“Ter um garotinho é ter um príncipe encantado para sempre”

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A chegada de uma criança é sempre motivo de alegria e celebração em grande escala. No entanto, muitas mães são levadas pela emoção do momento e acreditam que somente com o fato de terem vindo ao mundo, seus filhos já são príncipes encantados.

O amor materno é incondicional? Sim, mas também precisa ser assertivo

A ideia é que materializemos esse sonho com um plano de ação consistente. Claro, não vamos notar isso quando o bebê tiver alguns meses, mas a partir dos 6 meses.

É muito importante proporcionar às nossas crianças uma educação rica em valores e acima de tudo, realista. Para isso, devemos ter em mente que somos responsáveis ​​pelo desenvolvimento integral de uma criança. 

Devemos estar muito conscientes da realidade, mesmo quando vamos atrás de um sonho. Isso nos permitirá ser mais assertivos ao tomar decisões e experimentar maior satisfação.

Um filho é uma criança que será o reflexo do nós mesmos

Comportamentos machistas são fruto da construção da identidade feminina e masculina ao longo da História da humanidade. Especialista em saúde da mulher, a professora da USP Rosa Maria Fonseca, explica em artigo esse processo:

“Ao que indicam os estudos sociológicos e antropológicos, foi na sociedade de caça aos grandes animais que se iniciou a supremacia masculina.”

Isso porque enquanto os homens saíam para caçar, as mulheres ficavam “em casa” cuidando dos filhos.

Fonseca ainda destaca que “é provável que a dominação masculina tenha tido uma origem lenta e gradual e tenha transformado as relações entre homens e mulheres à medida que a divisão sexual do trabalho os separava cada vez mais”.

Hoje em dia, muitos pais e mães reforçam comportamentos machistas na criação de seus filhos, repetindo o modo como foram educados. Estimulam hábitos e pronunciam frases que vão naturalizando nas crianças a repetição desse padrão.

“Isso é coisa de menininha”, “esse aí vai dar trabalho, vai ser pegador”, “menina tem que ajudar a mãe a cuidar da casa” e muitas outras frases que já estão enraizadas na nossa cultura, fazem parte do cotidiano de muitas crianças, que vão introjetando e repetindo essa conduta.

Em consequência dessas atitudes dos pais, muitos meninos crescem achando normal objetificar mulheres e muitas meninas crescem achando normal serem objetificadas. A naturalização desse comportamento machista, autorizado e ensinado pelos próprios pais, é um dos principais motivadores da violência contra a mulher.

A Organização Mundial da Saúde coloca o Brasil em 5°lugar entre os países que mais matam mulheres, com uma taxa de 4,8 homicídios por 100 mil mulheres. Para protegê-las dessas estatísticas, autoridades vêm desenvolvendo campanhas e políticas públicas. Em março de 2015 foi sancionada a Lei do Feminicídio. É considerado feminicídio o assassinato em que há violência doméstica e familiar ou quando há evidência de menosprezo ou discriminação à condição de mulher, caracterizando crime por razões de condição do sexo feminino.

A Plan Brasil, ONG que defende os direitos das crianças, jovens e adolescentes, realizou uma pesquisa com 1.771 meninas de seis a 14 anos em todas as regiões do Brasil e descobriu a disparidade entre a distribuição das tarefas domésticas entre meninos e meninas. Enquanto 81,4% das meninas arrumam suas camas, apenas 11,6% dos meninos realizam essa tarefa. Entre as meninas, 76,8% lavam a louça e 65,6% limpam a casa. Já entre os meninos, 12,5% lavam a louça e 11,4% limpam a casa. Outra tarefa predominantemente destinada às meninas é a de cuidar dos seus irmãos: 34,6% são responsáveis por essa função, contra 10% dos meninos.

