Featured

O trauma não se mede pela gravidade do que aconteceu, mas como a criança o sentiu

Na infância, aprendemos cedo a conter o choro, a silenciar o incômodo, a não “dar trabalho”. Crescer, para muitos, significou adaptar-se rapidamente ao ambiente, mesmo que isso implicasse abandonar partes legítimas de si. O que era chamado de maturidade, força ou educação, muitas vezes foi apenas sobrevivência emocional. Durante décadas, essa adaptação foi tratada como algo normal. Só mais recentemente começamos a perguntar se era saudável.

É nesse ponto que o pensamento de Gabor Maté ganha relevância. No livro O Mito do Normal, o autor propõe uma inversão desconfortável: talvez não sejamos indivíduos “frágeis” adoecendo em um mundo saudável, mas organismos coerentes reagindo a uma cultura profundamente desreguladora. Para Maté, trauma não é apenas o que acontece externamente, mas o que ocorre internamente quando o sistema nervoso não consegue processar uma experiência. E isso começa cedo.

A normalização do sofrimento infantil

Uma das contribuições centrais de Maté é ampliar a definição de trauma. Não se trata apenas de eventos extremos. A ausência de validação emocional, a exigência precoce de maturidade, a falta de segurança afetiva também deixam marcas. Quando a criança aprende que expressar dor ameaça o vínculo, ela opta pelo vínculo e sacrifica a autenticidade. O corpo registra essa escolha.

O problema é cultural. Muitas gerações ouviram que “é assim mesmo”. Engolir o choro foi interpretado como virtude. A pergunta que o livro provoca é simples e incômoda: normal para quem? Adaptativo para quê? O fato de um comportamento ser comum não o torna saudável.

O corpo como arquivo da experiência

Maté articula dados clínicos e pesquisas para sustentar que experiências emocionais precoces influenciam o sistema imunológico, o eixo do estresse e processos inflamatórios. O organismo não separa o que é emocional do que é físico. Quando sentimentos precisam ser reprimidos de forma crônica, o custo pode aparecer anos depois, em forma de ansiedade, compulsões, doenças autoimunes ou esgotamento.

Isso não significa determinismo. Significa coerência biológica. O corpo responde ao ambiente. Se o ambiente exige silêncio emocional para garantir pertencimento, o sistema nervoso aprende a se manter em alerta ou em congelamento. A adaptação é inteligente. O preço é que ela pode se tornar rígida.

Autenticidade e pertencimento

Maté descreve duas necessidades humanas fundamentais: pertencimento e autenticidade. Na infância, quando entram em conflito, o pertencimento costuma vencer. A criança depende do adulto para sobreviver. Logo, ela molda suas emoções ao que é tolerável no ambiente.

O desafio na vida adulta é recuperar a autenticidade sem perder o vínculo. Esse movimento exige consciência. Não se trata de culpar pais ou revisitar o passado com ressentimento, mas de compreender padrões. Quando reconhecemos que certos comportamentos nasceram como estratégias de proteção, diminuímos a autocrítica e ampliamos a possibilidade de escolha.

Conclusão

Se o trauma não depende apenas da gravidade do fato, mas de como o sistema nervoso o processou naquele momento, então precisamos rever nossa ideia de força. Talvez força não seja engolir o choro, mas aprender a escutá-lo. Talvez maturidade não seja suportar tudo, mas reconhecer limites.

“O mito do normal” nos convida a desconfiar daquilo que sempre foi considerado natural. Nem tudo que é comum é saudável. Nem toda adaptação é sinal de equilíbrio. Ao ampliar o conceito de trauma, ampliamos também o conceito de cuidado.

E há algo libertador nisso. Se o sofrimento é, em parte, uma resposta coerente a contextos incoerentes, então não somos defeituosos. Somos humanos tentando sobreviver. A partir desse reconhecimento, a cura deixa de ser um ajuste individual e passa a ser também um compromisso cultural: criar ambientes onde a criança não precise escolher entre ser aceita e ser quem é.

Portal Raízes

As publicações do Portal Raízes são selecionadas com base no conhecimento empírico social e cientifico, e nos traços definidores da cultura e do comportamento psicossocial dos diferentes povos do mundo, especialmente os de língua portuguesa. Nossa missão é, acima de tudo, despertar o interesse e a reflexão sobre a fenomenologia social humana, bem como os seus conflitos interiores e exteriores. A marca Raízes Jornalismo Cultural foi fundada em maio de 2008 pelo jornalista Doracino Naves (17/01/1949 * 27/02/2017) e a romancista Clara Dawn.

Recent Posts

Eu ainda sou aquela criança que brincava na poça d’água como se navegasse num oceano

Eu estou sempre perdendo coisas. Quando eu preciso de caneta, não sei o que me…

1 semana ago

Os postais propagandas de 1900 a 1914 que mostram como o machismo foi disseminado

A luta pelos direitos das mulheres se cruza, em diferentes momentos, com outras lutas por…

2 semanas ago

5 maneiras de desconstruir em si mesma o mito da mulher infalível – Com Gabor Maté

Quando o corpo diz basta: o adoecimento das mulheres e o mito do normal Por…

4 semanas ago

As 10 Melhores Séries de Drama para Maratonar Agora

Quando o assunto é drama de qualidade, poucos gêneros conseguem prender a atenção como aquele…

1 mês ago

Sem acessibilidade para denunciar, o Estado se torna cúmplice da violência sofrida por mulheres com deficiência

Certas existências a história registra como extraordinárias, transformando-as em pontos de admiração da humanidade. Outras,…

2 meses ago

Grupos antivacinas devem perder o direito de ter filhos – Com Leandro Karnal

O professor Leandro Karnal em  entrevista ao Poucas, falou sobre as negações de grupos de…

2 meses ago