Psicologia e Comportamento

Amor não se mendiga, amizade não se cobra, carinho não se pede

Existem certas coisas que não precisariam ser faladas, tampouco cobradas, de tão óbvias. Porém, passamos a vida lembrando algumas pessoas daquilo que elas deveriam já ter como hábito e isso cansa, diminui, abalando a autoestima de qualquer um. Se tivermos que lembrar aos outros o óbvio todos os dias, a todo instante, enlouqueceremos.

Amizade não deveria ser cobrada. Ter que correr atrás o tempo todo da pessoa, enquanto ela nem se lembra de que a gente existe, exaure a paciência mínima de um ser humano. Quando temos que, só nós, ficar mandando mensagens, telefonando, convidando procurando, é hora de repensar aquilo tudo, porque, provavelmente, a amizade somente existe em nós. Do outro lado, amizade é que não tem.

Carinho não deveria ser pedido, mas sim espontâneo, verdadeiro, necessário em quem oferta, tanto quanto em quem recebe. Carinho não somente se trata de toque, porque a gente se sente amado principalmente pelas atitudes do outro, pela forma como ele nos faz sentir, mesmo de longe. Ter que ficar cobrando palavras, gestos, comportamentos, ter que lembrar nossa existência a alguém é por demais humilhante. Ninguém merece.

Amor que se mendiga é tudo, menos amor. É o contrário de amor, é o que contraria o amor em si.

Sentimentos vêm de dentro e transpiram por todos os poros, materializando-se no encontro que transforma, no calor que motiva, na certeza que acalma, no abraço que reinicia. O amor precisa se expandir, precisa ser expresso, dito, ouvido, vivido, sem melindres, sem rodeios. Se houver carência de um ou de outro lado, não há reciprocidade e, então, amor nem tem.

Nossa sobrevivência em muito dependerá do discernimento entre o que é luta digna e o que nada mais é do que insistência servil. Lutar pelo que queremos não significa implorar por atenção, por amizade, por carinho, por amor. A dor da consciência sobre quem não está mais junto sempre será uma oportunidade de recomeço.

A dor da solidão acompanhada, porém, jamais nos tornará dignos de sentimentos verdadeiros e recíprocos. É isso.

Marcel Camargo

Graduado em Letras e Mestre em "História, Filosofia e Educação" pela Unicamp/SP, atua como Supervisor de Ensino e como Professor Universitário e de Educação Básica. É apaixonado por leituras, filmes, músicas, chocolate e pela família.

Recent Posts

O gatilho acontece no presente. Mas quem reage é a criança ferida ainda inscrita no seu sistema nervoso

O trauma emocional pode ser compreendido como uma experiência psíquica que ultrapassa a capacidade de…

1 dia ago

“Uma criança não pode abrir ou fechar a porta do consentimento. Ela não alcança a maçaneta” – Com Neige Sinno

Durante séculos, a infância foi compreendida muito mais como um território de autoridade adulta do…

2 dias ago

O Despertar do Teko: Por uma Educação que Acolha a Existência – Com Sandra Benites

A educação brasileira atravessa uma crise que vai além dos índices escolares, dos rankings e…

4 dias ago

Viver em um gênero que não te conforta só para o conforto alheio, é uma covardia consigo mesmo

A história da humanidade é, fundamentalmente, a história da nossa busca por um contorno. Desde…

5 dias ago

Japão cria Ministério da Solidão para prevenir mortes solitárias entre as pessoas idosas

O século XXI nos impõe um paradoxo civilizatório: nunca estivemos tão hiperconectados e, ao mesmo…

1 semana ago

Quando o gatilho do trauma é acionado, você não age na sua idade atual, você reage com a idade em que a dor aconteceu – Gabor Maté

O médico e escritor Gabor Maté, com seu olhar profundo e sulcado pelo tempo, traz…

1 semana ago