Ter um garotinho é ter a oportunidade de apresentar ao mundo um grande homem livre de estereótipo

“Parece que não, mas os meninos também sofrem com a rigidez dos estereótipos de gênero. Um exemplo é que muitos deles são vítimas e assistem à violência doméstica. Contraditoriamente, por falta de modelos e alternativas, acabam repetindo comportamentos que outrora tanto lhes prejudicaram. É preciso ensinar a eles que não precisam ser agressivos ou territorialistas para serem masculinos.

Engolir o choro, provar que é “homem”, não poder expressar os medos, dissimular sentimentos, cumprir ritos sociais agressivos, mostrar-se valente, heroico, exercer o controle, competir… tudo isso é uma carga que para um menino é pesada sim. O documentário The Mask You Live In mostra que as exigências sociais que os meninos cumprem os afastam de sua humanidade, do potencial de contribuírem para uma sociedade com menos violência e mais equidade entre os gêneros.

Reconhecemos que indiscutivelmente as vítimas do machismo são meninas e mulheres em suas mais variadas nuances, como nos prova uma estatística arrebatadora: a cada 11 minutos 1 mulher é estuprada no Brasil. Ou seja, a cada 11 minutos  um homem estupra no Brasil. E é nessa questão que queremos chegar. É urgente educar meninos para que descubram novas masculinidades, novas formas de se relacionarem e se posicionarem no mundo, para que se consiga de maneira eficaz diminuir os dados de violência doméstica, sexual e de gênero”. (Reflexões da psicóloga Nathalia Borges e da pedagoga Caroline Arcari). 

Como educar um menino para não ser machista numa sociedade machista?

“Educar um menino para não ser machista pressupõe, antes de tudo, educarmos as pessoas adultas que cresceram nesse mesmo contexto, que riram de piadas machistas, viram os homens relaxarem depois do churrasquinho de domingo enquanto as mulheres lavavam a louça da família toda, que cresceram achando que as cantadas abusivas eram um elogio, que julgaram as roupas e comportamento das mulheres que um dia sofreram violência sexual.

Sejam mães, pais, responsáveis, professores ou professoras, a educação de meninos para a equidade de gênero é posterior a uma reflexão dos próprios adultos responsáveis por ela, que, se tiverem a oportunidade, podem desconstruir os valores com os quais foram socializados, a fim de promover uma educação engajada que diminuirá a violência, como dissemos antes.

É um trabalho que requer persistência, pois ao mesmo tempo que ensinamos um menino que ele não precisa adotar certos tipos de comportamentos para ser “homem”, ele também recebe uma série de estímulos machistas vindos dos mais variados veículos como músicas, filmes e até mesmo da família e amigos. Esses elementos são de grande impacto em sua vivência.

As vantagens dessa educação para a igualdade são para todos. Até para a próxima geração que terá pais (plural de pai) mais presentes na educação dos filhos e um modelo de relação familiar mais saudável, com menos violência doméstica. E quando dizemos que é pra todo mundo, queremos dizer que a economia e desenvolvimento global estão intimamente ligados à equidade de gênero. O próprio enfrentamento da pobreza depende disso, como sugere o Fórum Econômico Mundial, que estabelece o Ranking sobre Equidade de Gênero dos países do mundo”. (Reflexões da psicóloga Nathalia Borges e da pedagoga Caroline Arcari).

5 jeitos de desconstruir a criação machista dos filhos

1 – Órgão genital não lava louça

A pedagoga e educadora sexual Caroline Arcari enfatiza que “não precisa do órgão genital para fazer tarefas domésticas”. Ela desenvolve projetos para crianças e adolescentes com o objetivo de desconstruir o estereótipo da princesa submissa e do herói agressivo e dominador. Arcari enfatiza a importância de não segmentar atividades e brincadeiras entre “coisas de menino” e “coisas de menina”. Segundo a pedagoga, é importante deixar que os meninos desenvolvam empatia, sensibilidade e permiti-los chorar, assim como deixar a menina jogar futebol, porque fortifica a personalidade delas em direção à igualdade.

