A Organização Mundial da Saúde decretou, em janeiro de 2025, a solidão como uma epidemia e criou uma comissão internacional para promover a conexão social. A definição de bem-estar, segundo a OMS, inclui três pilares: saúde mental, física e social. A saúde social refere-se às relações humanas. Em um mundo cada vez mais digital, a interação humana corporificada está prejudicada, e o isolamento social tem impactos negativos na qualidade de vida de todos nós.
Os brasileiros passam, em média, 9h13min por dia on-line, de acordo com o relatório da We Are Social e Meltwater — ficando atrás apenas da África do Sul em tempo de conexão virtual. Jovens relatam, no consultório, que preferem ficar horas no quarto conversando on-line com os “amigos”, criando vídeos, ensaiando coreografias, jogando videogames ou simplesmente rolando o “feed”, em vez de se encontrarem presencialmente. São os mesmos jovens que apresentam sintomas de ansiedade, depressão e dificuldades de concentração nos estudos.
Pais comentam a dificuldade em saírem com os filhos, que elegem o celular como a melhor companhia. Observo muitas famílias, tanto no cotidiano quanto na sala de espera, conectadas cada uma ao seu próprio smartphone, em vez de conversarem — o que revela uma desconexão na relação entre pais e filhos.
Muitas vezes, a família acaba permitindo que a criança ou o adolescente fique no quarto on-line, acreditando que está protegido por estar em casa, sem saber, no entanto, o que ele está vivenciando nas relações digitais — muitas vezes, exposto a riscos. Ao mesmo tempo, são crianças e adolescentes que não arrumam a própria cama, não organizam o material escolar, têm pouca autonomia e assumem poucas responsabilidades em casa.
Uma contradição dos tempos atuais: há uma subproteção no mundo virtual e uma superproteção no mundo real, como mostra Jonathan Haidt, psicólogo americano, em seu livro Geração Ansiosa. A desconexão nas famílias — pais e filhos dentro da mesma casa e tão distantes — é uma das principais mensagens do aclamado seriado britânico Adolescência, da Netflix, comentado no mundo todo (tema para o próximo artigo).
Pais reclamam que os filhos adolescentes não os escutam. Mas será que realmente estamos presentes e atentos ao que eles estão dizendo e fazendo? É curioso observar que, ao chegarem a um restaurante, a um destino de viagem em família ou entre amigos, a primeira pergunta geralmente é: “Qual é a senha do Wi-Fi?”. Fica evidente que a maior preocupação é garantir a melhor conexão digital, enquanto a conexão humana está com “sinal fraco”.
Há uma “intimidade artificial”, uma ilusão de se “relacionar” com milhares de pessoas on-line que, na verdade, pode intensificar a solidão e reduzir as conexões humanas. Para que o vínculo social realmente aconteça, é necessária a conexão olho no olho — que chamo de a mais alta tecnologia existente. É através do olhar do outro — da mãe, do pai, dos cuidadores — que nos tornamos humanos, somos investidos de afeto e inseridos na linguagem.
O que acontece quando o sinal da internet está fraco ou é interrompido? A conexão se perde, e podemos perder dados e informações importantes. Assim também acontece nas relações humanas.
A Associação Americana de Pediatria chamou a atenção para os prejuízos do uso excessivo de telas no desenvolvimento de bebês e crianças pequenas, especialmente na capacidade de “ler” o rosto dos adultos — o que dificulta a compreensão das emoções, o desenvolvimento da linguagem e a construção de vínculos sociais, como bem colocado por Ronaldo Lemos em seu texto publicado na Folha de S.Paulo (10/02/2025).
Observem uma pracinha, as mesas de um restaurante, a área de lazer de um prédio: babás e pais que poderiam interagir com as crianças estão olhando para as telas. Recentemente, observei um encontro de adolescentes. Estavam reunidos presencialmente, mas todos no celular. Pediram um lanche por delivery e a reunião continuou — cada um no seu smartphone.
Tamanha é a importância da conexão humana que a saúde social foi destaque em um dos maiores eventos de tecnologia, inovação e cultura do mundo: o South by Southwest (SXSW), em Austin, Texas, EUA, em março de 2025.
Kasley Killam, autora do livro “A arte e a ciência da conexão” (The Art and Science of Connection), explica que nunca foi tão importante se conectar com outro ser humano — e que nada substitui a profundidade do vínculo humano.
Há uma epidemia de solidão: um em cada quatro americanos sente-se solitário. Num cenário em que se discutiram computação quântica, inteligência artificial e outros avanços tecnológicos, Killam destacou as relações sociais como o principal fator de bem-estar, longevidade, saúde mental e motor para produtividade e inovação.
A conscientização e a preocupação com as relações humanas, apontadas no SXSW, são movimentos que, felizmente, também tenho acompanhado no consultório e em minhas palestras — por parte de pais, profissionais e da sociedade em geral, atentos ao uso excessivo das telas e seus prejuízos.
“O que poderíamos fazer?” – Essa foi a frase do pai da personagem principal da série Adolescência, que provocou muita angústia em todos nós. Eu a refaço: “O que podemos fazer?” Qual é a nossa responsabilidade no contexto digital com crianças e adolescentes? Sem dúvida, estar presentes e atentos. Como?
Resgatando momentos de conexão verdadeira — em família, com amigos, na natureza, durante as refeições, sem celulares. Promovendo o diálogo. Só assim estaremos atentos aos sinais do corpo e da mente — a um pedido de ajuda, como o isolamento. Além disso, é essencial resgatar o brincar — recurso fundamental para a socialização, para lidar com frustrações, compreender regras e elaborar emoções.
Praticar esportes também contribui para a socialização entre família e amigos, fortalece a autoestima, desenvolve a disciplina, previne ansiedade, depressão e estresse, além de promover uma sensação genuína de prazer. Finalizo relembrando a definição da OMS em relação à saúde: não se trata apenas da ausência de doença, mas da garantia do bem-estar físico, mental e social.
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