Psicologia e Comportamento

A depressão nos homens: um mal silencioso e particularmente angustiante

William S. Pollack, psicólogo clínico, professor da Harvard Medical School e diretor do Center for Men at McLean Hospital, dedicou décadas à escuta profunda do sofrimento psíquico masculino. Em seu livro seminal, “Meninos de Verdade: Conflitos e Desafios na Educação de Filhos Homens”, ele desvela com clareza e humanidade o sofrimento silencioso que meninos aprendem a mascarar desde cedo. Sofrimento esse que, ao chegar na vida adulta, pode se converter em depressão, abuso de substâncias e até suicídio.

Segundo Pollack, a cultura ensina os meninos a não sentirem, a não chorarem, a não pedirem colo. E é exatamente nesse ponto, quando a emoção é interditada, que começa a construção do colapso subjetivo. O que chamamos de “homem forte” muitas vezes é, na verdade, um menino ferido que cresceu calado.

De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS), homens com depressão grave são três vezes mais propensos ao suicídio do que as mulheres. No entanto, suas manifestações emocionais frequentemente não se encaixam nos manuais diagnósticos clássicos, razão pela qual a depressão masculina costuma passar despercebida ou ser confundida com estresse, irritação ou cansaço crônico.

Pollack nos convida a enxergar a depressão masculina como uma consequência social e emocional de um sistema que reprime a sensibilidade nos meninos, desde a infância. E, com isso, ele lança luz sobre um ponto essencial: prevenir o sofrimento psíquico dos homens adultos começa na escuta cuidadosa da infância.

7 Maneiras de Prevenir a Depressão nos Homens Adultos Desde a Infância

Baseado no livro Meninos de Verdade, de William S. Pollack, elaboramos 7 maneiras de prevenir a depressão nos homens adultos desde a infância. Confira:

1. Desconstruir o “código da masculinidade” na infância

Pollack chama de “Boy Code” a regra tácita que diz que menino não pode chorar, não pode demonstrar medo, nem pedir ajuda. Para prevenir a depressão futura, precisamos permitir que os meninos sejam vulneráveis — sem vergonha ou punição.

2. Validar e nomear emoções desde os primeiros anos

Meninos também sentem medo, tristeza, ciúmes, angústia. Ajudá-los a reconhecer, nomear e expressar essas emoções os torna mais aptos a lidar com frustrações na vida adulta.

3. Cultivar espaços seguros de escuta

Em casa e na escola, os meninos precisam de ambientes onde possam falar sobre si sem serem interrompidos, ridicularizados ou rotulados. Escutar um menino com presença e empatia é uma forma poderosa de evitar que ele cresça emocionalmente isolado.

4. Permitir o afeto entre meninos

Abraços, carinho e sensibilidade não são privilégios femininos. Quando um menino aprende que pode expressar afeto sem ser envergonhado por isso, ele cresce com mais capacidade de formar vínculos saudáveis e menos propensão ao retraimento emocional.

5. Ensinar que pedir ajuda é um ato de coragem

Desde cedo, meninos devem ser incentivados a falar com um adulto de confiança quando sentirem que algo não vai bem. Isso evita que cresçam com a ideia de que sofrer sozinho é prova de força.

6. Revisar os modelos de masculinidade oferecidos

Pais, educadores, cuidadores e a mídia devem apresentar referências de homens reais: sensíveis, íntegros, com coragem de chorar e também de rir. Homens que não precisem matar partes de si para parecerem “fortes”.

7. Valorizar o cuidado com o corpo e com a mente como um todo

A saúde emocional dos meninos deve ser tratada com a mesma importância que sua saúde física. Atividades como meditação, escrita, arte, dança e psicoterapia devem ser estimuladas como parte natural da vida, e não apenas em momentos de crise.

O sintoma camuflado: Quando o homem não se reconhece deprimido

A depressão masculina muitas vezes se disfarça de raiva, irritabilidade, isolamento ou comportamentos de risco. Como ensina o Dr. Pollack, muitos homens se afundam no álcool, no trabalho excessivo ou no silêncio porque não reconhecem o próprio sofrimento ou sentem vergonha de admiti-lo.

Segundo o psicólogo Sam Cochran, os homens costumam ver seus sintomas como meras crises de estresse, negando a possibilidade de estarem vivendo uma depressão. Já o especialista Fredric Rabinowitz afirma que a negação masculina dos sentimentos leva à busca de subterfúgios autodestrutivos e o mais perigoso deles é o suicídio.

Coragem para sentir é coragem para viver

A depressão nos homens, quando não prevenida, se transforma em uma armadilha existencial. O grito por ajuda pode não vir em palavras, mas no corpo que adoece, nas relações que se rompem, na vida que se esvazia.

É urgente construir uma cultura que acolha os meninos e os permita crescer como homens inteiros, emocionados, amorosos. Homens de verdade são aqueles que sentem, falam, choram e seguem vivos.

Fontes e leituras recomendadas:

 

Portal Raízes

As publicações do Portal Raízes são selecionadas com base no conhecimento empírico social e cientifico, e nos traços definidores da cultura e do comportamento psicossocial dos diferentes povos do mundo, especialmente os de língua portuguesa. Nossa missão é, acima de tudo, despertar o interesse e a reflexão sobre a fenomenologia social humana, bem como os seus conflitos interiores e exteriores. A marca Raízes Jornalismo Cultural foi fundada em maio de 2008 pelo jornalista Doracino Naves (17/01/1949 * 27/02/2017) e a romancista Clara Dawn.

Recent Posts

É a ciência que nos prova como o afeto e a cultura familiar, moldam o cérebro e o comportamento da criança para sempre

A educação que vem de casa, através da aprendizagem intergeracional, é um capital invisível, mas…

2 semanas ago

Word para PDF com erro de layout: o que pode causar esse problema

Converter um arquivo Word em PDF deveria ser um processo simples, mas erros de layout…

2 semanas ago

Dona Beja: a reparação histórica feita pela arte confronta a hipocrisia moral que ainda hoje persiste

A trajetória de Ana Jacinta de São José não pertence apenas ao registro histórico, mas…

2 semanas ago

O seu corpo é o primeiro espaço que você precisa configurar: ele é uma casa – Viviane Mosé

Desde os primeiros instantes de nossa existência, o corpo se manifesta como o palco primordial…

3 semanas ago

A ciência confirma: a ansiedade que sentimos hoje pode ser um luto que nossos avós não conseguiram elaborar

A ansiedade, em sua essência, não é uma vilã. Diferente da crença popular de que…

4 semanas ago

Não é com o crime que a violência contra a mulher começa: é na cultura , na maneira como nos educamos

O debate sobre a violência contra a mulher no Brasil ganha um novo capítulo com…

1 mês ago