) a morte de Bittencourt foi confirmada.

O COAME – Combate ao Abuso do Meio Espiritual comunicou o falecimento de Sabrina de Campos Bittencourt ocorrido por volta das 21h deste sábado, 02 de fevereiro, na cidade de Barcelona, na Espanha, onde ela vivia. A ativista cometeu suicídio e deixou uma carta de despedida relatando os porquês de tirar sua própria vida. Pedimos a todos que não tentem entrar em contato com nenhum integrante da família, preservando-os de perguntas que sejam dolorosas neste momento tão difícil. A luta de Sabrina jamais será esquecida e continuaremos, com a mesma garra, defendendo as minorias, principalmente as mulheres que são vítimas diárias do machismo.

O ex-marido e os filhos da ativista foram para a Europa e o corpo deve ser cremado. A informação foi dada ao jornal O Popular por Maria do Carmo Santos, presidente do grupo Vítimas Unidas, criado por mulheres abusadas pelo ex-médico Roger Abdelmassih, que Sabrina Bittencourt também lutava para obter provas.

Antes de cometer suicídio

Sabrina Bittencourt escreveu um post de despedida no Facebook:

“Marielle, me uno a ti. Somos semente. Que muitas flores nasçam dessa merda toda que o patriarcado criou há 5 mil anos. Eu fiz o que eu pude, até onde eu pude. Meu amor será eterno por vocês. Usem a sua própria voz. A sua própria vontade. Tomem as rédeas de suas próprias vidas e abram a boca, não tenham vergonha! Eles é quem precisam ter vergonha.

Eu sempre escolhi ficar do lado mais frágil nesta breve existência: mulheres, crianças, idosos, jovens, povos originários, afro descentes, refugiados, ciganos, imigrantes, migrantes, pessoas com deficiência, gays, pobres, lascados, fudidos, rebeldes e incompreendidos… Essa vida é uma ilusão e um jogo de arquétipos do bem e do mal, de dualidades… desde que o mundo é mundo. Vivo num outro tempo desde que nasci e sempre senti que vivia num mundo praticamente medieval. Volto pro vazio e deixo minha essência em paz. Aos meus amigos, amadas e amantes, nos encontraremos um dia! Sintam meu amor incondicional através do tempo e do espaço. Sim e Fim”. (Trecho do último post que Sabrina Bittencourt fez no Facebook – 02/02/2019 às 20h05min)

Trajetória em síntese 

Nascida em uma família mórmon, a ativista foi abusada desde os quatro anos de idade por integrantes da igreja frequentada pela família. Aos 16, ficou grávida de um dos estupradores e abortou. Bittencourt dedicou a vida a militar por vítimas de abuso e a desmascarar líderes religiosos, entre eles Prem Baba e João de Deus.

Sabrina foi abusada desde os 4 anos por integrantes da igreja frequentada pelos pais e avós. Aos 16, ficou grávida de um dos estupradores. Abortou. Atualmente estava, aos 37, mãe, militava numa causa ao mesmo tempo universal e particular: labuta na organização e preparação de denúncias contra líderes religiosos abusadores, para os quais seria melhor evitar a incontornável ideia do santo do pau oco.

Envolveu-se na busca por crianças desaparecidas no Brasil, lidou com jovens carentes acometidos de problemas renais, trabalhou com crianças cegas, surdas e mudas em países da África, defendeu indígenas ameaçados no México.

Foi eleita por unanimidade para um posto de direção no Partners of the Americas, uma das maiores organizações de voluntários do mundo. Especializou-se no então nascente conceito do empreendedorismo social, aquele que permitiu ao Terceiro Setor livrar-se do assistencialismo e ganhar dinheiro para o financiamento de suas atividades.

Em 2013, assoberbada por mais de 30 projetos sociais em quatro continentes, foi atingida por uma amnésia que lhe apagou 11 anos de memórias. Virou, por isso, personagem do Fantástico.

Bittencourt foi uma das criadoras do “movimento” Coame, sigla para Combate ao Abuso no Meio Espiritual, plataforma que concentra denúncias de violações sexuais cometidas por padres, pastores, gurus e congêneres.

