“O público é que tem compromisso comigo, e não eu com ele.” Infelizmente na época não pude visitar Jorge Amado em sua casa em salvador, Bahia, que dizem ser uma casa bela e singular, é que Jorge já estava há dois meses no sitio do tapeceiro Genaro de Carvalho, tendo como companhia única sua esposa Zélia. No sítio, a uns vinte quilômetros de Salvador, Jorge podia esquivar-se a visitas, pois estas, mesmo que simpáticas, o impediram de trabalhar. No meio de chuva torrencial fui ao sitio, tendo tido o trabalho prévio de avisa-lo e de Pergunta-lhe se me daria uma entrevista. Lá fui recebida pelo o casal com refresco de mangaba.
Trecho de uma entrevista que Jorge Amado concedeu à Clarice Lispector:
– Desde que idade você escreve, Jorge?
– Desde muito tempo. Com 15 anos, ou 16, já fazia parte de grupos de jovens literários em Salvador. Aos 18 anos escrevi o primeiro romance, publicado no ano seguinte.
– Quando você está escrevendo, espera pela a inspiração ou trabalha com disciplina, tantas e tantas horas por dia?
– Inspiração? Inspiração para mim é a ideia é o amadurecimento interior – eu prefiro a palavra vocação: você nasce ou não para escrever, e acabou. O trabalho só não basta. Mas o trabalho é essencial, fundamental e deve ser disciplinado. Levo anos sem fazer nada – quero dizer, sem estar na máquina a bater as páginas de um livro: durante esse tempo eu estou concebendo a ideia do romance – a isso chamo de inspiração. Depois vou para a máquina e trabalho com muita disciplina, “ tantas e tantas horas” . No momento, por exemplo, acordo ás cinco da manhã, antes das seis já estou na máquina e trabalho até às 13 horas. Almoço, descanso, atendo minha secretária, ás 17 volto ao trabalho até as 19, exceto aos sábados e domingos, quando não cumpro o horário das 17 ás 19 horas e passo a tarde jogando pôquer ou conversando com amigos.
– Você é um homem feliz e realizado, Jorge?
– Sou, creio um homem a quem a vida muito tem dado, mais do que mereço. Tenho alegria de viver, amo a vida e sempre a vivi ardente. Sou feliz com suas barbas e seu teatro; Paloma, com seu dengue e seu Garcia Lorca. Minha mulher é leal companheira. Tenho mãe viva, de 86 anos, Lalu, poderosa figura. Tenho dois irmãos que são amigos fiéis – um deles, James, é o bom escritor da família, em minha opinião. Tenho amigos excelentes; a amizade é o bem da vida. Vivo muito com meus amigos. Quanto a ser realizado, penso que o escritor que um dia se considere realizado, se não for um idiota ( e deve ser) tem o dever de deixar de escrever, pois já se realizou.
– Você é tão hábil em escrever que se lhe desse um tema você aceitaria? Ou o tema tem que nascer de você mesmo?
– Nunca aceitei encomenda nem penso em aceitá-la. Apenas uma vez deram-me um tema: conto destinado para um livro Os Dez Mandamentos, onde colaboram mais nove autores. O editor deu-me o tema para a história e eu aceitei escrevê-la. E a encomenda, pois cumpro meus compromissos, foi uma das piores coisas que escrevi. Sou um escritor profissional, porque escrevo livros é minha profissão, é não um hobby, um bico ou uma “ ocupação fundamental…” de fim de semana . Sou, assim, um escritor comercial. Escrevendo meu quatro livro num espaço de tempo de 12 anos, ou seja, em média um livro de quatro em quatro anos. Quisesse eu escrever para ganhar dinheiro e , com o publico que possuo, era livro de seis em seis meses, sobretudo se sou realmente “ hábil” como você diz. Só escrevo aquilo que nasce e cresce dentro de mim.
– Qual foi o fato mais importante de sua vida, Jorge?
– Vários fatos foram importantes e várias pessoas. O padre Cabral, pro exemplo, que, no internato dos jesuítas, declarou em aula que eu seria fatalmente escritor, quisesse ou não.
– Você está de algum modo ligado a alguma religião? Nuca teve uma experiência mística?
– Não sou religioso, não possuo crença religiosa alguma, sou materialista. Não tive experiências místicas, mas tenho assistido a muita mágica, sou supersticioso e acredito em milagres, a vida é feita de acontecimentos comuns e de milagres. Não sendo religioso, detenho um alto titulo no candomblé baiano, sou Obá Otum Arolu, um dos 36 obds. Distinção que os meus amigos do candomblé me conferiram e que muito me honra.
– Você já escreveu poesia? É melhor confessar?
– Da pior espécie possível, mas felizmente pouquíssima e inédita.
– A que atribui o sucesso enorme de seus livros?
– Atribuo á qualidade brasileira: a estar do lado do povo; a transmitir esperança e não desesperança.
– Que é que você gostaria de ter sido e não foi?
Não creio que prestasse em profissão nenhuma. Tenho grande tendência a não fazer nada que seja obrigação.
– O que é amor?
– É a própria vida, é o melhor da vida. No amor não sou profano, aí não . Sou sectário.
– Qual de seus personagens é mais você mesmo?
– Todos os personagens tem um pouco do autor, não é assim, Clarice?
– É assim Jorge. Alguns acusam você de superficialidade nos últimos livros. Que é que você tem acha disso?
– Os primeiros são, a meu ver, mais superficiais.
– Quais são as cidades onde a atmosfera conduz um artista a criar mais e melhor?
– Penso que existem duas cidades feitas á medida do homem, cidades que não são, ainda e somente, campos de trabalho: Salvador da Bahia de Todos os Santos e Paris.
– Aqui, em Salvador, eu realmente senti que poderia escrever mais e melhor. Mas o Rio de Janeiro, com o seu ar poluído, não é nada mau, Jorge. Coloca-nos frente a frente com condições adversas e também dessa luta nasce o escritor. È verdade que muitos escritores que moram no Rio são saudosistas de seu estados e têm nostalgia da província.
Jorge Amado – O autor de Gabriela, cravo e canela e Dona flor e seus dois maridos tornou-se uma espéciede representantes do povo baiano, o mais popular e um dos mais traduzidos para 48 idiomas. Em 1995, recebeu o Premio Camões. Sua obra literária recebeu inúmeras adaptações para o cinema teatro e televisão
Fonte: Livro Entrevistas de Clarice Lispector, Editora Rocco Ltda., 2007.
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