2 – Ele pode brincar de boneca, sim

Arcari ressalta que “muitas vezes, os meninos têm vontade de brincar com boneca, mas não brincam, porque isso seria reprovado pelo grupo de colegas da mesma faixa etária e também pelos adultos. Então, ao longo dos anos, eles vão tomando esses espaços, que não são espaços saudáveis”.

Já a blogueira Pâmela Ghilardi, do blog Fofoca de Mãe, ensina seu filho Luca, de 5 anos, a brincar e realizar tarefas sem distinção de sexo. “O meu filho brinca de Barbie e de Hello Kitty, assim como ele brinca de super-herói e carrinho. Outro dia, ele queria uma cozinha de brinquedo e só tinha na cor rosa. O pai falou que não ia deixar e tive que convencê-lo”, conta.

Conforme explica o psicólogo infantil Ricardo Gonzaga, “as crianças só vêem um brinquedo, os adultos que atribuem significado de diferenciação das brincadeiras por sexo. As crianças não vêem maldade nenhuma no brincar; elas não têm malícia”. Por sua vez, os adultos estão o tempo todo repreendendo as crianças por explorarem brinquedos que não consideram apropriados para seu sexo.

Pâmela enfrenta situações do dia a dia em que precisa explicar para os adultos sobre o jeito de educar seu filho. Numa festa de aniversário, Luca juntou-se às amigas gêmeas para brincar de boneca, quando sua madrinha disse que não podia deixar, que menino tem que brincar de carrinho. “Eu disse: estou ensinando ele a cuidar de um bebê no futuro, a ser um bom pai, não tem nada de errado nisso”.

3 – A liberdade de experimentar o mundo

Pâmela é uma mãe na contramão da educação machista normalmente praticada pelos pais. Ela sempre se depara com situações em que seu filho quer fazer “coisa de menina”. E ela deixa.

“Esses dias, eu estava me maquiando e ele me pediu para passar batom… Eu deixei, mas disse que só um pouquinho e só de vez em quando, porque não acho bacana criança usar maquiagem, mas não por achar que é coisa de menina”.

Mas e se quando ele for adulto ele quiser passar batom? “Se quando ele for adulto, ele quiser usar batom ou maquiagem, não tem problema nenhum. O futuro dele, ele que vai decidir, quando ele for maior”.

4 – As ‘coisas de menina’ ou ‘coisas de menino’

Muitos pais acreditam que permitir os meninos fazerem ‘coisas de menina’ ou meninas fazerem ‘coisas de menino’, pode tornar seus filhos homossexuais. O psicólogo Ricardo Gonzaga explica que isso não acontece: “As brincadeiras, tarefas ou estilo de roupa não influenciam em nada na sexualidade das crianças. Ou elas são homossexuais ou não são. E isso não é devido a nenhuma interferência externa”.

Quando Pâmela não permite que Luca realize alguma atividade feminina, não é por motivo de machismo:

“Estava pintando as minhas unhas e ele pediu para pintar as dele. Ao invés de eu dizer ‘não pode, porque isso é coisa de menina’, eu disse ‘não pode, porque isso não é coisa de criança’. Eu tirei do lado machista e coloquei para o lado de ser coisa de adulto, porque é nisso que acredito,”

5 – Amor e violência não andam juntos

É preciso ficar atento à criação dos filhos, tanto em casa, quanto na escola. Por mais que os pais sejam bem intencionados, pode escapar o reforço de algum padrão machista, como aconteceu com a pedagoga Arcari: “Eu mesma já falei para uma aluna minha, que veio reclamar do colega, que quando o menino puxa o cabelo é porque está apaixonado. Quando a gente fala isso para a menina, a gente está ensinando que violência e amor podem andar juntos”.

Menina pode brincar de luta, de carrinho e de super-herói. Menino pode brincar de boneca, pode colocar vestido e ver filme de princesa. Isso torna seus filhos humanos e lhes ensina a ter empatia com qualquer pessoa, independentemente do gênero dela.

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