Craque na lida com o mundo virtual das redes e com o modus operandi do ativismo real, atraiu mulheres dispostas a contar suas experiências de assédio com Prem Baba e João de Deus. Com o imprescindível apoio das Vítimas Unidas de Roger Abdelmassih, de ativistas espalhados pelo mundo e de jornalistas brasileiros que investigavam tanto o incensado guru quanto o poderoso curandeiro, organizou depoimentos, investigou crimes paralelos, articulou e segue articulando com imprensa e promotores.

Ameaçada de morte, Bittencourt vivia fora do Brasil sob proteção de organismos internacionais que prestam esse tipo de serviço a ativistas diversos. Ela mudava de casa a cada 10 ou 12 dias, mudava de país sem registrar o ingresso na fronteira.

Treze novos abusadores

Sabrina Bittencourt foi uma das mulher por trás das centenas de denúncias de abuso contra João de Deus e Prem Baba. Sob sigilo, preparava o material a desmascarar outros 13 gurus espirituais brasileiros.

“Jamais imaginei que a partir do lance do Prem Baba eu ia conseguir receber 103 relatos de 13 líderes espirituais diferentes a partir de um único post no Facebook. Com João de Deus, estamos tratando de uma elite, de celebridades, de pessoas que viajam para a Índia, que podem ficar três meses em Abadiânia apenas sendo voluntária. Estrategicamente, vou apresentando os mais favorecidos. Agora, quando consigo mostrar para a sociedade que mesmo João de Deus, que há 40 anos é o intocável, que já mandou matar uma porrada de gente, que é multimilionário, e mesmo assim a gente conseguiu desmascarar, aí as mulheres que são abusadas por pastores e padres, mulheres negras de uma camada menos favorecida, elas vão criar coragem para falar”.

“Posso Garantir Que Tudo Isso É Verdade”, Diz Filho De Sabrina Bittencourt

Vídeo que Sabrina gravou no inicio de janeiro fazendo denúncias contra João de Deus

Homenagem do filho de Sabrina Bittencourt

Gabriel Baum, filho de Sabrina Bittencourt, confirmou o suicídio da ativista, neste domingo, 3, por meio de seu Facebook e prestou uma homenagem à matriarca:

“Ela só se transformou em outra matéria. Nós seguiremos por ela. Foiisso que minha mãe me ensinou e ninguém vai poder tirar de mim. Não permitam que manchem o nome dela. Eu estava com a minha mãe quando a Mariele Franco foi assassinada. Ela me disse: ‘filho, a próxima sou eu, mas estaremos sempre presentes’. Minha mãe passou o ano todo me preparando. Mas nunca estamos preparados mesmo. Ela fez mais de 300 vídeos com todas as instruções. Deixou tudo com provas, organizado, tem um pacote de cartas. Ela não queria ser morta pelas quadrilhas, nem pelo câncer. Minha mãe lutou até o final, ela desistiu. Ela só se libertou do inferno que estava vivendo. Eu preciso ser forte pelos meus irmão. Eu sou filho de Sabrina Bittencourt e somos imparáveis!“.

Leia mais sobre este assunto:

 

 

COMPARTILHAR

RECOMENDAMOS



COMENTÁRIOS





Portal Raízes
Humanismo, sociologia, psicologia, comportamento, saúdes: física, mental e emocional; meio ambiente, literatura, artes, filosofia. Nossos ideais estão na defesa dos direitos humanos, das mulheres, dos negros, dos índios, dos LGBTs... Combatemos com veemência o racismo, o machismo, a lgbtfobia, o abuso sexual e quaisquer tipos de opressão.As publicações do Portal Raízes são selecionadas com base no conhecimento empírico social e cientifico, e nos traços definidores da cultura e do comportamento psicossocial dos diferentes povos do mundo, especialmente os de língua portuguesa. Nossa missão é, acima de tudo, despertar o interesse e a reflexão sobre a fenomenologia social humana, bem como os seus conflitos interiores e exteriores.A marca Raízes Jornalismo Cultural foi fundada em maio de 2008 pelo jornalista Doracino Naves (17/01/1949 * 27/02/2017) e a romancista Clara Dawn.