Os valores “Bom” e “Mau”
“Torna-se possível… traçar um dupla história dos valores “Bem” e “mal”. O fraco concebe primeiro a ideia de “mau”, com que designa os nobres, os corajosos, os mais fortes do que ele – e então a partir da ideia de “mau”, chega, como antítese, à concepção de “bom”, que se atribui a si mesmo. O forte, por outro lado, concebe espontaneamente o princípio “bom” a partir de si mesmo e só depois cria a ideia de “ruim”. Do ponto de vista do forte, “ruim” é apenas uma criação secundária, enquanto para o fraco “mau” é a criação primeira, o ato fundador da sua moral, a moral dos ressentidos. O forte só procede por afirmação e, mais, por auto-afirmação; o fraco só pode firmar-se negando o que considera ser o seu oposto. (“Para a Genealogia da Moral”, Primeira dissertação, parágrafo 9)
Moralidade e sucesso
Não são apenas os espectadores de um ato que com frequência medem o que nele é moral ou imoral conforme o seu êxito: não, o seu próprio autor faz isso. Pois os motivos e intenções raramente são bastante claros e simples, e às vezes a própria memória parece turvada pelo sucesso do ato, de modo que a pessoa atribui ao próprio ato motivos falsos ou trata motivos secundários como essenciais. E frequente o sucesso dar a um ato o brilho honesto da boa consciência, e o fracasso lançar a sombra do remorso sobre uma ação digna de respeito. Daí resulta a conhecida prática do político que pensa: “Deem-me apenas o sucesso: com ele terei a meu lado todas as almas honestas – e me tornarei honesto diante de mim mesmo”. – De modo semelhante, o sucesso pode tomar o lugar do melhor argumento. Muitos homens cultos acham, ainda hoje, que a vitória do cristianismo sobre a filosofia grega seria uma prova da maior verdade do primeiro – embora nesse caso o mais grosseiro e violento tenha triunfado sobre o mais espiritual e delicado. Para ver onde se acha a verdade maior, basta notar que as ciências que nasciam retomaram ponto a ponto a filosofia de Epicuro, mas rejeitaram ponto a ponto o cristianismo. (Friedrich Nietzsche, “Humano, demasiado humano“, Cia de Letras, p. 62, aforismo 68, ano 2001, São Paulo)
Saber esperar
A paixão não quer esperar. O trágico na vida de grandes homens está, frequentemente, não no seu conflito com a época e a baixeza de seus semelhantes, mas na sua incapacidade de adiar por um ou dois anos a sua obra; eles não sabem esperar. – Em todos os duelos, os amigos que dão conselhos devem verificar apenas uma coisa: se as pessoas envolvidas podem esperar; se este não for o caso, um duelo é razoável, pois cada um diz a si mesmo: “Ou eu continuo a viver, e então ele deve morrer imediatamente, ou o contrário”. Em tal caso, esperar significaria sofrer por muito tempo ainda o horrendo martírio da honra ferida, diante de quem a feriu; o que pode constituir mais sofrimento do que o que vale a própria vida. (Friedrich Nietzsche, “Humano, demasiado humano“, Cia de Letras, p. 60, aforismo 61, ano 2001, São Paulo)
A esperança
Pandora trouxe o vaso que continha os males e o abriu. Era o presente dos deuses aos homens, exteriormente um presente belo e sedutor, denominado “vaso da felicidade”. E todos os males, seres vivos alados, escaparam voando: desde então vagueiam e prejudicam os homens dia e noite. Um único mal ainda não saíra do recipiente: então, seguindo a vontade de Zeus, Pandora repôs a tampa, e ele permaneceu dentro. O homem tem agora para sempre o vaso da felicidade, e pensa maravilhas do tesouro que nele possui; este se acha à sua disposição: ele o abre quando quer; pois não sabe que Pandora lhe trouxe o recipiente dos males, e para ele o mal que restou é o maior dos bens – é a esperança. – Zeus quis que os homens, por mais torturados que fossem pelos outros males, não rejeitassem a vida, mas continuassem a se deixar torturar. Para isso lhes deu a esperança: ela é na verdade o pior dos males, pois prolonga o suplício dos homens. (Friedrich Nietzsche, “Humano, demasiado humano“, Cia de Letras, p. 63, aforismo 71, ano 2001, São Paulo)
(Trechos dos livros: “Para além do bem e do mal”; “O crepúsculo dos ídolos”; “A gaia ciência”, “O anti-Cristo”; “Humano, demasiado humano”).
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