Falar de casamento em tempos líquidos exige coragem intelectual e sensibilidade clínica. A obra de Mariolina Ceriotti Migliarese oferece exatamente isso. Psiquiatra e psicoterapeuta italiana, com larga experiência no acompanhamento de casais, ela propõe no livro “Casa Comigo de Novo”, uma reflexão madura sobre as crises conjugais como parte estrutural da vida a dois e não como sinal automático de fracasso.
No contexto das buscas atuais sobre “como salvar o casamento”, “crise conjugal tem solução?” e “como reconstruir a relação”, o livro se destaca por unir base clínica, observação empírica e uma compreensão antropológica da família. Não se trata de manual simplista de autoajuda, mas de um convite ao amadurecimento afetivo.
A autora parte de um princípio sólido também sustentado por estudos em psicologia do desenvolvimento e teoria do apego: o vínculo conjugal é um organismo vivo. Ele nasce, cresce, entra em tensão, adoece e pode se transformar ou morrer. O problema não é a crise. O problema é não saber atravessá-la.
Um dos pontos centrais do livro é a desmistificação da ideia de que casamentos saudáveis não entram em conflito. Do ponto de vista psicanalítico e sistêmico, o conflito é inevitável porque duas subjetividades completas jamais coincidem integralmente.
A vida conjugal expõe projeções, fantasias inconscientes, expectativas infantis e modelos parentais internalizados. Muitas crises não dizem respeito ao presente do casal, mas a conteúdos psíquicos anteriores que ganham palco no relacionamento. Quando a idealização cai, o parceiro deixa de ser espelho narcísico e passa a ser um outro real. É aí que o casamento começa de verdade.
Migliarese propõe que cada fase da vida traz uma reorganização do vínculo. A chegada dos filhos, mudanças profissionais, envelhecimento e lutos exigem uma nova negociação do pacto conjugal. Dizer “casa comigo de novo” significa aceitar que o casamento precisa ser renovado ao longo do tempo.
Um dos temas mais atuais em pesquisas sobre relacionamento duradouro é a tensão entre autonomia e fusão. A autora destaca que o casal saudável não é aquele que dissolve identidades, mas o que constrói uma unidade preservando a singularidade de cada um.
Do ponto de vista pedagógico e social, isso tem impacto direto na formação dos filhos. Crianças que crescem observando pais que se respeitam como indivíduos aprendem que o amor não é controle nem dependência absoluta. O casamento torna-se um espaço de crescimento mútuo.
A autora sustenta que muitas crises nascem da tentativa de transformar o outro em extensão de si. Quando o casal aceita a diferença como dado estrutural da relação, a tensão deixa de ser ameaça e passa a ser movimento de ajuste.
Em uma cultura marcada pelo imediatismo, a ideia de compromisso pode parecer antiquada. Migliarese recoloca o compromisso no campo da liberdade adulta. Permanecer não é suportar sofrimento abusivo, mas decidir, de forma consciente, investir na reconstrução quando há base afetiva e ética para isso.
A reconstrução exige diálogo honesto, responsabilização pessoal e capacidade de revisão. A autora não romantiza o sofrimento, mas também não incentiva o descarte automático. Ela propõe discernimento. Casamento duradouro não é ausência de falhas, mas presença de trabalho emocional contínuo.
“Casa comigo de novo” não é apenas um título sugestivo. É uma proposta ética. A autora sugere que o amor adulto exige maturidade psíquica, flexibilidade e coragem para rever ilusões. Sob a lente psicanalítica, o casamento é também um espaço de elaboração interna. O outro nos confronta, nos limita e nos expande.
Em uma sociedade marcada pelo descarte rápido de vínculos, a reflexão de Migliarese oferece um contraponto responsável. Nem idealização romântica, nem cinismo afetivo. O casamento pode ser reconstruído quando há desejo de crescer e capacidade de transformação.
Para quem busca compreender a crise conjugal de maneira profunda, com respaldo clínico e sensibilidade humana, a obra é uma leitura consistente e atual.
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